Anjos são enviados de Deus para proteger aos homens, lembra o Papa

Retirado de Acidigital

Ao celebrar-se hoje a festa dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, o Santo Padre convidou a “invocar com confiança sua ajuda, assim como a proteção dos anjos custódios, cuja festa celebraremos em 2 de outubro”.

Deste modo sublinhou que “a presença invisível destes espíritos bem-aventurados nos ajuda e consola: eles caminham a nosso lado e nos protegem em toda circunstância, defendem-nos dos perigos e podemos recorrer a eles em todo momento”.

(carta 197) As tentações do diabo, do mundo e da carne

Para Mateus de Orvieto

Saudação e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssimo irmão e filho no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver como pedra firme, e não como folha levada por todos os ventos.

Três perigosas dificuldades

Porque a pessoa que não está alicerçada na rocha viva, que é Jesus Cristo – pondo o seu desejo somente em Deus e não nas realidades transitórias do mundo que passam como o vento – desanima por estar privada da graça divina. A graça conserva a alma, concede-lhe a vida e perfeita iluminação nas trevas, grande paciência, temor de Deus, humildade e amor fraterno pelo próximo. Essa pessoa não se impacienta sob o impacto das tribulações, nem falsamente sente-se feliz ao sopro das consolações espirituais, nem inflada de orgulho por causa da riqueza e da fumaça das honrarias humanas.

Nada disso lhe acontece, porque é firme. Seu alicerce é Cristo crucificado. A pessoa nem se preocupa com o sopro das três ventanias principais, causadas pelo diabo, pelo mundo e pela carne.

As tentações do diabo

Em primeiro lugar, do diabo procede a ventania de numerosas imaginações e tentações. A tentação de vaidade torna o coração leviano, imaturo, com forte desejo de alcançar altas posições no mundo; e que às vezes se apresenta em coloração de virtude. Essa é a pior ventania que se conhece. Somente a pessoa humilde não se deixa enganar por ela. A coloração de virtude, dada pelo diabo, é esta: a pessoa é maldosa e desprovida de virtude, mas tem um começo de desejo das coisas de Deus e dá algum sinal de virtude. Mas é ainda imperfeita, sem conhecimento de si e põe-se a investigar sobre a vida alheia, tanto material como espiritualmente. Então o diabo sugere um julgamento falso. A pessoa começa a julgar maldosamente o próximo, os servos de Deus e os amigos do mundo. E nem percebe o que o faz. Por que não percebe? Porque o diabo disfarçou o seu julgamento com o manto da virtude e a pessoa acha que faz o bem. Parece-lhe obter um duplo efeito, muitas vezes, como de estar fazendo um ato de culto a Deus. Mas engana-se porque age por orgulho. Se ela fosse humilde e se baseasse num conhecimento verdadeiro de si mesma, envergonhar-se-ia de emitir tais julgamentos; compreenderia que impõe regras a Deus. De fato, é o que faz ao criticar os servidores de Deus, ao querer orientar as pessoas segundo suas idéias e não como Deus as chama.

É por isso que a pessoa alicerçada na rocha viva, que é Cristo, oporá resistência a tais atitudes e, com muita humildade, procurará alegrar-se e glorificar a Deus pelos costumes e comportamentos dos seus servos; e, ao mesmo tempo, pedirá à misericórdia divina que olhe com piedade para aquelas pessoas, tirando-as do pecado e reconduzindo-as à virtude. Dessa maneira a pessoa tira uma rosa do espinheiro, conserva pura sua alma, sem dar asas à imaginação e enchendo à memória de fantasias sobre coisas espirituais e materiais. Isso fazem pessoas loucas, tolas e presunçosas que nada viram e investigam comportamentos alheios, de como fazer o bem. Essas se deixam levar pela ventania do diabo, tão perigosa. Ó boca maldita, como envenenaste com teu mau hálito o mundo, as pessoas do mundo e de fora dele, como ficou dito antes. Após julgar mal dentro de si mesma, tal pessoa, vazia põe-se a criticar, escandalizada com as coisas de Deus e do próximo. Uma pessoa assim deve ser evitada com santa prudência.

As tentações do mundo

Outra perigosa e perversa ventania é a do mundo. Consiste no egoísmo desordenado da pessoa complacente consigo mesma e que procura consolações e prazeres. Com o pensamento, ela esconde as trevas, a miséria e a transitoriedade do mundo, imaginando-o belo e agradável. Desse modo engana-se, imaginando que a vida é longa, quando na realidade é breve. Os prazeres, as consolações e a riqueza são vistos como coisas definitivas, e no entanto são mutáveis. Tudo nos é dado como empréstimo, para uso nas necessidades. Uma coisa é certa! Ou tais realidades são tomadas do homem, ou o homem é tomado delas. São retiradas de nós quando às vezes as perdemos, quando alguém no-la rouba ou por outros acontecimentos que as destróem e elas cessam. Digo que nós somos retirados dessas coisas, quando Deus nos chama, separando a alma do corpo. Então deixamos o mundo com seus encantos. E tal separação, nenhuma riqueza e nenhum poder conseguem evitar.

Dessa maneira a alma fraca e cega, que não elevou eu olhar acima da terra, como uma folha vai seguindo a ventania do próprio desordenado amor egoísta por si e pelo mundo. Da sua maldita boca saem, então palavras de inveja contra o próximo e murmuração, com elevada reputação de si. Muitas vezes com ódio e rancor contra o próximo. Muitas vezes, a pessoa se apossa de coisas alheias, com juramentos, perjúrios e falsos testemunho. Chega-se até a desejar a morte do próximo. Tendo o dever de amar todo mundo, a pessoa se transforma num devorador da carne e dos bens do próximo. Inteiramente volátil, poucas vezes completa um ato de virtude começado. A vida foi montada sobre a areia, onde edifício algum pode ser construído, sem logo cair por terra. Tal pessoa não possui a graça divina, perdeu a luz da razão. Caminha como animal, não como ser racional.

Por conveniência e necessidade, precisamos estar alicerçados na rocha viva. As pessoas que nela põem seu pensamento e seu amor não podem ser abaladas nem se deixam abalar por essa ventania maldosa do mundo. Tais pessoas até lhe opõem resistência e se defendem, desprezando o mundo com sua vaidade e seus prazeres. Elas eliminam o orgulho  com grande humildade e desejam a pobreza voluntária. E quem possui riqueza e alta posição social, conserva-as, mas  com amor e santo temor, como despenseiro de Cristo, socorrendo os pobres, ajudando os servidores de Deus, respeitando-os, compreendendo que eles se dedicam à oração com anseios, suores e lágrimas diante de Deus, a favor de todos. Estes vivem felizes sempre e em todas as situações, uma vez que se libertaram da desordem da vontade e do egoismo. Sendo tão importante esse alicerce na rocha, não se deve esperar para consegui-lo, pois desconhecemos o futuro.

As tentações da Carne

A terceira ventania consiste na tentação da carne. Ela espalha um mau cheiro intolerável, não apenas para Deus, mas também para os demônios, tornando a pessoa bestial. Torna-se como os animais, sem vergonha. Como o porco, a pessoa revolve-se na lama, na lama da desonestidade. Em qualquer estado de vida esteja, arruina-se. Se é casada, envenena o amor matrimonial. O que deve fazer com temor de Deus, ela o faz com amor desordenado e pouco honesto. Essas miseráveis pessoas não pensam na grande dignidade a que chegou a própria carne humana na união com Deus em Cristo. Se refletissem, prefeririam morrer e não se entregarem a tão grande baixeza. Sabes a que ponto chega esse mau hálito, que envenena todos os que de tal pessoa se aproximam? O coração da pessoa se torna suspeito, a língua murmura e blasfema, achando que existe nos outros a mesma coisa que existe nela. A pessoa assemelha-se a um doente, que estragou o próprio estômago. Ela acha ruim, como algo estragado, não somente o alimento normal, mas também aquele que o médico lhe prescreveu. E maravilha-se de que uma pessoa sadia, que come seu alimento, não sinta o mesmo sabor que ela sente. Assim os pecadores, que se entregam ao prazer da carne, arruinam a própria sensibilidade e a da comunidade dos que vivem no mesmo vício, e ficam escandalizados relativamente aos justos. Escandalizam-se até do próprio matrimônio, que Deus lhes deu como condescendência à sua frágil enfermidade, a própria esposa. Tendo um coração desordenado, até o amor da esposa lhe faz mal. Ciúmes e suspeitas fazem tais pessoas julgar má uma pessoa reta, e passam a odiar e desprezar o que deveria ser um justo amor. Em tal pessoa há um modo de ver. É seu olho que está doente. Não fosse assim, julgaria de outro modo. Oh! Quantos defeitos e inconvenientes procedem dessa ventania da carne! É algo que corrói por dentro. Como o mau hálito sai da boca, assim a pessoa julga mal a própria esposa. Disso deriva um outro defeito: se por inspiração divina ocorre à pessoa um bom desejo de corrigir-se e de viver bem o matrimônio, o verme da suspeita já penetrou no seu corpo e apaga o perfume da virtude, e sua podridão renasce. O que antes agradava à pessoa, passa a desagradar-lhe. Não tem constância, nem perseverança na virtude. A pessoa volta atrás, não examina o próprio erro e a própria doença (espiritual). E tudo isso sucede porque falta ao pecador  o alicerce na rocha viva ao ser atingido e forçado pela ventania da carne. É preciso que a pessoa se livre do apodrecido alicerce da impureza, fundamentando-se na rocha viva, Cristo. Então, a ventania da carne não a prejudicará. Ao contrário, poderá resistir com a virtude da continência e da pureza, disciplinando a vontade mediante a razão e o desejo santo, dizendo a si mesma: “Envergonha-te minha alma, por enfeares o teu rosto e corromperes teu corpo na impureza. Foste feita à imagem e semelhança de Deus. E tu, carne, foste elevada a uma altíssima dignidade na uniã da natureza divina com a humana (em Cristo) e foste elevada acima de todos os coros dos anjos”. Então a pessoa sentirá o perfume da virtude e o desejo de remediar com a vigília de oração e o conhecimento de si mesma. Ninguém se oponha ao conhecimento de si mesmo, mergulhando a mente em fortes imaginações e movimentos fisicos que ocorreram. O conhecimento de si será uma água que apagará a chma dos movimentos impuros. Que a pessoa não tenha medo de pegar a cruz, nela apoiar-se e navegar com os meios acenados antes, fundamentando-os na rocha viva, com firmeza e perseverança até a morte. Todos percebem que a perseverança é a que obtém a coroa.

Exortação e conclusão

Caríssimo irmão e filho, quero que vos liberteis da falta de perseverança e comeceis a entrar em vós mesmo. Conforme se vê diante de Deus, parece-me que desde algum tempo não pensais em vós mesmos. Tudo isso acontece porque o alicerce não foi bem construído nem fundamentado na rocha viva. Não por outro motivo acontece que os servos de Deus não perseveram; é a falta de perfeitos fundamentos. Como são fracos, desprovidos da virtude da fortaleza e sem a proteção da prática da virtude, ao serem atingidos pelas fortíssimas ventanias do diabo, do mundo e da carne, caem. Por isso, pensando nos remédios para vossas quedas, na necessidade que tendes de tomá-los e de refazer com grande humildade e desapego de vós mesmo o fundamento (da vida espiritual), afirmei que estava desejosa de vos ver como pedra firme, alicerçada na rocha viva que é Jesus Cristo, e não assentada na areia. Espero, na infinita bondade divina, que aceiteis com humildade a procura do conhecimento de vós mesmo e que cumprais a vontade divina e o meu desejo: que recupereis a vida da graça, vos livreis das trevas e tenhais a perfeita iluminação.

Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

(carta 159) Perseverar na luta pelo bem

Para frei Ranieri

Saudação e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, reverendo pai (1) em Jesus Cristo por respeito ao sacerdócio, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Deus, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver como valente soldado a lutar contra todo vício e tentação, em santa e firme perseverança com Cristo crucificado.

Na batalha pelo bem, Cristo é o exemplar

A perseverança é a virtude que recebe a coroa. Vós sabeis que com ela na batalha, sempre se alcança a vitória, Durante esta vida estamos como em campo de luta e devemos combater fortemente e nuca fugir dos golpes, não voltar atrás. Temos de olhar para o comandante, Cristo crucificado, que perseverou e não atendeu ao convite dos judeus, que diziam: “Desce da cruz”. Nem do demônio, nem da nossa ingratidão. Ele sempre perseverou e jamais deixou de cumprir a obediência ao Pai e de realizar a nossa salvação até o fim. Então, vitorioso regressou ao Pai, arrancando a humanidade das trevas e dando-lhe novamente a graça, após derrotar o diabo e o mundo com seus prazeres. E permaneceu morto (três dias). O Cordeiro morreu para nos conceder a vida. Com sua morte, destruiu nossa morte.

O ideal do lutador Cristão

O sangue e a morte deste comandante devem animar-nos, em toda batalha, a suportar sofrimentos, tormentos, censuras e ofensas. Por amor de Cristo, devemos assumir a pobreza voluntária, a humilhação interior, a obediência completa e perfeita. Desse modo, quando for destruído nosso corpo, nossa alma irá vitoriosa à cidade da vida sem fim; terá derrotado o diabo, o mundo e a carne, seus três perversos inimigos. Mas é sobretudo o “aguilhão da carne” (2Cor 12,7) que nos estimula a agir contra o espírito. Convém-nos, pois, dominar a carne e mortificá-la com o jejum, as vigílias e as orações. Quanto à imaginação, temos de incentivar santos ideais, em grande amor por tudo o que Cristo fez por nós, não por merecimento nosso, mas por dom gratuito. De fato, o Pai celeste nos deu o Verbo, seu Filho Unigênito. E o filho nos deu a vida da graça. Por amor Cristo derramou o sangue através de todas as partes do seu corpo.

Quando a pessoa pensa nesse tão grande amor de Cristo, atinge o máximo grau de caridade, embora não possa igualar o amor de Cristo, ainda que entregasse o corpo a todo sofrimento e aflição. Compreende ela que jamais corresponderia inteiramente a tão grande amor e a tão numerosos benefícios recebidos do Criador. Cristo é nosso Deus, que muito nos amou. Pensando nisso, afastareis as imaginações sugeridas pelo diabo.

Armas espirituais de defesa e de ataque

Vós, porém, poderíeis dizer-me: “Queres que eu seja um soldado corajoso. Estou no campo de batalha, atacado por muitos inimigos. Preciso de armas. Dize-me quais são?” Respondo-vos. Sim, não quero vos ver desarmado. Deveis usar as armas do apóstolo Paulo, que foi homem como vós. Ele usou o escudo da perfeita humildade e o escudo da ardente caridade. De fato, humildade e caridade estão sempre mutuamente unidas. Uma alimenta a outra. São essas as armas que vos indico. Elas nos protegem dos golpes e flechas envenenadas com que o diabo, o mundo e a carne podem nos atacar, de modo que não nos atinjam. De fato, a pessoa apoixonada por Cristo crucificado, não a atinge a flecha do pecado mortal, com o consentimento da vontade. Esta é tão forte, que diabo e criatura alguma podem obrigá-la a consentir.

Mas deveis usar igualmente a espada para defender-vos dos inimigos. É uma espada de dois gumes. A espada do ódio e desprezo de vós mesmo e do tempo gasto em pouco se preocupar com as virtudes, e sim em ser fraco e ofender nosso Redentor. Devemos odiar o pecado e a nós mesmos que o cometemos. De fato, a alma que possui Esse “ódio” procura “vingar-se” da vida passada e suporta por amor do orgulho mediante a humildade, a cupidez e a avareza mediante a generosidade e o amor, a liberdade exagerada mediante a obediência. Eis a vingança que devemos tomar ao usar essa espada do ódio e do amor.

Parabéns porque agora sois religioso

Alegro-me muito com as boas notícias que ouvi a vosso respeito. Parece-me que vos “vingastes” da antiga liberdade, entrando na obediência consagrada. Não podeis fazer coisa melhor, renunciando ao mundo e aos seus prazeres e satisfações, renunciado à vontade pessoal. Rogo-vos que, por amor de Cristo crucificado, persevereis virilmente nesse campo de batalha, não volteis atrás por causa de alguma dificuldade e tentação. Firmemente armado na maneira acima explicada, resisti e defendei-vos dos golpes que foram vibrados. Defendei-vos dos vossos inimigos com aquela espada de dois gumes.

Quero que planteis no coração e na própria alma a árvore da cruz. Configurai-vos a Cristo crucificado; inebriai-vos e revesti-vos de Cristo crucificado. Como diz o apóstolo Paulo: gloriai-vos da cruz de Cristo crucificado. Saturai-vos de afrontas, humilhações e ignomínias, tudo suportando por amor de Cristo crucificado, Pregai na cruz com Cristo o coração e vossas afeições. Porque a cruz é barca e porto, pois vos conduz ao porto da salvação. Os cravos mudam-se em chaves para abrir as portas do reino co céu.

Exortação e conclusão

Coragem, pai e irmão muito querido. Não durmais no leito da negligência. Qual soldado corajoso. Lutai contra o adversário. Deus vos concederá a plenitude da graça. Quando se encerrar vossa vida, depois do cansaço, chegareis ao repouso para ver a suprema beleza na visão de Deus, em quem a alma se aquieta e descansa depois de todo sofrimento e males. Ela receberá o bem total, a saciedade sem o enjôo, a fome sem o sofrimento. Terminai vossa vida na cruz! Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

(1) Frei Ranieri era um sacerdote secular, que cuidava desde muito da igreja de santa Cristina, em Pisa, na qual Catarina recebeu os estigmas de Cristo Crucificado, invisíveis, mas muito dolorosos.

Cartas Completas – Editora Paulus

Conselho aos pais

Relato de Santa Teresa de Ávila quando esta chegou a idade da razão.

Se eu tivesse de aconselhar, diria aos pais para se acautelarem com as pessoas que têm contato com seus filhos nessa idade. É grande o perigo, já que a nossa natureza tende mais para o mal do que para o bem.

Foi o que aconteceu comigo. Eu tinha uma irmã mais velha do que eu, (María de Cepeda) e não aprendi nada com a sua grande honestidade e bondade, mas assimilei todo o mal de uma parenta que freqüentava muito a nossa casa. Sua grande leviandade levaram minha mãe a se esforçar muito para afastá-la de casa; ela parecia adivinhar o prejuízo que, me sobreviria, e eram tantas as oportunidades de visitas que minha mãe nada pôde fazer. Passei a gostar dessa parenta. Com ela tinha conversas e entretenimentos, porque ela me ajudava em todas as diversões do meu agrado e até me atraía para elas, tornando-me ainda confidente de suas conversas e vaidades. Até o momento em que com ela convivi, por volta dos meus catorze anos, ou um pouco mais, não creio ter me afastado de Deus por algum pecado nem perdido o temor d´Ele, embora fosse mais forte o sentimento da honra. Este foi forte o bastante para que eu não a perdesse de todo; e tenho a impressão de que nada neste mundo poderia me fazer mudar nesse aspecto, nem o amor de nenhuma pessoa era capaz de me fazer fraquejar quanto a isso. Teria sido muito melhor se eu tivesse usado essa força para não ofender a honra de Deus, em vez de empregar tanto esforço em não fracassar no que considerava a honra do mundo! E, no entanto eu a perdia de tantas outras maneiras!

Eu exagerava nesse inútil apego à honra. Não empregava os meios necessários para conservá-la, preocupando-me apenas em não me perder por inteiro.

Meu pai e minha irmão tinham muito desgosto com essa amizade, repreendendo-me freqüentemente por mantê-la. Como não podiam evitar que a parenta fosse à nossa casa, foram inúteis os seus esforços, pois era grande minha esperteza para o mal. Às vezes, o prejuízo que vem das más companhias me causa espanto e, se não tivesse passado por isso, não poderia acreditar; especialmente na época da mocidade, deve ser maior o mal que isso traz. Eu gostaria que os pais, com o meu exemplo, se acautelassem e observassem bem isso. A verdade é que essa amizade me transformou a tal ponto que quase nada restou da minha inclinação natural para a virtude; e me parece que ela e outra moça, que gostava do mesmo tipo de passatempo, imprimiam em mim seus hábitos.

Isso me faz entender o enorme proveito que vem da boa companhia e estou certa de que, se naquela idade tivesse tido contato com pessoas virtuosas, a minha virtude teria se mantido intacta; porque, se tivesse tido, nessa idade, pessoas que me ensinassem a temer a Deus, a minha alma teria se fortalecido contra a queda. Tendo perdido esse temor de Deus, ficou-me apenas o de perder a honra, o que, em tudo o que eu fazia, me trazia aflição. Pensando que não se teria como descobrir, atrevi-me a fazer coisas contra a honra e contra Deus.

Foram essas coisas que, em princípio, me fizeram mal, e creio que a culpa não devia ser dessa parenta, mas minha, visto que já bastava minha própria inclinação para o mal; havia na casa criadas, que em tudo me ajudavam em minhas vaidades; se alguma me tivesse dado bons conselhos, talvez não me entregava a pecados graves, porque não gostava, por natureza, de coisas desonestas, mas me dedicava a conversas desagradáveis – o que não impedia que eu estivesse em perigo, exposta a situações arriscadas, expondo a elas também meu pai e meus irmãos. De tudo isso Deus me livrou, e de um modo que mostrou com clareza estar Ele procurando, até contra a minha vontade, evitar que eu me perdesse por inteiro. Mas o meu proceder não permaneceu tão oculto a ponto de não lançar dúvidas contra a minha honra e criar suspeitas em meu pai. Eu estava envolvida nessas vaidades há uns três meses, quando me levaram a um mosteiro existente no lugar (Convento de Nossa Senhora da Graça), nele, criavam-se pessoas em condições semelhantes, embora não de costumes tão ruins quanto os meus; e isso de maneira tão discreta, que só eu e um parente o soubemos. Dessa maneira, esperaram uma ocasião adequada, que não parecesse estranha: foi o casamento da minha irmã (María de Cepeda), que me deixou só, o que não parecia próprio.

Era tão grande o amor de meu pai por mim, e tanta a minha dissimulação, que ele não acreditava que eu fosse tão má, razão por que não perdeu a confiança em mim. Como o período dessas minhas leviandades foi curto, embora alguma coisa tivesse diso percebida, nada se podia dizer com certeza; com o grande cuidado que eu tinha para que nada se soubesse, visto que temia tanto pela minha honra, eu não via que não podia ocultar algo de quem tudo vê. Ó Deus! Que mal faz o mundo de não se levar isso em conta e pensar que alguma coisa contra Vós possa ser secreta! Estou certa de que muitos males seriam evitados se soubéssemos que o importante não é nos ocultar dos homens, mas evitar descontentar a Vós.

Os primeiros oito dias foram dolorosos, e mais por eu temer que minha vaidade tivesse sido divulgada do que por estar ali. Na época, eu já estava cansada e passara a temer muito a Deus quando o ofendia, procurando confessar-me tão logo pudesse. Isso me causava tanto desassossego que, depois de oito dias no mosteiro, talvez antes, eu esta muito mais feliz que na casa de meu pai. Todas estavam satisfeitas comigo, pois o Senhor me concedeu a graça de agradar a todos onde que que eu estivesse, sendo assim muito querida. Naquele tempo, desgostava-me a idéia de tornar-me monja; apesar disso, eu apreciava ver as boas religiosas daquela casa, muito honestas, fervorosas e recatadas. E, no entanto, isso não impedia o demônio de me tentar nem as pessoas de fora de me desassossegar com recados. Como, porém, eu os desencorajasse, breve tudo teve fim. Minha alma reencontrou o bem de minha meninice, e vi o grande favor que Deus concede a quem põe em companhia dos bons. Crio que Ele buscava incessantemente a melhor maneira de me trazer a Si. Bendito sejais, Senhor, que tanto sofrestes por mim!Amén.

Havia algo que, não fossem tantas as minhas culpas, talvez pudesse me desculpar: minhas amizades podiam acabar bem, resultando em casamento. Meu confessor e outras pessoas que me aconselhavam diziam que muitas coisas que eu fazia não eram contrárias a Deus.

Em nosso dormitório de educandas dormia uma monja (María de Briceño) por meio da qual o Senhor quis, ao que parece, começar a iluminar-me.

Frei Raimundo de Cápua

Nascido em Cápua por volta de 1330 entrou para a ordem dos dominicanos no convento de Orvieto antes de 1348 e foi ordenado padre em cerca de 1355. Diretor do convento das religiosas de montepulciano, escreveu sobre a vida de Santa Agnes sua fundadora (Legenda Sanctae Agnetis). Prior da minerva em Roma, em 1367, depois mestre em florença, em 1373, tornou-se confessor de Catarina em 1374. Em 1375, em Pisa, encontrava-se perto dela quando ela recebeu os estigmas. Em Avignon, em 1374, foi seu interprete quando ela foi recebida pro Gregório XI. Frei Raimundo em seu ministério de confessor acompanhou Catarina e sua famiglia em seus deslocamentos eleito novamente prior da minerva em Roma, recebeu várias cartas de Catarina. Em Óstia, em dezembro de 1378, Raimundo embarcou para uma missão junto de Carlos V, Rei da França; foi então que teve seu último encontro com Catarina. Em 1380, Frei Raimundo foi eleito mestre geral da ordem dos irmãos pregadores para a obediência Romana. Apartir de então dedicou-se com energia a reunir e revitalizar a ordem cujo declínio fora provocado pelo cisma e pelas grandes epidemias de peste. Morreu em 5 de outubro de 1399, Quando de sua visita ao convento de Nuremberg. Foi beatificado em 15 de maio de 1890 por Leão XIII.

Amigo e confidente foi a testemunha mais próxima dos acontecimentos da vida de Catarina, que ele evoca em Legenda Maior (1385 – 1389) obra concluída com a colaboração de Tommaso Caffarini. Esta bela hagiográfia, considerada a biografia oficial de catarina de Sena, enfatiza as mortificações que ela se infligia sua missão apostólica e as graças sobrenaturais que recebeu (Legenda S. Catharinae Senensis, Anvers, 1675)

Oração de Santa Catarina de Sena

AUXÍLIOS DIVINOS PARA A REFORMA DA IGREJA (VII – A fortaleza da alma)

1. Mil auxílios da Providência

Confesso, Deus eterno; confesso, eterno Deus, alta e eterna Trindade (1). Tu me olhas e conheces! Entendi isso na tua luz. Confesso, eterno Deus: sei quais são as necessidades da tua dulcíssima Esposa, a Igreja; conheço a boa vontade do teu Representante (2). Mas quem o impede de realizá-la? Vi na tua luz que conheces tudo isso, pois nada está oculto ao teu olhar.

Na tua luz eu vejo que providenciaste a medicina para a Humanidade morta, no Verbo, teu Filho unigênito. Outro medicamento, que providenciaste para tal morto, foi conservar as cicatrizes no corpo (ressuscitado) de Cristo, para que implorassem misericórdia junto de Ti. Na tua luz eu vi que as conservastes num arroubo de amor. Tanto as cicatrizes como a cor do sangue continuam sem contradição no seu corpo.

Em Ti mesmo viste que, após a cura da enfermidade (humana), os homens iriam continuar a cair diariamente nos seus pecados. Por isso, deixaste o sacramento da Penitência. Nele, o sacerdote derrama o sangue do Cordeiro na face da alma.

Puseste o Filho como principal medicina para reconciliar-nos contigo e ainda esses outros meios, necessários para a salvação. Na tua luz, eu sei que conhecestes tudo isso com antecedência. Em tal luz eu vejo; sem ela, andaria nas trevas.

Amor dulcíssimo! Viste as necessidades da santa Igreja e o medicamento de que precisava. Para isso providenciaste a oração dos teus servidores. Queres que eles construam um muro, no qual se apóiem as paredes da santa Igreja, e neles a clemência do Espírito Santo acende inflamados desejos de reforma.

Viste (no homem decaído) a lei perversa, sempre pronta a rebelar-se contra a tua vontade. Sabias que muitos de nós iríamos seguir. Conheces a fraqueza da nossa natureza, quanto ela é débil, frágil, mísera. Por isso, ó Provedor dos homens, providenciaste o remédio, dando-nos o rochedo fortificado da vontade. A fraqueza da carne nos acompanha, mas a vontade é tão firme que demônio ou criatura alguma é capaz de vencê-la, contra nosso querer, isto é, sem o consentimento do livre-arbítrio, que defende aquela fortaleza.

Donde provém, Bondade infinita, essa firmeza da vontade? De Ti que és a suprema e eterna força. Vejo que nossa vontade participa da fortaleza da tua vontade, pois dela procede. Nossa vontade tanto é firme quanto segue a tua; tanto é fraca quanto dela se afasta. Tua vontade criou a nossa; permanecendo unida à tua, nossa vontade é firme.

Tudo isso eu vi na tua luz! Ó Pai eterno, em nossa vontade revelas a firmeza da tua; mas se tornaste forte uma realidade tão pequenina, quão grande pensaremos tua vontade, pois és o Criador e Regedor de todas as coisas.

Outra coisa vejo na tua luz: parece-me que a vontade, que recebemos de Ti livre, é fortalecida pela iluminação da fé, na qual conhecemos teu querer eterno, que nada mais deseja que a nossa santificação. Conforme aumenta a iluminação, firma-se a vontade na prática das ações. Seja a vontade reta, como a fé viva, não podem ficar sem as obras. A iluminação da fé nutre e dá crescimento à chama (do amor) na alma. Esta nunca experimentaria o fogo do teu amor se a fé não lhe revelasse teu amor e estima por nós. Ó luz da fé!  Tu és a lenha que incendeia o amor da alma. Como a lenha faz crescer a chama natural, tu aumentas a caridade no homem. Revelas a ele a bondade divina e o amor da alma aumenta, pelo desej ode conhecer a Deus, anseio que ajudas a realizar.

Provedor boníssimo! Não quisestes que o homem vivesse nas trevas e na guerra; deste-lhe, então, a luz da fé. Ela nos indica o caminho e nos dá paz e quietude. A fé não deixa a alma morrer de fome, viver nua e pobre. Pelo contrário, alimenta-a com a graça, faz saborear no amor o Alimento (eucarístico), veste-a com a roupa nupcial da caridade e do teu querer, revela-lhe os tesouros eternos.

Pequei, Senhor, tem compaixão de mim! As trevas da lei perverssa, que sempre segui, ofuscou minha inteligência. Por isso não Te conheci, ó verdadeira luz! Mas mesmo assim, agradou à tua caridade iluminar-me.

2. Súplica pelo papa e pelos discípulos

Ó Deus eterno, Amor sem preço! Pela criação, estás mutuamente amalgamado com o homem pela força da vontade, pela chama (de amor) com que o criaste, pela iluminação natural que lhe deste. Mediante eal iluminação, o homem Te conhece e age desejoso das virtudes reais e verdadeiras, para a glória e louvor do teu nome. Tu és aquele que é; os demais seres, deixando de lado o que lhes deste, nada são.

Ó minha alma, cega, mísera! És indigna de formar com os demais servidores de Deus um muro para sustentar a santa Igreja. Mereces estar no estômago de um animal, pois tuas ações foram sempre animalescas.

Deus eterno! Agradeço-Te, agradeço-Te, agradeço-Te porque me escolheste para tal trabalho, não obstante minhas iniquidades. Suplico, então: já que pões na mente dos teus servidores anseios e inflamados desejos de reformar tua Esposa, e os levas a clamar em contínua oração, escuta seu clamor. Conserva e aperfeiçoa a boa vontade do teu Representante. Seja ele perfeito, na medida que lhe pedes. O mesmo eu peço para todos os homens. De modo especial para aqueles que colocaste sobre os meus ombros. Fraca e incapaz, eu os entrego a Ti. Não quero que meus pecados os prejudiquem, pois sempre segui a perversa lei. Desejo e rogo que eles Te sigam na perfeição; mereçam ser atendidos nas preces que fazem, e devem fazer, pelo mundo inteiro e pela santa Igreja.

Pequei Senhor, tem compaixão de mim!

(1) Catarina recitou esta oração no dia 20 de fevereiro de 1379

(2) O papa Urbano VI

As orações – Santa Catarina de Sena – Editora Paulus

Quem é Satanás? Quem são os demônios?

Trecho do Livro Novos relatos de um exorcista do Padre Gabriele Amorth

Outros trechos do livro aqui e aqui

São Miguel

São Miguel

Sabemos muito pouco a respeito do mundo visível e, menos ainda, sobre o mundo invisível; por isso, é muito cômodo negar a sua existência, em vez de investigá-lo. E nem sequer percebemos que estamos negando a onipotência e a sabedoria de Deus, que tudo criou com uma majestade inconcebível à mente humana, com uma ordem perfeita, com fins bem determinados.

Quando me interrogam sobre o número dos anjos, cito o Apocalipse que fala de miríades de miríades: um número imenso, incompreensível a nossa mente. Quando me interrogam sobre o número dos demônio, respondo com as palavras que o próprio demônio deu através de um possesso: “Somos tantos, que, se fôssemos visíveis, obscureceríamos o Sol”.

Para dar uma idéia da grandiosidade dos seres criados, que nos passam despercebidos, convido você a refletir sobre os corpos que giram no céu. Melhor do que eu, um astrônomo poderia ilustrar as maravilhas do universo; foi por isso que um deles afirmou: “Eu não creio; eu vejo”. Se refletirmos, ficaremos espantados. Todo o universo é dirigido por forças interligadas com a sabedoria perfeita: por exemplo, a Terra mantém a Lua ligada a si com uma força de atração, sem que esta lhe caia em cima, porque uma sapiente lei centrípeta a faz rodar em torno do nosso planeta. Todo o sistema solar faz parte de uma galáxia composta por bilhões de corpos estelares; sabemos que nesta galáxia, todos estes corpos são mantidos unidos por um centro de atração que os astrônomos colocam a cerca de 30 mil anos-luz do sistema solar. O eixo da nossa galáxia é de cerca de 90 mil anos-luz. É uma dimensão pertubadora! E, no entanto, vista de longe, a nossa galáxia parece apenas um ponto luminoso.

Vemos inúmeras galáxias a enormes distâncias. Quantas? É impossível dizer. Os astrônomos gostariam de identificar o centro do universo, gostariam de poder identificar um ponto central de gravitação de todos os corpos celestes; por enquanto, têm de se contentar em formular hipóteses. Tudo o que admiramos no sistema cósmico, no infinitamente grande, outros cientistas admiram-no na coordenação dos átomos, no infinitamente pequeno.

Se a ordem natural nos espanta, que dizer da ordem espiritual? Aquele Deus que criou, com uma ordem admirável e com leis estupendas, miríades de miríades de espíritos celestes! A Bíblia fala-nos de nove coros angélicos. Os padres da Igreja e os eclesiásticos estudaram e escreveram muito sobre eles… Mas os teólogos modernos… Eles se ocupam com a sociologia. Contudo, entre espíritos celestes reina uma ordem, uma hierarquia, um fim inteligente (dado que se trata de seres inteligentes e livres) que é alegria, felicidade e beleza. Tudo para louvor do Criador.

É opinião comum, dedutível do relato bíblico, que Deus teria criado primeiro os anjos e, depois, o cosmo. O mistério da criação do mundo material é certamente admirável, enquanto procede da onipotência e da sabedoria de Deus; mas seguramente só atinge o seu significado quando acontece a criação do homem: porque é somente com a presença do homem que todas as criaturas sensíveis, às quais o homem pertence, se reúnem com Deus, seu criador.

O homem, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26), como ser racional, tem a possibilidade de se juntar ao seu criador e de comunicar-se com Ele. Pelo contrário, o mundo material, embora tenha a sua origem em Deus, não pode gozar de um intercâmbio direto e imediato com seu Criador, de quem depende total e passivamente.

Os espíritos celestes, ou seja, os anjos, não estão sujeitos, pela sua natureza, a uma relação imediata com este mundo material. Diante da sua inteligência, à medida que Deus os criava, não compreendiam o seu objetivo. Eles eram puros espíritos; aos seus olhos, o mundo material não tinha um porquê; antes lhes apareceu no mundo a criatura racional, o homem, que tinha uma relação imediato com Deus, porque era um ser inteligente e livre, e estava em condições de dar significado a todo o mundo material, servindo-se dele para louvar o Criador.

Pode-se pensar que a rebelião da parte dos anjos seja anterior à criação do homem. Uma explicação possível é a de que uma parte dos anjos teria ficado escandalizada, precisamente com a criação do mundo material, ou seja, antes do cosmo ter sido completado e enobrecido pela presença do homem. Eles, os anjos rebeldes, não louvaram a Deus desde o princípio, isto é, desde quando Ele Estava criando o mundo material que, do ponto de vista dos puros espíritos, que parecia um absurdo. Não souberam acreditar na sabedoria divina, um pouco como pode acontecer conosco, os homens; diante da dor, deixamos de acreditar em Deus. Este poderia ter sido um bom motivo para sua rebelião.

Quem é Satanás? A tradição rabínica afirma que era o espírito de maior importância diante do trono de Deus, dotado de doze asas, quer dizer, o dobro das asas dos serafins (cf. Pircké de Rabbi Eliézer, 13). Imaginemos que a nossa galáxia se revoltava contra as leis que regulam o movimento incessante dos planetas e atravessado os céus à sua vontade: quantos milhões de milhões de corpos arrastariam atrás de si e que enorme destruição provocariam em todo o firmamento! A maioria dos anjos viu o princípio da queda de Satanás, no seu orgulho em querer estar acima da sua condição, em querer afirmar a sua independência em relação a Deus e em querer se fazer igual a Deus. Outras explicações se deram nos séculos seguintes. Todas concordam em ver uma rebelião, livre e irreversível, contra Deus, em que Satanás arrastou atrás de si uma quantidade de outros anjos que, com um ato perfeito de inteligência de liberdade, quiseram segui-lo. Por isso, a implacável inimizade com Deus e, depois, a criação do homem (ele também tendo o próprio Deus por finalidade), o esforço de tirá-lo desta finalidade e de envolvê-lo na sua rebelião contra o Criador.

Portanto, Satanás era a criatura principal criada por Deus, o príncipe de toda a criação. Uma vez que se revoltou contra Deus, conscientemente, como toda plenitude do seu ser e da sua vontade, com uma revolta total e perfeita, sem retorno, tornou-se o ser mais afastado de Deus. Aquele pecado de rebelião permaneceu inerente à sua essência e assim permanecerá por toda a eternidade. A Bíblia indica-o com vários nomes: Satanás, Lúcifer, Belzebu, serpente antiga, dragão vermelho…

Mas talvez, o nome mais exato a ser dado para ele deva ser blasfêmia. O mal, se é que pode ser objetivamente personificado em alguém, tem em Satanás o seu fundamento perfeito.

Quais foram consequências dessa rebelião? Satanás, por sua superioridade e pela autoridade que gozava, ao revoltar-se contra a ordem moral e espiritual de Deus, arrastou atrás de si como que em sistema planetário inteiro; os anjos que quiseram segui-lo com plena inteligência e liberdade; e agora procura arrastar para si a maior quantidade de homens que possa conseguir; também eles, com plena consciência e liberdade para fazê-lo. Deus nunca renega Suas criaturas: seria renegar-se a si mesmo. É por isso que Satanás continua a taer o poder que tinha; estava à cabeça da criação e estaria ainda: eis por que foi necessária a Encarnação do Verbo, que veio destruir as obras de Satanás e resgatar todas as coisas, com o Sangue da Sua cruz: as celestes e as terrestres.

Mas Satanás continua a ser “o príncipe deste mundo” como, por três vezes, Jesus lhe chama e “o deus deste mundo”, como define São Paulo. De comandante das criaturas, como foi criado por Deus, tornou-se o infatigável destruidor; uma espécie de correspondente moral daqueles “buracos negros” que existem no cosmo e engolem a matéria. Daqui provêm toda forma de mal: o pecado, as doenças, o sofrimento e a morte. A Salvação operada por Cristo reintegrou a ordem do universo de maneira ainda mais maravilhosa do que tinha estabelecido originariamente. A redenção é o primeiro verdadeiro grande exorcismo; Jesus é o primeiro dos exorcistas e nEle é erradicada toda a força de combate ao demônio.

Mas, para que a redenção seja aplicada a cada homem e com ela aconteça a libertação do poder do maligno, é necessário que a graça trazida por Cristo seja acolhida. “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem Crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 15,15-16; Mt 28,19). O Batismo é o primeiro ato de libertação do poder de Satanás e de inserção em Cristo; por isso, faz parte dele o rito de exorcismo. Entretanto, o demônio continuará a sua obra porque, como afirma o Concílio Vaticano II, derrotado por Cristo, Satanás combate contra os seus seguidores; a luta com os espíritos malignos continuará e durará, como diz o Senhor, até o último dia (GS 37).