Arquivo da tag: paciência

Conselhos Espirituais

Para Aléssia Saracini e outras discípulas

Saudação e objetivos

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssima filha(1), eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver como seguidoras e amantes da verdade.

União com a Trindade

Assim eu vos verei como o apetite sensível dominado e a inteligência iluminada pela fé, de modo que, tendo renunciado à própria vontade, possais dizer de verdade com o apóstolo Paulo: “Meu senhor, que queres que eu faça? Dizei-me o que desejais que eu faça, e eu o farei” (At 9,6). Caríssima filhas, se realizardes isso como resposta ao nosso Criador, eu vos prometo que subireis com Paulo ao terceiro céu até ao seio da Trindade( 2Cor 12,2). Vossa memória se encherá da lembrança dos benefícios divinos, participando do poder de Deus Pai que vos tornará fortes e pacientes diante das perseguições do mundo, que com paciência vós dominareis. Vossa inteligência, ao contemplar a sabedoria do Filho de Deus, por ela será iluminada. Vossa vontade, unida pelo Espírito Santo no abismo do amor divino, receberá um suave e amoroso desejo de glorificar a Deus e de salvar as almas. Suavemente elevadas ao seio da Trindade, participando do poder de Deus Pai, da sabedoria do Filho e da clemência do Espírito Santo, sentidamente chorareis sobre a humanidade pecadora e sobre o corpo místico da Igreja junto comigo, vossa superpecadora e maldosa mãe.

Oração pela Igreja

Tende compaixão das minhas imperfeições, caríssimas filhas, porque sou a causa de todos os males do mundo inteiro, especialmente da perseguição que se faz à santa Igreja. Que Deus providencie diante de tantos males. Estou segura, e isto me conforta, de que sua providência não faltará. E parece-me que já começa a agir. Mas vos peço e ordeno, caríssimas filhas, que vos laveis e vos afogueis no sangue do Cordeiro imaculado, oferecendo diante dele humildes e continuas orações.

Exortação e conclusão

Nada mais acrescento , a não ser que Deus vos conceda sua eterna benção. E eu da parte dele vos abençôo. Amai-vos, amai-vos mutuamente. A ti, Aléssia, minha querida filha, eu peço que te inebries no sangue junto com as outras filhas. Alimenta-te somente do sangue de Cristo. Peço a Deus, verdade e bondade eterna, que sua graça seja abundante em ti e nas demais. Que eu veja inteiramente eliminada de tia a vontade pessoal, de modo que eu possa gloriar-me de ti e das outras filhas diante de Deus, agradecendo e louvando seu santo nome. Permanecei no santo amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

(1) (1)Aléssia Saracine enviuvou bastante jovem. Distribuiu entre os pobres os seus bens e vestiu o hábito da ordem da penitência de são Domingos. Foi a discípula predileta de Santa Catarina de Sena

Ca    Cartas Completas – Editora Paulus


(carta 13) Como adquirir a paciência

Santa Catarina de Sena

Santa Catarina de Sena

Para Marcos Bindi

Saudação e objetivo

Caríssimo irmão no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Deus, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver alicerçado na verdadeira e santa paciência, pois de outro modo não agradaremos a Deus e perderemos o prêmio de nossas fadigas.

A paciência é possível a todos

De fato, todos precisamos desta bela virtude. Se me disserdes:”Vivo em grandes dificuldades, não tenho forças para ser paciente e nem sei como chega-lo a sê-lo”, eu vos respondo: Quem segue a luz da sua razão (iluminada pela fé) consegue atingir a paciência. Concordo que somos fracos em nossa sesualidade. Sobretudo se a pessoa se apega desordenadamente a si mesmo, às pessoas e aos bens materiais. Quem é assim, sofre muito quando perde algo. Mas para quem usa retamente sua razão Deus lhe fortalece sua vontade e aquela fraqueza é vencida. Deus jamais despreza os esforços feitos para superar queixas exageradas. Ele aceita os bons desejos e concede a paciência na dificuldade.

Como vedes, todos podem chegar a ter paciência se usarem a reta razão e não ficarem únicamente ruminando a própria fraqueza. A nós dotados de razão, seria muito incoveniente fixarnos numa atitude irracional. Não somos como os animais. Ao nos impacientar escandalizamo-nos por acontecimentos permitidos por Deus e o ofendemos.

Quatro coisas necessárias para ser paciente.

Que devemos fazer para sermos pacientes, já que podemos e devemos adquirir esta atitude para não ofender a Deus? Quatro coisas!

Primeiro devemos ter fé

Digo que a primeira coisa é possuir a iluminação da fé. Com a luz desta virtude conseguiremos todas as outras; sem ela andaremos no escuro como um cego, para quem o dia torna-se noite. Para pessoa sem fé, tudo o que Deus faz por amor na claridade da luz, torna-se escuridão, trevas de ódio, pois a pessoa pensa que é por ódio que Deus permite os sofrimentos e as dificuldades. Vede como precisamos da luz da fé!

Segundo, devemos pensar que tudo vem de Deus por amor

A segunda coisa é crer firmemente que Deus existe e que tudo vem Dele menos o pecado. Não vem de Deus a má vontade do pecador. O restante – quer provenha do fogo, da água, da morte ou de qualquer outra coisa – vem de Deus. Diz Jesus no evangelho que sem a providência Divina não cai uma folha das árvores e diz ainda que os cabelos da nossa cabeça estão todos contados, e que nenhum deles cai sem que Deus o saiba (Mt 10,29). Ora, se Jesus fala assim a respeito das coisas materiais com maior razão cuida de nós criaturas racionais. Em tudo o que nos manda o permite, Deus usa da sua providência. Tudo é feito por Deus com mistério e amor. Jamais por ódio!

Terceiro, devemos crer que até na dor Deus nos quer felizes

Terceiro ponto; ocorre entender na fé que Deus é bondade suprema e eterna, que ele somente quer nosso bem. Desejo de Deus é que nos santifiquemos. Tudo o que Ele nos manda ou permite tem esta finalidade. Se duvidarmos disto, erramos. Basta pensar no sangue do humilde e imaculado cordeiro, transpassado pela lança, sofrido, atormentado. Entenderemos que o Pai eterno nos ama. Por causa do pecado, nos tinhamos tornado inimigos de Deus. Amorosamente, o Pai nos deu o Verbo, seu filho Unigênito. Este último entregou  por nós sua vida, correndo para uma vergonhosa morte na cruz. Por qual razão? Por amor a nossa salvação. Como vedes o sangue de Jesus dissipa toda a dúvida em nós, de que o Pai queira outra coisa além da nossa santificação. Aliás, como poderia Deus querer algo fora do bem? Impossível! Como poderia o supremo Bem descuidar-se de nós? Ele que nos amou antes de existirmos, Ele que por amor nos criou à sua imagem e semelhança, não poderia deixar de nos amar de prover às necessidades de nossa alma e do nosso corpo.

O criador sempre nos ama como criaturas suas. Somente o pecado Deus detesta em nós. Durante esta vida, na medida das nossas necessidades, Ele permite dificuldades quanto aos bens materiais. Como sábio médico nos ministra o remédio de que precisa nossa enfermidade. Deus age assim para eliminar nossos defeitos aqui na terra de maneira que tenhamos que sofrer menos na vida futura; ou para pôr à prova nossa paciência. Querendo experimentar Jó o senhor retirou-lhe os filhos e filhas; quanto ao corpo, mandou-lhe uma verminose e usou sua mulher para prova-lo no sofrimento, pois ela o atormentava com maldosas ofensas. Após provar a paciência de Jó Deus restitui-lhe o dobro em tudo e Jó não reclamou. Pelo contrário, dizia: “O senhor me Deus, o senhor me tirou. Bendito seja o seu nome” (Jó 1,21).

Deus permite algumas vezes tais coisas, para que nos conheçamos melhor em nossa instabilidade. E também conheçamos a instabilidade deste mundo. Tudo o que temos – vida, saúde, esposa, filhos, riquezas, posições sociais, prazeres – tudo nos é dado por Deus como empréstimo para nosso uso. Não como propriedade. É assim que devemos tratar tais coisas. Tanto é verdade, que não podemos impedir que tais coisas nos sejam retiradas quanto à graça divina é diferente. Nem os demônios nem outras criaturas nem as perseguições conseguem retirar de nós, se não dermos nosso consentimento.

Quando uma pessoa entende qual é a perfeição da graça e qual é a imperfeição do mundo e do nosso corpo, ela deixa de valorizar os prazeres mundanos e a própria fragilidade, pois tais realidades muitas vezes ocasionam a perda da graça por causa do amor sensível. E em sentido oposto começa a valorizar as virtudes que são os meios para conservarmos a graça. Pois bem, tudo isso nos vem de Deus por amor, afim de que viril e santamente preocupados nos afastemos do mundo e busquemos os bens eternos; deixemos de lado a terra com suas mazelas e procuremos ganhar o céu.

Sim não fomos criados para nos alimentar de terra. Somos peregrinos por aqui passam praticando a virtude em busca do Fim. Durante a caminhada não nos devemos deter por causa de algum prazer oferecido pelo mundo. Virilmente temos de nos apressar olhando as coisas da vida não com desordenada alegria ou com impaciência, mas na paciência e no Santo Temor.

O sofrimento que padeceis é de grande utilidade para vós. Deus vos oferece o modo de romper muitas amarras e de aperfeiçoar vossa consciência. Deus vos libertou e vos indicou a estrada, se é que a desejais segui-la. A eles (ou:elas) Deus deu a vida eterna e vos convida a alcança-la também por meio do sofrimento, afim de que conheçais a bondade divina e vossos defeitos, durante o restante da vossa vida.

Quarto, devemos meditar sobre os próprios pecados

A quarta coisa necessária para se tornar paciente é esta: Refletir sobre os próprios pecados e defeitos, sobre quanto já ofendemos a Deus. Ele é o Bem infinito. Destes pecados e defeitos, grandes ou pequenos que sejam, resultaria para nós um castigo infinito. Infelizes que somos! Ofendemos nosso Criador e merecemos mil infernos. E quem é este Criador ofendido! É a bondade sem limites. E nós quê somos? Nada! O ser que temos e qualquer outro beneficio a ele acrescentado, tudo veio de Deus. Por nós mesmos, nada somos. Em tal situação e merecendo um castigo eterno, Deus nos purifica aqui na terra. Mas ainda se aceitamos o sofrimento purificador alcançamos méritos. Isso não se cede na purificação da vida futura; no purgatório a alma se purifica mas nada merece. Como nos convém, pois tolerar com paciência estas pequenas dores agora.

Pequenas dores repito, por causa da brevidade desta existência. Aqui na terra a dimensão da dor tem a dimensão do tempo. E qual é a extensão do tempo? Assemelha-se à ponta de uma agulha. Assim sendo a dor é pequena. O sofrimento que passou ficou para trás, não o sinto mais; o sofrimento futuro ainda não padeço, e nem tenho certeza de continuar vivo. Posso morrer e não sei quando. Somente o presente existe nada mais. Soframos, então, com alegria. Toda ação boa é remunerada. Toda culpa é punida. São Paulo afirma: “Os sofrimentos desta vida não se comparam com a glória que receberá a alma paciente.” (cf. Rm 8,18).

Últimos conselhos. Conclusão

Eis a maneira como podereis adiquirir a virtude da perfeita paciência. Tal virtude adquirida com amor na fé vos fará tirar proveito de todo sofrimento. Em caso contrário, perdereis os bens terrenos e os celestes. Não existe outra solução. Por tal motivo disse eu acima que desejava vos ver alicerçado na perfeita paciência. Rogo-vos agir assim. Lembrai-vos do sangue de Jesus Cristo crucificado. Toda tristeza se mudará em alegria, todo peso se tornara leve. Não fiqueis a escolher tempos e lugares; contentai-vos com aquilo que Deus vos dá. Senti compaixão pelo que aconteceu. Ao que parece foi muito doloroso mas tudo aconteceu por providência divina e para vossa salvação. Peço-vos sejais forte e não relaxeis na suave disciplina da religião.

Nada mais acrescento, a não ser que aproveiteis o tempo em quanto o temos. Permaneceis no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.