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“Em meu nome expulsareis os demônios”

Parte I; Parte II; Parte III

A importância da expulsão dos demônios é muito grande: para demonstrar que Cristo é o mais forte; tem autoridade de destruir o reino de Satanás e para instaurar o Reino de Deus; pode levar definitivamente a vida dos homens para Deus, através da Sua pregação. Para continuar essa obra de redenção da humanidade, destruindo as obras de Satanás e libertando o homem da escravidão do demônio, esse “sinal” deveria continuar. Jesus, então, transmitiu esse poder aos doze apóstolos, depois aos setenta e dois discípulos e, finalmente, a todos os que acreditam nEle.

Marcos fala dele em primeiro lugar, como o primeiro dos poderes conferidos aos apóstolos. “Designou doze dentre eles para ficar em sua companhia. Ele os enviaria a pregar, com o poder de expulsar os demônios” (Mc 3,14-15); “Chamou os doze e começou a enviá-los, dois a dois; e deu-lhes poder sobre os espíritos imundos. Expeliam numerosos demônios, ungiam com óleo a muitos enfermos e os curavam” (Mc 6,7.13).

A linguagem dos outros evagelistas – Mateus e Lucas – é bastante semelhante. “Jesus reuniu seus doze discípulos. Conferiu-lhes o poder de expulsar os espíritos imundos e de curar todo mal e toda enfermidade” (Mt 10,1); “Por onde andardes, anunciai que o Reino dos céus está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. Recebestes de graça, de graça daí!” (MT 10,7-8); “ Reunindo Jesus os doze apóstolos, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para curar enfermidades” (Lc 9,1).

Como se vê nestes testemunhos em comum, trata-se de um poder de autoridade a que o Mestre dá uma importância particular. Em um segundo tempo, o mesmo poder é estendido aos setenta e dois discípulos. Veja que, embora o poder de expulsar os demônios e de curar os doentes apareçam juntos muitas vezes, o primeiro é destacado com relevância especial em relação ao segundo. Aliás, quando os setenta e dois discípulos regressam da sua missão e relatam o seu êxito ao Divino Mestre, demonstram que tinham ficado impressionados, sobretudo, pelo domínio exercido sobre os demônios: “Senhor, até os demônios se nos submetem em Teu nome! (Lc 10,17).

Jesus aproveita este entusiasmo para realçar a derrota do demônio, dizendo: “Vi Satanás cair do céu como um raio” (Lc 10,18). Mas ao mesmo tempo, dá uma lição importante: “Eis que vos dei poder para pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos, mas alegrai-vos de que os vossos nomes estejam escritos nos céus” (Lc 10,19-20). É claro que Jesus tem muita responsabilidade na derrota de Satanás.

A primeira carta de João tem algumas expressões muito fortes: “Nisto é que se distinguem os filhos de Deus dos filhos do diabo” (1Jo 3,10); “Quem comete pecado é do diabo porque o diabo peca desde a origem. Para isto se manifestou o Filho de Deus para destruir as obras do diabo” (1Jo 3,8); e ainda: “Nós bem sabemos que todo aquele que nasceu de Deus não peca, mas o Filho de Deus o guarda e o maligno não o apanha” (1Jo 5,18)

É um grande poder o de expulsar os demônios, mas é um poder maior o de não se deixar seduzir por ele. Sobre este fim, Mateus relata um juízo tremendo: haverá quem tenha poder de mandar os espíritos imundos, mas isto não bastará para salvar a alma: “Muitos me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos, em teu nome que expulsamos os demônios e em teu nome que fizemos muitos milagres?. E, então dir-lhes-ei: “nuca vos conheci ! Afastai-vos de mim, vós que praticais iniqüidade! (Mt 7,22-23). É de supor que até Judas tenha feito milagres e expulsado os demônios; e, no entanto, “Satanás entrou nele”. Eis por que não devemos gloriar-vos dos poderes que o Senhor nos quiser dar, mas sim do fato dos nossos nomes estarem escritos no céu.

Marcos conclui o seu Evangelho com as Palavras de Jesus, que se estendem a todos os que acreditam nEle que tem o poder de expulsar os demônios: “Estes sinais acompanharão aqueles que acreditam: em meu nome expulsarão demônios” (Mc 16,17)

Em Atos dos Apóstolos vemos que, rapidamente, os discípulos de Jesus continuaram a exercer os poderes que o Mestre lhes tinha conferido. Em relação aos apóstolos: “ A multidão vinha também das cidades próximas de Jerusalém, transportando enfermos e atormentados por espíritos malignos e todos eram curados” (Mc 5,16). Em relação ao diácono Filipe: “Ao ouvi-lo falar e ao vê-lo realizar milagres, as multidões aderiram unanimemente à pregação de Filipe. De fato, de muitos possessos saíam malignos, soltando grandes gritos” (Mc 8,6-7).

São mais numerosos os episódios relativos a São Paulo. Basta-nos recordar estes dois: “Encontramos uma escrava que tinha um espírito pitônico e que dava muito lucro aos seus donos exercendo a adivinhação. […] Por fim, já agastado, Paulo disse ao espírito: “Ordeno-te, em nome de Jesus Cristo, que saiais desta mulher”. E o espírito saiu imediatamente” (At 16,16-17). “Deus faz milagres extraordinários por intermédio de Paulo, a tal ponto que bastava aplicar aos doentes os lenços e as roupas que tinham estado em contato com seu corpo para que as doenças e os espíritos malignos os deixassem” (At 19,11-12).

Terminada a formulação fundamenta do tema, solidamente baseada na Escritura, passemos a algumas breves considerações sobre a prática dos exorcismos na história da Igreja primitiva; devemos nos contentar com algumas indicações, nos dirigindo às obras especializadas para quem quiser se aprofundar no assunto.

As primeiras grandes linhas gerais são estas. No início da Igreja, todos podiam expulsar os demônios, tendo como base o mandamento de Cristo. Foi um fato de grande alcance apologético, porque colocou os cristãos em confronto com os exorcistas pagãos; veremos adiante o seu valor. Rapidamente, os exorcismos começaram a ser reservados a classes particulares de pessoas: no Oriente, prevaleceu o reconhecimento de um carisma especial; no Ocidente, afirmaram-se os exorcistas, de nomeação eclesiástica. Em ambos os casos, o exorcismo foi se desenvolvendo, ao longo do tempo, em duas formas distintas: como oração autônoma, voltada para a libertação dos obsessos; como oração fazendo parte do Sacramento do Batismo.

Uma premissa indispensável a levar em consideração é que todos os povos, antigos e modernos, conservaram a sensibilidade com relação à existência dos espíritos maléficos descritos e combatidos segundo a sua cultura. Encontramos práticas exorcistas ente os antigos povos da Assíria, da Babilônia e do Egito. O povo hebreu não estava isento a elas: no Livro de Tobias é o Arcanjo Rafael que liberta Sara; Jesus fala claramente de exorcistas hebreus (Lc 11,19); encontramos notícias deles em Flávio Josefo, historiador judeu-romano. Desde sempre, em todos os povos, magos e bruxos pretenderam poder controlar os espíritos maléficos, uma vez que encontramos a sua atividade em todos os tempos e lugares.

Eis, um primeiro motivo de caráter apologético, realçado pelos primeiríssimos autores cristãos: confrontando os exorcistas pagãos com os exorcistas cristãos, evidencia-se o poder de Cristo. Diz Justino, em primeiro lugar, quando escreve: “Cristo nasceu por vontade do Pai para Salvação dos que crêem e para ruína dos demônios. Podeis criar a vossa convicção por aquilo que vedes com os vossos olhos. Em todo o universo e na vossa cidade (Roma) há numerosos endemoninhados que os outros exorcistas, encantadores e magos não puderam curar; pelo contrário, muitos de nós, cristãos, ordenando- lhes em nome de Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos, temos curado estas pessoas, reduzindo à impotência, os demônios que possuíam os homens” (II Apologia, VI, 5-6). É um texto precioso pela sua antiguidade (meados do século II) e pela fórmula de exorcismo que transcreve.

O mesmo Justino apresenta-nos um texto ainda mais completo no Diálogo com Trifão: “Qualquer demônio que receba uma ordem em nome do Filho de Deus – gerado antes de toda a criatura, que nasceu de uma Virgem, se fez sujeito à dor, foi crucificado pelo vosso povo sob Pôncio Pilatos, morreu e ressuscitou dos mortos e subiu ao céu – , qualquer demônio, afirmo, que receba uma ordem por força deste nome, é vencido e subjugado. Mas experimentai vós esconjurar por todos os nomes dos reis, dos justos, dos profetas ou patriarcas que estiverem entre nós, e vereis que um só demônio fugirá vencido”

Também Irineu testemunha: “ Com a invocação do nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, Satanás é expulso dos homens”. É interessante notar que as fórmulas de exorcismo partem das palavras usadas por Jesus ou por Paulo, mas, depois, enriquecem-se com os principais episódios da vida de Cristo, de modo a também influenciar na formação das primeiras profissões de fé.

Tertuliano confirma a eficácia com a qual os cristãos libertam os demônios, tanto os próprios cristãos quanto os pagãos. É também o primeiro a indicar alguns dos gestos usados, como a imposição das mãos e o sopro da boca; e confirma que a força do exorcismo é dada pelo ato de pronunciar o nome de Cristo. São elementos que entrarão no Rito Batismal.

A igreja antiga, obediente ao poder recebido de Cristo, não só exerceu o poder exorcístico sobre os obsessos e sobre aqueles que eram escravos de instintos maus, mas também fazia exorcismos sobre a vida social, impregnada de idolatria e de influência maléficas. Tertuliando afirma-o explicitamente: “Se não fôssemos nós, quem poderia subtrai-vos ao influxo maléfico daqueles espíritos que se insinuam ocultamente e corrompem os vossos corpos e as vossas mentes? Quem poderia libertar-vos dos assaltos poderosos das forças demoníacas?”.

O demônio sempre exerceu esta influência nefasta na sociedade, além de usá-la nos indivíduos. Para o nosso tempo, limito-me a citar um trecho tirado de um dos três discursos do Papa Paulo vI sobre o diabo (23 de fevereiro de 1977): “Então, não será de admirar que a nossa sociedade se degrade do seu nível de autêntica humanidade à medida que progride nesta pseudomaturidade moral, nesta indiferença, nesta insensibilidade à diferença entre o bem e o mal, e que a Escritura cuidadosamente nos advirta que todo o mundo (no sentido pior que estamos a observar) jaz sob o poder do maligno”.

É caloroso o testemunho de São Cipriano a respeito do poder dos exorcismos: “Vem ouvir com os teus próprios olhos nos momentos em que, cedendo aos nossos esconjuros, aos nossos flagelos espirituais e à tortura das nossas palavras, abandonam os corpos de que se tinham apoderado… Veras como estão dominados sob a nossa mão e como tremem em nosso poder aqueles que tu colocas tão alto, honrando-os como senhores” (Contra Demétrio, C, 15). Na verdade, vemos, em todas as vezes, que as palavras de exorcismo são para o demônio uma tortura cada vez mais insuportável, superior às suas penas infernais, segundo a sua própria confissão.

Orígenes, escrevendo contra Celso, fala da força do nome de Jesus para expulsar os demônios: “A força do exorcismo assenta no nome de Jesus, que é pronunciado enquanto, ao mesmo tempo, se anunciam os fatos relativos à Sua vida. “Orígenes acrescenta também novos elementos em relação ao predecessores. Diz-nos que, no nome de Jesus, se podem expulsar os demônios, não só das pessoas, mas também das coisas, dos lugares e dos animais. E insiste, contra o uso dos magos, que os cristãos não fazem nenhum sortilégio, nem usam fórmulas secretas; mas exprimem a sua fé na força do nome de Jesus.

Escreve Righetti no seu manual de história litúrgica: “Toda a literatura cristã dos três primeiros séculos se reporta freqüentemente à obra daqueles irmãos na fé que, dotados de um carisma particular, exorcizavam segundo uma advertência de Jesus, com a oração e com o jejum. Cada comunidade devia possuir um bom número deles, pouco a pouco, formaram uma corporação à parte, com o Nemo de exorcistas, e bem depressa tiveram o reconhecimento oficial nas categorias do clero menor. Com isso, a Igreja providencia no sentido de privilegiar claramente os seus exorcistas que operavam com clara intenção e em nome de Cristo, dos charlatões e bruxos pagãos. Os Cânones de Hipólito alertam contra eles e proíbem, absolutamente, o seu acesso à fé” (Righetti, Manuale di Storia litúrgica, Ancora, 1959, p 406).

É algo que a Igreja de hoje teria tudo a aprender, quer no que se refere à seleção de um número suficiente de exorcistas que satisfizesse os pedidos dos fiéis, mas também para alertar contra os charlatões, bruxos e magos que hoje tanto falam as publicidades dos jornais e algumas transmissões televisivas. Nunca se fala deles nas igrejas.

Em Roma o exorcista já era uma ordem menor em meados do século IV. Temos um primeiro testemunho dele numa carta que nos é transmitida por Eusébio, em que o Papa Cornélio nomeia os exorcistas, depois os acólitos, seguidos dos leitores e dos ministros da Eucaristia.

Outra preocupação de que rapidamente a igreja cuidou foi a de fazer a distinção entre os verdadeiros endemoninhados e os indivíduos apenas doentes, ou seja, a preocupação de dar um diagnóstico correto. Com esta finalidade, bem cedo os bispos foram encarregados de se pronunciar a respeito deste assunto. No ano de 416, o Papa Inocêncio I, declarava que os diáconos ou sacerdotes só podiam fazer exorcismos com autorização episcopal.

Se quisermos examinar os vários elementos que compunham o exorcismo desde os tempos mais antigos, além da oração dirigida ao Senhor para que viesse em auxílio do possesso e da ordem dada ao demônio em nome de Cristo, de que já falamos, podemos acrescentar alguma coisa sobre os gestos. Começaram logo, pó se afirmar: a imposição das mãos, usada pelo próprio Jesus sobre os endemoninhados de Cafarnaum; o sinal-da-cruz, de que Lactâncio (†317) nos afirma a eficácia; o sopro da boca, que é testemunhado por Tertuliano e por Dionísio de Alexandria; o jejum, sugerido pelo próprio Senhor, juntamente com a oração (Mt 17,21); a unção com óleo, que sabemos de uso corrente em todos os doentes e que se mostrava também eficaz com os possessos. Por exemplo, os Santos Monges Macário e Teodósio livraram os energúmenos por meio das unções. Acrescentamos, agora, o suo da cinza e do cilício que, em grande medida, faziam parte da disciplina penitencial.

Alguns séculos mais tarde acrescentaram-se outros dois usos, que se tornaram de importância primordial e persistiram até hoje: a água-benta que era desconhecida do ritual antigo e a imposição da estola sobre os ombros do exorcizado, introduzida depois do século X. Foi aconselhada também,cada vez mais, a comunhão Eucarística que era administrada geralmente no fim da Missa, celebrada propositadamente para que o exorcismo tivesse êxito feliz.

As fórmulas de exorcismo, como já vimos inicialmente eram bastantes simples. As fórmulas agora em uso e que entraram no Ritual publicado em 1614 são, na realidade, dos finais do século VIII, compiladas por Alcuíno († 804), exceto algumas poucas preces acrescentadas posteriormente. Atualmente estão difundidas nove fórmulas, emanadas provisoriamente, ad experimentum, pela comissão encarregada expressamente de atualizar esta parte do Ritual; as novas fórmulas definitivas foram estabelecidas em 1999 (data da publicação do Ritual)

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A São Miguel

São Miguel Arcanjo, defende-nos na batalha; contra a malvadez e as insídias do diabo sê nossa ajuda. Suplicantes te pedimos: que o Senhor domine! E tu, príncipe das milícias celestes, com o poder que te vem de Deus, mete no inferno Satanás e os outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perdição das almas.

Amém.

Quem é Satanás? Quem são os demônios?

Trecho do Livro Novos relatos de um exorcista do Padre Gabriele Amorth

Outros trechos do livro aqui e aqui

São Miguel

São Miguel

Sabemos muito pouco a respeito do mundo visível e, menos ainda, sobre o mundo invisível; por isso, é muito cômodo negar a sua existência, em vez de investigá-lo. E nem sequer percebemos que estamos negando a onipotência e a sabedoria de Deus, que tudo criou com uma majestade inconcebível à mente humana, com uma ordem perfeita, com fins bem determinados.

Quando me interrogam sobre o número dos anjos, cito o Apocalipse que fala de miríades de miríades: um número imenso, incompreensível a nossa mente. Quando me interrogam sobre o número dos demônio, respondo com as palavras que o próprio demônio deu através de um possesso: “Somos tantos, que, se fôssemos visíveis, obscureceríamos o Sol”.

Para dar uma idéia da grandiosidade dos seres criados, que nos passam despercebidos, convido você a refletir sobre os corpos que giram no céu. Melhor do que eu, um astrônomo poderia ilustrar as maravilhas do universo; foi por isso que um deles afirmou: “Eu não creio; eu vejo”. Se refletirmos, ficaremos espantados. Todo o universo é dirigido por forças interligadas com a sabedoria perfeita: por exemplo, a Terra mantém a Lua ligada a si com uma força de atração, sem que esta lhe caia em cima, porque uma sapiente lei centrípeta a faz rodar em torno do nosso planeta. Todo o sistema solar faz parte de uma galáxia composta por bilhões de corpos estelares; sabemos que nesta galáxia, todos estes corpos são mantidos unidos por um centro de atração que os astrônomos colocam a cerca de 30 mil anos-luz do sistema solar. O eixo da nossa galáxia é de cerca de 90 mil anos-luz. É uma dimensão pertubadora! E, no entanto, vista de longe, a nossa galáxia parece apenas um ponto luminoso.

Vemos inúmeras galáxias a enormes distâncias. Quantas? É impossível dizer. Os astrônomos gostariam de identificar o centro do universo, gostariam de poder identificar um ponto central de gravitação de todos os corpos celestes; por enquanto, têm de se contentar em formular hipóteses. Tudo o que admiramos no sistema cósmico, no infinitamente grande, outros cientistas admiram-no na coordenação dos átomos, no infinitamente pequeno.

Se a ordem natural nos espanta, que dizer da ordem espiritual? Aquele Deus que criou, com uma ordem admirável e com leis estupendas, miríades de miríades de espíritos celestes! A Bíblia fala-nos de nove coros angélicos. Os padres da Igreja e os eclesiásticos estudaram e escreveram muito sobre eles… Mas os teólogos modernos… Eles se ocupam com a sociologia. Contudo, entre espíritos celestes reina uma ordem, uma hierarquia, um fim inteligente (dado que se trata de seres inteligentes e livres) que é alegria, felicidade e beleza. Tudo para louvor do Criador.

É opinião comum, dedutível do relato bíblico, que Deus teria criado primeiro os anjos e, depois, o cosmo. O mistério da criação do mundo material é certamente admirável, enquanto procede da onipotência e da sabedoria de Deus; mas seguramente só atinge o seu significado quando acontece a criação do homem: porque é somente com a presença do homem que todas as criaturas sensíveis, às quais o homem pertence, se reúnem com Deus, seu criador.

O homem, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26), como ser racional, tem a possibilidade de se juntar ao seu criador e de comunicar-se com Ele. Pelo contrário, o mundo material, embora tenha a sua origem em Deus, não pode gozar de um intercâmbio direto e imediato com seu Criador, de quem depende total e passivamente.

Os espíritos celestes, ou seja, os anjos, não estão sujeitos, pela sua natureza, a uma relação imediata com este mundo material. Diante da sua inteligência, à medida que Deus os criava, não compreendiam o seu objetivo. Eles eram puros espíritos; aos seus olhos, o mundo material não tinha um porquê; antes lhes apareceu no mundo a criatura racional, o homem, que tinha uma relação imediato com Deus, porque era um ser inteligente e livre, e estava em condições de dar significado a todo o mundo material, servindo-se dele para louvar o Criador.

Pode-se pensar que a rebelião da parte dos anjos seja anterior à criação do homem. Uma explicação possível é a de que uma parte dos anjos teria ficado escandalizada, precisamente com a criação do mundo material, ou seja, antes do cosmo ter sido completado e enobrecido pela presença do homem. Eles, os anjos rebeldes, não louvaram a Deus desde o princípio, isto é, desde quando Ele Estava criando o mundo material que, do ponto de vista dos puros espíritos, que parecia um absurdo. Não souberam acreditar na sabedoria divina, um pouco como pode acontecer conosco, os homens; diante da dor, deixamos de acreditar em Deus. Este poderia ter sido um bom motivo para sua rebelião.

Quem é Satanás? A tradição rabínica afirma que era o espírito de maior importância diante do trono de Deus, dotado de doze asas, quer dizer, o dobro das asas dos serafins (cf. Pircké de Rabbi Eliézer, 13). Imaginemos que a nossa galáxia se revoltava contra as leis que regulam o movimento incessante dos planetas e atravessado os céus à sua vontade: quantos milhões de milhões de corpos arrastariam atrás de si e que enorme destruição provocariam em todo o firmamento! A maioria dos anjos viu o princípio da queda de Satanás, no seu orgulho em querer estar acima da sua condição, em querer afirmar a sua independência em relação a Deus e em querer se fazer igual a Deus. Outras explicações se deram nos séculos seguintes. Todas concordam em ver uma rebelião, livre e irreversível, contra Deus, em que Satanás arrastou atrás de si uma quantidade de outros anjos que, com um ato perfeito de inteligência de liberdade, quiseram segui-lo. Por isso, a implacável inimizade com Deus e, depois, a criação do homem (ele também tendo o próprio Deus por finalidade), o esforço de tirá-lo desta finalidade e de envolvê-lo na sua rebelião contra o Criador.

Portanto, Satanás era a criatura principal criada por Deus, o príncipe de toda a criação. Uma vez que se revoltou contra Deus, conscientemente, como toda plenitude do seu ser e da sua vontade, com uma revolta total e perfeita, sem retorno, tornou-se o ser mais afastado de Deus. Aquele pecado de rebelião permaneceu inerente à sua essência e assim permanecerá por toda a eternidade. A Bíblia indica-o com vários nomes: Satanás, Lúcifer, Belzebu, serpente antiga, dragão vermelho…

Mas talvez, o nome mais exato a ser dado para ele deva ser blasfêmia. O mal, se é que pode ser objetivamente personificado em alguém, tem em Satanás o seu fundamento perfeito.

Quais foram consequências dessa rebelião? Satanás, por sua superioridade e pela autoridade que gozava, ao revoltar-se contra a ordem moral e espiritual de Deus, arrastou atrás de si como que em sistema planetário inteiro; os anjos que quiseram segui-lo com plena inteligência e liberdade; e agora procura arrastar para si a maior quantidade de homens que possa conseguir; também eles, com plena consciência e liberdade para fazê-lo. Deus nunca renega Suas criaturas: seria renegar-se a si mesmo. É por isso que Satanás continua a taer o poder que tinha; estava à cabeça da criação e estaria ainda: eis por que foi necessária a Encarnação do Verbo, que veio destruir as obras de Satanás e resgatar todas as coisas, com o Sangue da Sua cruz: as celestes e as terrestres.

Mas Satanás continua a ser “o príncipe deste mundo” como, por três vezes, Jesus lhe chama e “o deus deste mundo”, como define São Paulo. De comandante das criaturas, como foi criado por Deus, tornou-se o infatigável destruidor; uma espécie de correspondente moral daqueles “buracos negros” que existem no cosmo e engolem a matéria. Daqui provêm toda forma de mal: o pecado, as doenças, o sofrimento e a morte. A Salvação operada por Cristo reintegrou a ordem do universo de maneira ainda mais maravilhosa do que tinha estabelecido originariamente. A redenção é o primeiro verdadeiro grande exorcismo; Jesus é o primeiro dos exorcistas e nEle é erradicada toda a força de combate ao demônio.

Mas, para que a redenção seja aplicada a cada homem e com ela aconteça a libertação do poder do maligno, é necessário que a graça trazida por Cristo seja acolhida. “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem Crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 15,15-16; Mt 28,19). O Batismo é o primeiro ato de libertação do poder de Satanás e de inserção em Cristo; por isso, faz parte dele o rito de exorcismo. Entretanto, o demônio continuará a sua obra porque, como afirma o Concílio Vaticano II, derrotado por Cristo, Satanás combate contra os seus seguidores; a luta com os espíritos malignos continuará e durará, como diz o Senhor, até o último dia (GS 37).

Exorcista – Cristo Contra Satanás

Do livro Novos Relatos de um exorcista do Padre Gabriele Amorth.

Tudo o que temos a intenção de dizer tem por fundamento o que Jesus fez e ensinou; e também aos poderes que conferiu aos Seus discípulos. São estas as bases fundamentais para compreender a obra de redenção que, de outro modo, permaneceria um mistério.

“Eis por que o Filhos de Deus se manifestou: para destruir as obras do demônio” (1Jo 3,8). Palavras muito precisas de que não se pode prescindir para compreender a ação do Mestre Divino.

– Quando Pedro quis resumir tal ação, no importante encontro com Cornélio (o primeiro pagão convertido ao Cristianismo), sintetiza-a com esta expressão: “Jesus de Nazaré andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram atormentados pelo diabo” (At 10,38).

– Por fim, Paulo, quando pretende exprimir em profundidade a luta que o cristão deve travar para ser fiel ao seu Senhor, afirma: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares” (Ef 6,11-12)

À luz destas passagens, compreendemos a grande importância que os Evangelhos dão ao encontro direto entre Jesus e Satanás, cuja derrota total sublinhamos.

Já o início da vida pública de Jesus, imediatamente depois da proclamação solene do Pai no Jordão, começo pelo embate com as tentações. Breves, mas incisivas, as palavras de Marcos: “E ficou no deserto quarenta dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam” (Mc 1,13). É muito significativo o objeto das tentações, como nos é relatado por Mateus e por Lucas. É um conteúdo sutil que impregna também as nossas tentações: em suma, trata-se de escolher entre os desejos da carne (alimento, sucesso, poder…) e a vontade do Espírito; é preciso escolher entre as promessas de Satanás e as promessas de Deus.

O primeiro Adão escolheu as promessas de Satanás; o segundo Adão, Cristo escolheu a obediência a Deus, embora a fidelidade a tal obediência O tenha obrigado a renunciar ao reinos da Terra e levado à morte na cruz.

A partir desse momento, Satanás já esta vencido: a pregação do Mestre – orientada no sentido de instaurar o Reino de Deus, acompanhada com uma clareza crescente pela revelação da divindade de Cristo, sublinhada por aqueles sinais extraordinários que são os Seus milagres – será, toda ela, uma vitória contínua contra o demônio de Jesus sobre os espíritos imundos; precisamente porque a Sua obra se dirige à destruição do poder de Satanás e à libertação da humanidade. Por isso, os evangelistas insistem nesses episódios, distinguindo-os claramente das curas das doenças e sublinhado pormenores sobre os quais, mais tarde, teremos oportunidade de refletir.
Começo com Marcos que, já no início do seu Evangelho, no primeiro capítulo, destaca por três vezes este poder de Cristo “Ora, na sinagoga deles achava-se um homem possesso de um espírito imundo que gritou: Que tens tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos Sei quem és: o Santo de Deus! Mas Jesus intimou-o, dizendo: Cala-te, sai deste homem! O espírito imundo agitou-o violentamente e, dando um grande grito, saiu. Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: Que é isto? Eis um ensinamento novo, e feito com autoridade; além disso, ele manda até nos espíritos imundos e lhe obedecem!” (Mc 1,23-27)

Note-se como as pessoas, com perspicácia, relacionam a pregação de Jesus com o Seu poder de expulsar os demônios. São igualmente prova da Sua autoridade.

“É tarde, depois do pôr-do-sol, levaram-lhe todos os enfermos e possessos do demônio. Toda a cidade estava reunida diante da porta. Ele curou muitos que estavam oprimidos de diversos doenças, e expulsou muitos demônios. Não lhes permitia falar, porque o conheciam.” (Mc 1,32-34)

Jesus não quer o testemunho dos demônios; tem o testemunho do Pai e nos levará para sermos Sua testemunhas. Além do mais, o testemunho dos demônios é prejudicial porque são mentirosos por natureza e porque queriam antecipar aquela revelação sobre a Pessoa de Jesus, que Ele próprio quer manifestar pouco a pouco.

O primeiro capítulo de Marcos cita também uma frase: “Ele retirou-se dali, pregando em todas as sinagogas e por toda a Galiléia, e expulsando os demônios” (Mc 1,39), em que ainda vemos a pregação associada à vitória sobre Satanás.

Marcos cita-nos outras manifestações do poder de Jesus sobre os demônios “Quando os espíritos imundos o viam, prostravam-se diante dele e gritavam: Tu és o Filho de Deus! Ele os proibia severamente que o dessem a conhecer” (Mc 3,11-12)

É interessante o encontro com a mulher pagã, de origem sirofenícia, que mostra uma fé tão grande que merece a libertação da filha; perceba que se trata de uma libertação à distância – também precisamos falar sobre isso, porque ainda hoje acontece -, sem a presença da pessoa diretamente interessada (Mc 7,25-30)

Tratemos separadamente de dois casos de liberação que se revestem de uma importância especial pela riqueza de pormenores com que são relatados: o endemoninhado de Geresa (Mc 5,1-20) e o rapaz que os apóstolos não tinham conseguido libertar (Mc 9,14-29). São episódios que também encontramos em Mateus e Lucas, de modo que mereçam uma atenção especial.

Antes de passar a outras considerações (sobre o valor que Ele havia conferido aos apóstolos, depois, aos setenta e dois discípulos e, por fim, a todos os que crêem), completamos a resenha com algumas narrações de Mateus e de Lucas. João prefere não se deter em nenhum episódio individual, mas fazer-nos refletir sobre observações de caráter geral.

Mateus insiste em diversas libertações coletivas, sem precisar o número. “Sua fama espalhou-se por toda a Síria: traziam-lhe os doentes e os enfermos, os possessos, os lunáticos, os paralíticos. E Ele curava a todos” (Mt 4,24). “Pela tarde, apresentaram-lhe muitos possessos de demônios. Com uma Palavra expulsou Ele os espíritos e curou todos os enfermos”(Mt 8,16)

Lucas não faz de outro modo. Além de narrar o episódio da libertação de uma mulher curvada há dezoito anos por causa de uma presença demoníaca(Lc 13,11-17), gosta de insistir nas libertações de muitos. “Depois do pôr-do-sol, todos os que tinham enfermos de diversas moléstias lhos traziam. Impondo-lhes a mão, os sarava. De muitos saíam os demônios, aos gritos, dizendo: Tu és o Filho de Deus. Mas Ele repreendia-os severamente, não lhes permitindo falar, porque sabiam que Ele era o Cristo.” (Lc 4,40-41).” Uma grande multidão[…]acorrera para o ouvir e ser curada dos seus males. Os que eram atormentados por espíritos malignos ficavam curados; e toda a multidão procurava tocar-lhe, pois emanava dEle uma força que curava todos” (Lc 6,18-19) Os doze estavam com Ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios. (Lc 8,2)

Tratemos agora, brevemente, dos dois episódios mais complexos e mais ricos de pormenores.

Examino a libertação do endemoninhado de Geresa, baseando-me, sobretudo, em Marcos (Mc 5,1-20). Encontramo-nos diante do caso mais grave de possessão diabólica total, em que o endemoninhado demonstra uma força sobre-humana, capaz de despedaçar correntes e grilhões, mostrando-se tão furioso, que se tornava perigoso passar por aquele lugar. Perceba que em outros casos de possessão não há semelhantes reações; por vezes, o mal diabólico pode ser idêntico a um mal físico: por exemplo, no caso do surdo-mudo ou da mulher curvada. Também hoje, os efeitos, da possessão são muito variados.

É interessante a resposta à pergunta do nome: “Legião, porque somos muitos”. Também este caso ainda hoje acontece. Mas é igualmente curioso o fato de Jesus ceder a uma exigência do demônio, a de ser mandado ao porcos e não ser mandado “para fora daquela região” ou, precisamente, “para o abismo”, como refere Lucas. Por vezes, neste nosso tempo, o demônio pede ao exorcista um destino ou é o exorcista quem lho impõe. O episódio termina com o apostolado particular que Jesus atribui ao homem curado: desta vez não lhe ordena que se cale, mas que fale. A importância desse tipo de poder de Jesus é tal que nunca o Senhor ordena a um endemoninhado que cale a sua libertação; muito pelo contrário, manda freqüentemente que o façam as pessoas curadas de alguma doença.

O segundo caso, também rico em detalhes, nos é oferecido pela cura do jovem, que os nove apóstolos não conseguiram libertar, enquanto Jesus estava ausente no Monte Tabor com Pedro, Tiago e João. Baseio-me, sobretudo, em Lucas (Lc 9,38-43). Também aqui nos encontramos diante de um caso de possessão diabólica gravíssima. O demônio atormenta o rapaz tornando-o mudo, atirando-o ao chão onde se contorce com convulsões, a ponto de fazer parecer epilético. Mas é pior. É um demônio destruidor, que quer causar a morte daquele filho único, lançando-o no fogo ou na água (faço uso também da descrição encontrada em (Mc 9,14-27).

Aqui há dois pormenores importantes a serem notados. Antes de tudo, a pergunta de Jesus: “Há quanto tempo lhe sucede isto?” No Evangelho nunca se nos diz a causa das possessões; nesse episódio o tempo aparece com precisão, “desde a infância”. Trata-se, certamente, de uma causa inculpável, pelo menos da parte da vítima.

Depois, é necessário notar as condições que Jesus exige para a libertação. Ao pai exige a fé: “Tudo é possível a quem crê”; aos apóstolos e desiludidos pelo seu insucesso, acrescenta: “Esta casta de espíritos só pode ser expulsa à força de oração”. Será um limite ao poder dado aos apóstolos? Creio que será mais um sinal concreto que indica que a libertação do demônio é um fato de grande importância e dificuldade, pelo que o efeito dos exorcismos não é, por assim dizer, automático, mas freqüentemente requer muito tempo, além da fé e da oração.

Neste ponto, depois de ter visto com quanta força e freqüência Jesus expulsa os demônios, convém fazer algumas observações.

Um primeiro destaque é que Jesus reconhece o poder do maligno:

– Pode entrar num homem: “Logo que ele o engoliu, Satanás entrou nele” (Jo 13,27), quando descreve o fim de Judas

– Pode voltar com outros sete espíritos piores, mesmo depois de ter saído dele (Mt 12,43-45)

– Pode realizar ações capazes de assombrar o povo, como fazia Simão, o mago

– Dispõe de um poder especial em determinados tempos: “Esta é a vossa hora e do poder das trevas” (Lc 22,53)

– Sobretudo, desenvolve este poder nos últimos tempos, como se conclui dos discursos escatológicos e do Apocalipse.

Além do mais, o demônio opõe-se aos planos de Deus:

– Na parábola do semeador, é ele que rouba a semente da Palavra de Deus que cai no caminho (Mt 13,19)

– Na parábola do trigo e do joio, é ele o inimigo que semeia as ervas daninhas (Mt 13,39)

– Procura transformar os filhos de Deus em filhos seus: “Não vos escolhi eu todos os doze? Contudo, um de vós é um demônio!…”(Jo6,70). “Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejo de vosso pai” (Jo 8,44). “Ananias, por que tomou conta Satanás do teu coração, para que mentisse ao Espírito Santo e enganasses a respeito do valor do campo?(At 5,3); “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo” (Lc 22,31).

À luz destas realidades, ganha particular importância o poder demonstrado por Jesus contra Satanás. É um poder que põe em crise escribas e fariseus que procuram encontrar uma resposta para a questão e não chegam, senão a esta: é pelo poder do príncipe dos demônios. Leiamos, por exemplo: “Logo que se foram, apresentaram-lhe um mudo, possuído do demônio. O demônio foi expulso, o mudo falou e a multidão exclamava com admiração: Jamais se viu algo semelhante em Israel. Os fariseus, porém, diziam: É pelo príncipe das trevas que Ele expulsa os demônios” (Mt 9,32-34). Esta acusação é repetida muitas vezes: “Disseram-lhe os judeus: Agora vemos que és possuído de um demônio” (Jo 8,52); “E os doutores da lei que tinham descido de Jerusalém afirmaram: “Ele esta possuído de belzebu: é pelo príncipe dos demônios que Ele expele os demônios” (Mc 3,22)

A acusação toca um dos pontos fundamentais da missão de Cristo , que veio para destruir as obras de Satanás e para libertar todos os que estavam em seu poder. por isso, a resposta é muito clara completa e articula-se em três argumentos.

O primeiro argumento: a acusação é absolutamente absurda porque levaria o reino de Satanás à sua autodestruição. “Como pode Satanás expulsar a Satanás? Pois, se um reino estiver dividido contra si mesmo, não pode durar. […] Se Satanás se levanta contra si mesmo, esta dividido e não poderá continuar, mas desaparecerá” (Mc 3,23-26)

O segundo argumento é ainda mais forte. Se o primeiro raciocínio mostra o completo absurdo da acusação, o segundo dá a verdadeira explicação de tudo o que está a acontecer, abrindo assim, os olhos dos ouvintes sobre o verdadeiro significado desse poder que Jesus demonstra contra os espíritos imundos. “Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o reino de Deus”(Mt 12,28)

A expulsão do demônio marca o advento do Reino de Deus no mundo, porque se reveste de uma importância fundamental: “Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo” (Jo 12,31); O príncipe deste mundo já está julgado e condenado” (Jo 16,11). É a obra que Jesus veio realizar sobre a Terra. Por isso, quando alguns fariseus lhe disseram: “Sai e vai-te daqui, porque Herodes te quer matar. Disse-lhes Ele: Ide dizer a essa raposa eis que expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e ao terceiro dia terminarei a minha vida”(Lc 13,31-32)

O terceiro argumento de resposta coroa todo o discurso. Jesus mostra a Sua superioridade absoluta e a derrota de Satanás. “Quando um homem forte guarda, armado, a sua casa, estão em segurança os bens que possui. Mas, se sobrevier outro mais forte do que ele e o vencer, este lhe tirará todas as armas em que confiava, e repartirá os seus despojos” (Lc 11,21-22). É evidente a referência. O homem forte, Satanás, que se considera seguro. Quando Jesus chega, o demônio protesta por intermédio dos endemoninhados: “Vieste para nos arruinar?”, porque Jesus é mais forte e vence-o ” O príncipe deste mundo nada pode contra mim” (Jo 14,30) ” O príncipe deste mundo já está julgado e condenado” (Jo 16,11) Iniciou-se o Reino de Deus; por isso, são Paulo, ao contar ao rei Agripa sobre a sua conversão, repete as palavras que o Senhor falou para ele: “Escolhi-te do meio do povo e dos pagãos, aos quais agora te envio para abrir-lhes os olhos, a fim de que se convertam das trevas à luz e do poder de Satanás a Deus, para que, pela fé em mim, recebam perdão dos pecados e herança entre os que foram santificados” (At 26,17-18)

Por que não expulsam o demônio?

Trechos do livro Novos relatos de um Exorcista do Padre Gabriele Amorth

Há alguma décadas – não sei bem quantas – o exorcismo foi quase extinto no mundo católico, ao contrário do que vem acontecendo com algumas confissões da reforma protestante. Julgo que não ofendo os bispos, se constatar um dado de fato: a quase totalidade do episcopado católico nunca fez exorcismo e nunca assistiu a exorcismos. Por isso, torna-se ainda mais difícil acreditar em fenômenos que nem nós, exorcistas, acreditaríamos, se nunca os tivéssemos visto.

É verdade que a sagrada Escritura é muito clara neste terreno; é a prática e o ensino de toda a história eclesiástica; há as disposições do Direito Canônico. Mas, contra a prática do passado e contra o ensino da Igreja, levantou-se o muro do não exercício do exorcismo. E, contra os ensinamentos da Sagrada Escritura, tem sido erguido o muro do silêncio ou, pior ainda, a interpretação errada por parte de certos teólogos e de certos estudiosos.

O clero em geral deveria ser mais instruído sobre este assunto estudando três partes da teologia.

A teologia dogmática, quando fala de Deus criador, deveria tratar também da existência dos anjos, da existência dos demônios e de tudo que a Sagrada Escritura e o ensino da Igreja nos dizem a respeito.

A teologia espiritual trata não somente da atividade ordinária do demônio (as tentações), mas também da sua atividade extraordinária, que compreende todos os malefícios, até chegar à possessão diabólica. Ensinam também os remédios, inclusive os exorcismos. Veja, por exemplo, os conhecidíssimos tratados, ainda válidos de Tanquerey e Royo Marin. A falta de estudo da teologia espiritual, que se prolonga já há muitos decênios, causou também uma grande perda da direção espiritual, propriamente dita.

A teologia moral deveria ensinar também, sobre todos os pecados contra o primeiro mandamento, entre os quais está o da superstição; deveria iluminar os fiéis sobre aquilo que está conforme à vontade de Deus e sobre o que lhe é contrário, como a magia, a necromancia, etc.

A Sagrada Escritura é muito clara sobre estes aspecto e usa palavras duríssimas contra esses pecados. Pense também na lista apresentada pelo Deuteronômio, em que tais práticas são severamente condenadas: “Não se ache no meio de ti quem faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, nem quem se dê à adivinhação, à astrologia, aos agouros, ao feiticismo, à magia, ao espiritismo, à adivinhação ou à invocação dos mortos, porque o Senhor, teu Deus, abomina aqueles que se dão a essas práticas, e é por causa dessas abominações que o Senhor, teu Deus, expulsa diante de ti essas nações” (Dt 18,10-12). Hoje, há muitos moralistas que não sabem distinguir o bem do mal; já não ensinam o que é pecado mortal e o que não é; por isso, os fiéis nunca mais ouviram falar de tais proibições. Basta ler os últimos dicionários de teologia moral, no tópico suspertição: já não se encontra nada esclarecido.

Perguntei a muitos sacerdotes, de várias idades, se e como se aprofundaram nestes assuntos, nos três tratados de teologia que nomeei; responderam-me que nunca tinham ouvido falar destas coisas. Para preencher tão grave lacuna, é preciso reformular os programas de estudos nos seminários e nas universidades católicas