Exorcista – Cristo Contra Satanás

Do livro Novos Relatos de um exorcista do Padre Gabriele Amorth.

Tudo o que temos a intenção de dizer tem por fundamento o que Jesus fez e ensinou; e também aos poderes que conferiu aos Seus discípulos. São estas as bases fundamentais para compreender a obra de redenção que, de outro modo, permaneceria um mistério.

“Eis por que o Filhos de Deus se manifestou: para destruir as obras do demônio” (1Jo 3,8). Palavras muito precisas de que não se pode prescindir para compreender a ação do Mestre Divino.

– Quando Pedro quis resumir tal ação, no importante encontro com Cornélio (o primeiro pagão convertido ao Cristianismo), sintetiza-a com esta expressão: “Jesus de Nazaré andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram atormentados pelo diabo” (At 10,38).

– Por fim, Paulo, quando pretende exprimir em profundidade a luta que o cristão deve travar para ser fiel ao seu Senhor, afirma: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares” (Ef 6,11-12)

À luz destas passagens, compreendemos a grande importância que os Evangelhos dão ao encontro direto entre Jesus e Satanás, cuja derrota total sublinhamos.

Já o início da vida pública de Jesus, imediatamente depois da proclamação solene do Pai no Jordão, começo pelo embate com as tentações. Breves, mas incisivas, as palavras de Marcos: “E ficou no deserto quarenta dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam” (Mc 1,13). É muito significativo o objeto das tentações, como nos é relatado por Mateus e por Lucas. É um conteúdo sutil que impregna também as nossas tentações: em suma, trata-se de escolher entre os desejos da carne (alimento, sucesso, poder…) e a vontade do Espírito; é preciso escolher entre as promessas de Satanás e as promessas de Deus.

O primeiro Adão escolheu as promessas de Satanás; o segundo Adão, Cristo escolheu a obediência a Deus, embora a fidelidade a tal obediência O tenha obrigado a renunciar ao reinos da Terra e levado à morte na cruz.

A partir desse momento, Satanás já esta vencido: a pregação do Mestre – orientada no sentido de instaurar o Reino de Deus, acompanhada com uma clareza crescente pela revelação da divindade de Cristo, sublinhada por aqueles sinais extraordinários que são os Seus milagres – será, toda ela, uma vitória contínua contra o demônio de Jesus sobre os espíritos imundos; precisamente porque a Sua obra se dirige à destruição do poder de Satanás e à libertação da humanidade. Por isso, os evangelistas insistem nesses episódios, distinguindo-os claramente das curas das doenças e sublinhado pormenores sobre os quais, mais tarde, teremos oportunidade de refletir.
Começo com Marcos que, já no início do seu Evangelho, no primeiro capítulo, destaca por três vezes este poder de Cristo “Ora, na sinagoga deles achava-se um homem possesso de um espírito imundo que gritou: Que tens tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos Sei quem és: o Santo de Deus! Mas Jesus intimou-o, dizendo: Cala-te, sai deste homem! O espírito imundo agitou-o violentamente e, dando um grande grito, saiu. Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: Que é isto? Eis um ensinamento novo, e feito com autoridade; além disso, ele manda até nos espíritos imundos e lhe obedecem!” (Mc 1,23-27)

Note-se como as pessoas, com perspicácia, relacionam a pregação de Jesus com o Seu poder de expulsar os demônios. São igualmente prova da Sua autoridade.

“É tarde, depois do pôr-do-sol, levaram-lhe todos os enfermos e possessos do demônio. Toda a cidade estava reunida diante da porta. Ele curou muitos que estavam oprimidos de diversos doenças, e expulsou muitos demônios. Não lhes permitia falar, porque o conheciam.” (Mc 1,32-34)

Jesus não quer o testemunho dos demônios; tem o testemunho do Pai e nos levará para sermos Sua testemunhas. Além do mais, o testemunho dos demônios é prejudicial porque são mentirosos por natureza e porque queriam antecipar aquela revelação sobre a Pessoa de Jesus, que Ele próprio quer manifestar pouco a pouco.

O primeiro capítulo de Marcos cita também uma frase: “Ele retirou-se dali, pregando em todas as sinagogas e por toda a Galiléia, e expulsando os demônios” (Mc 1,39), em que ainda vemos a pregação associada à vitória sobre Satanás.

Marcos cita-nos outras manifestações do poder de Jesus sobre os demônios “Quando os espíritos imundos o viam, prostravam-se diante dele e gritavam: Tu és o Filho de Deus! Ele os proibia severamente que o dessem a conhecer” (Mc 3,11-12)

É interessante o encontro com a mulher pagã, de origem sirofenícia, que mostra uma fé tão grande que merece a libertação da filha; perceba que se trata de uma libertação à distância – também precisamos falar sobre isso, porque ainda hoje acontece -, sem a presença da pessoa diretamente interessada (Mc 7,25-30)

Tratemos separadamente de dois casos de liberação que se revestem de uma importância especial pela riqueza de pormenores com que são relatados: o endemoninhado de Geresa (Mc 5,1-20) e o rapaz que os apóstolos não tinham conseguido libertar (Mc 9,14-29). São episódios que também encontramos em Mateus e Lucas, de modo que mereçam uma atenção especial.

Antes de passar a outras considerações (sobre o valor que Ele havia conferido aos apóstolos, depois, aos setenta e dois discípulos e, por fim, a todos os que crêem), completamos a resenha com algumas narrações de Mateus e de Lucas. João prefere não se deter em nenhum episódio individual, mas fazer-nos refletir sobre observações de caráter geral.

Mateus insiste em diversas libertações coletivas, sem precisar o número. “Sua fama espalhou-se por toda a Síria: traziam-lhe os doentes e os enfermos, os possessos, os lunáticos, os paralíticos. E Ele curava a todos” (Mt 4,24). “Pela tarde, apresentaram-lhe muitos possessos de demônios. Com uma Palavra expulsou Ele os espíritos e curou todos os enfermos”(Mt 8,16)

Lucas não faz de outro modo. Além de narrar o episódio da libertação de uma mulher curvada há dezoito anos por causa de uma presença demoníaca(Lc 13,11-17), gosta de insistir nas libertações de muitos. “Depois do pôr-do-sol, todos os que tinham enfermos de diversas moléstias lhos traziam. Impondo-lhes a mão, os sarava. De muitos saíam os demônios, aos gritos, dizendo: Tu és o Filho de Deus. Mas Ele repreendia-os severamente, não lhes permitindo falar, porque sabiam que Ele era o Cristo.” (Lc 4,40-41).” Uma grande multidão[…]acorrera para o ouvir e ser curada dos seus males. Os que eram atormentados por espíritos malignos ficavam curados; e toda a multidão procurava tocar-lhe, pois emanava dEle uma força que curava todos” (Lc 6,18-19) Os doze estavam com Ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios. (Lc 8,2)

Tratemos agora, brevemente, dos dois episódios mais complexos e mais ricos de pormenores.

Examino a libertação do endemoninhado de Geresa, baseando-me, sobretudo, em Marcos (Mc 5,1-20). Encontramo-nos diante do caso mais grave de possessão diabólica total, em que o endemoninhado demonstra uma força sobre-humana, capaz de despedaçar correntes e grilhões, mostrando-se tão furioso, que se tornava perigoso passar por aquele lugar. Perceba que em outros casos de possessão não há semelhantes reações; por vezes, o mal diabólico pode ser idêntico a um mal físico: por exemplo, no caso do surdo-mudo ou da mulher curvada. Também hoje, os efeitos, da possessão são muito variados.

É interessante a resposta à pergunta do nome: “Legião, porque somos muitos”. Também este caso ainda hoje acontece. Mas é igualmente curioso o fato de Jesus ceder a uma exigência do demônio, a de ser mandado ao porcos e não ser mandado “para fora daquela região” ou, precisamente, “para o abismo”, como refere Lucas. Por vezes, neste nosso tempo, o demônio pede ao exorcista um destino ou é o exorcista quem lho impõe. O episódio termina com o apostolado particular que Jesus atribui ao homem curado: desta vez não lhe ordena que se cale, mas que fale. A importância desse tipo de poder de Jesus é tal que nunca o Senhor ordena a um endemoninhado que cale a sua libertação; muito pelo contrário, manda freqüentemente que o façam as pessoas curadas de alguma doença.

O segundo caso, também rico em detalhes, nos é oferecido pela cura do jovem, que os nove apóstolos não conseguiram libertar, enquanto Jesus estava ausente no Monte Tabor com Pedro, Tiago e João. Baseio-me, sobretudo, em Lucas (Lc 9,38-43). Também aqui nos encontramos diante de um caso de possessão diabólica gravíssima. O demônio atormenta o rapaz tornando-o mudo, atirando-o ao chão onde se contorce com convulsões, a ponto de fazer parecer epilético. Mas é pior. É um demônio destruidor, que quer causar a morte daquele filho único, lançando-o no fogo ou na água (faço uso também da descrição encontrada em (Mc 9,14-27).

Aqui há dois pormenores importantes a serem notados. Antes de tudo, a pergunta de Jesus: “Há quanto tempo lhe sucede isto?” No Evangelho nunca se nos diz a causa das possessões; nesse episódio o tempo aparece com precisão, “desde a infância”. Trata-se, certamente, de uma causa inculpável, pelo menos da parte da vítima.

Depois, é necessário notar as condições que Jesus exige para a libertação. Ao pai exige a fé: “Tudo é possível a quem crê”; aos apóstolos e desiludidos pelo seu insucesso, acrescenta: “Esta casta de espíritos só pode ser expulsa à força de oração”. Será um limite ao poder dado aos apóstolos? Creio que será mais um sinal concreto que indica que a libertação do demônio é um fato de grande importância e dificuldade, pelo que o efeito dos exorcismos não é, por assim dizer, automático, mas freqüentemente requer muito tempo, além da fé e da oração.

Neste ponto, depois de ter visto com quanta força e freqüência Jesus expulsa os demônios, convém fazer algumas observações.

Um primeiro destaque é que Jesus reconhece o poder do maligno:

– Pode entrar num homem: “Logo que ele o engoliu, Satanás entrou nele” (Jo 13,27), quando descreve o fim de Judas

– Pode voltar com outros sete espíritos piores, mesmo depois de ter saído dele (Mt 12,43-45)

– Pode realizar ações capazes de assombrar o povo, como fazia Simão, o mago

– Dispõe de um poder especial em determinados tempos: “Esta é a vossa hora e do poder das trevas” (Lc 22,53)

– Sobretudo, desenvolve este poder nos últimos tempos, como se conclui dos discursos escatológicos e do Apocalipse.

Além do mais, o demônio opõe-se aos planos de Deus:

– Na parábola do semeador, é ele que rouba a semente da Palavra de Deus que cai no caminho (Mt 13,19)

– Na parábola do trigo e do joio, é ele o inimigo que semeia as ervas daninhas (Mt 13,39)

– Procura transformar os filhos de Deus em filhos seus: “Não vos escolhi eu todos os doze? Contudo, um de vós é um demônio!…”(Jo6,70). “Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejo de vosso pai” (Jo 8,44). “Ananias, por que tomou conta Satanás do teu coração, para que mentisse ao Espírito Santo e enganasses a respeito do valor do campo?(At 5,3); “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo” (Lc 22,31).

À luz destas realidades, ganha particular importância o poder demonstrado por Jesus contra Satanás. É um poder que põe em crise escribas e fariseus que procuram encontrar uma resposta para a questão e não chegam, senão a esta: é pelo poder do príncipe dos demônios. Leiamos, por exemplo: “Logo que se foram, apresentaram-lhe um mudo, possuído do demônio. O demônio foi expulso, o mudo falou e a multidão exclamava com admiração: Jamais se viu algo semelhante em Israel. Os fariseus, porém, diziam: É pelo príncipe das trevas que Ele expulsa os demônios” (Mt 9,32-34). Esta acusação é repetida muitas vezes: “Disseram-lhe os judeus: Agora vemos que és possuído de um demônio” (Jo 8,52); “E os doutores da lei que tinham descido de Jerusalém afirmaram: “Ele esta possuído de belzebu: é pelo príncipe dos demônios que Ele expele os demônios” (Mc 3,22)

A acusação toca um dos pontos fundamentais da missão de Cristo , que veio para destruir as obras de Satanás e para libertar todos os que estavam em seu poder. por isso, a resposta é muito clara completa e articula-se em três argumentos.

O primeiro argumento: a acusação é absolutamente absurda porque levaria o reino de Satanás à sua autodestruição. “Como pode Satanás expulsar a Satanás? Pois, se um reino estiver dividido contra si mesmo, não pode durar. […] Se Satanás se levanta contra si mesmo, esta dividido e não poderá continuar, mas desaparecerá” (Mc 3,23-26)

O segundo argumento é ainda mais forte. Se o primeiro raciocínio mostra o completo absurdo da acusação, o segundo dá a verdadeira explicação de tudo o que está a acontecer, abrindo assim, os olhos dos ouvintes sobre o verdadeiro significado desse poder que Jesus demonstra contra os espíritos imundos. “Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o reino de Deus”(Mt 12,28)

A expulsão do demônio marca o advento do Reino de Deus no mundo, porque se reveste de uma importância fundamental: “Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo” (Jo 12,31); O príncipe deste mundo já está julgado e condenado” (Jo 16,11). É a obra que Jesus veio realizar sobre a Terra. Por isso, quando alguns fariseus lhe disseram: “Sai e vai-te daqui, porque Herodes te quer matar. Disse-lhes Ele: Ide dizer a essa raposa eis que expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e ao terceiro dia terminarei a minha vida”(Lc 13,31-32)

O terceiro argumento de resposta coroa todo o discurso. Jesus mostra a Sua superioridade absoluta e a derrota de Satanás. “Quando um homem forte guarda, armado, a sua casa, estão em segurança os bens que possui. Mas, se sobrevier outro mais forte do que ele e o vencer, este lhe tirará todas as armas em que confiava, e repartirá os seus despojos” (Lc 11,21-22). É evidente a referência. O homem forte, Satanás, que se considera seguro. Quando Jesus chega, o demônio protesta por intermédio dos endemoninhados: “Vieste para nos arruinar?”, porque Jesus é mais forte e vence-o ” O príncipe deste mundo nada pode contra mim” (Jo 14,30) ” O príncipe deste mundo já está julgado e condenado” (Jo 16,11) Iniciou-se o Reino de Deus; por isso, são Paulo, ao contar ao rei Agripa sobre a sua conversão, repete as palavras que o Senhor falou para ele: “Escolhi-te do meio do povo e dos pagãos, aos quais agora te envio para abrir-lhes os olhos, a fim de que se convertam das trevas à luz e do poder de Satanás a Deus, para que, pela fé em mim, recebam perdão dos pecados e herança entre os que foram santificados” (At 26,17-18)

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