(carta 51) Caminho para a humildade

Para Félix de Massa

Saudação e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, meu caríssimo filho (1) no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver alicerçado na verdadeira e perfeita humildade.

Iluminação divina e humildade

Quem é humilde também é paciente no suportar dificuldades por amor à verdade, pois a humildade alimenta e sustenta a caridade. Quem possui a chama da caridade nunca é negligente, mas sempre solícito, porque a caridade não é preguiçosa, sempre trabalha. Todavia, sem uma iluminação divina, ninguém possui a caridade e a humildade, que afastam o orgulho. Se o olho tem um objeto que possa ver, mesmo que esteja sadio e haja luz, se ele não estiver aberto, nada verá. O olho da nossa alma é a inteligência, e sua iluminação vem da fé, se tal olho não estiver velado pelo pano do amor-próprio ou egoísmo. Quando o egoísmo é afastado, nossa inteligência torna-se limpa e conhece. Desperta a afeição da alma, que começa a amar seu benfeitor. Impulsionado pelo amor, o pensamento se abre e contempla o objeto, que é Cristo crucificado. A alma compreende, sobretudo no precioso sangue, o abismo do seu infinito amor (2).

A humildade é a cela do auto conhecimento

Onde a inteligência (iluminada pela fé) encontra Cristo crucificado? Na cela do coração, na qual a alma vê a própria miséria, os próprios defeitos, o próprio nada. Mas, ao mesmo tempo, conhece a bondade de Deus. Se a alma ficasse conhecendo somente si mesma, seu conhecimento de Deus não seria verdadeiro; nem a pessoa colheria os frutos que resultam do conhecimento de si. Ela mais perderia do que ganharia, uma vez que retiraria do conhecimento de si apenas tédio e confusão. Cairia na aridez (espiritual). E se continuasse assim, sem a devida cura, terminaria no desespero. De outro lado, se a alma apenas conhecesse a Deus e não a si mesma. Colheria como fruto apodrecido uma grande confusão (intelectual), que alimenta a soberba. Aliás, uma coisa nutre a outra. É preciso, portanto, que o conhecimento iluminado da alma chegue a um grau completo, tanto do conhecimento de Deus como de si mesma.

Desse modo a alma evita a presunção e o desespero, e colhe na cela do coração o fruto da vida, a partir do conhecimento de si e de como o desprezo do pecado e da perversa lei (da sensualidade), sempre disposta a lutar contra o espírito (Rm 7,23). Tal desprezo gera a paciência, que é o cerne da caridade. No conhecimento de Deus (presente) em si, a alma atingi o abismo do amor por Deus e pelo próximo. Na luz da fé compreende que o amor que tem por Deus não pode ser útil ao Criador. Por isso, imediatamente a alma começa a ser útil ao próximo, por amor a Deus. Ama a criatura por compreender que Deus a ama sumamente. É condição do amor que alguém ame tudo o que a pessoa amada ama.

Conselhos materiais de Catarina. Conclusão

Filho caríssimo, com a iluminação divina recebemos a humildade e a caridade. Graças ao esforçado empenho, dado pela chama da caridade, destruiremos toda negligência; ao mesmo tempo, a água da humildade lavará nossa soberba. Ficamos sedentos da glória divina e zelosos pela salvação das almas mediante a cruz do Cordeiro imaculado e humilde. Outro caminho não existe! Foi ao considerar que temos de caminhar por tal caminho da humildade, que eu disse acima estar desejosa de vos ver alicerçado na verdadeira e perfeita humildade. Quero que vivais dessa maneira, sem medo e sem confusão na mente. Mas, sobretudo, quero que recomeceis a viver com fé viva, esperança firme, obediência pronta. Quero que reabasteçais e alimenteis vossa alma. Que ela não resseque pela confusão e cansaço da mente. Pelo contrário, com muito empenho esforçai-vos por despertar do sono da negligencia, imitando as virtudes que vedes nos vossos irmãos e conservando-as em vosso coração. Amai a verdade! Que ela esteja sempre em vossos lábios. Quando ocorrer, difundi-a nos outros, sobretudo entre as pessoas que amais. Mas fazei-o com delicadeza, assumindo os defeitos alheios. Se não fizeste isso no passado, com a necessária cautela corrigi-o no futuro. Quero que não vos aflijais, nem vos preocupeis comigo. Dia após dia, deixemos passar as ondas deste tempestuoso mar, na humildade, caridade fraterna e paciência.

Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

(1) Félix Massa foi um discípulo muito fiel de Catarina. Acompanhou-a até Avinhão, na França. Catarina ficou sabendo que Ele andava muito abatido pelas críticas que ela estava suportando em seus apostolado. Enviou-lhe então esta carta.

(2) Este parágrafo foi de difícil tradução, porque Catarina compara a inteligência com o olho; a claridade da luz é a fé; objeto da visão é Jesus Cristo; o egoísmo é a venda que impede a visão da fé.

Cartas completas – Editora Paulus – Tradução Frei João Alves Basílio O. P.

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Dia 15 de outubro, dia de Santa Teresa de Ávila

[…] chegaram a mim notícias sobre os danos e estragos causados na França pelos luteranos, e sobre o grande crescimento que essa seita experimentava. Isso me deixou muito pesarosa, e eu, como se pudesse fazer alguma coisa ou tivesse alguma importância, chorava com o Senhor e Lhe suplicava que corrigisse tanto mal. Eu tinha a impressão de que daria mil vidas para salvar uma só alma das muitas que ali se perdiam. E, vendo-me mulher, imperfeita e impossibilidade de trabalhar como gostaria para servir ao Senhor, fui tomada pela ânsia, que ainda está comigo, tendo Deus tantos inimigos e tão poucos amigos, de que estes fossem bons.

Decidi-me então a fazer o pouco que posso: seguir os conselhos evangélicos com toda a perfeição e ver que essas poucas irmãs que aqui estão fizessem o mesmo. Depositei a minha confiança na grande bondade do Senhor, que nunca deixa de ajudar a quem se determina, por Ele, a abandonar tudo. Eu pensava que, sendo elas como eu as via em meus desejos, os meus defeitos não teriam força em meio às suas virtudes, e eu poderia contentar o Senhor em alguma coisa.

Assim, ocupadas todas em orar pelos que são defensores da Igreja, pregadores e letrados que a sustentam, ajudaríamos no que pudéssemos a este Senhor meu, tão atribulado por aqueles a quem fez tanto bem. Pode-se dizer que esses traidores querem pregá-Lo na cruz outra vez, privando-O de onde reclinar a cabeça.

Ó Redentor meu! Meu coração não pode chegar aqui sem se afligir muito! Que se passa agora com os cristãos? Será que sempre os que mais Vos devem mais Vos afligem? Aqueles a quem concedeis mais graças, a quem escolheis para Vossos amigos, entre os quais andais e com os quais Vos comunicais mediante os sacramentos? Não estão satisfeitos com os tormentos que por eles padecestes?

É certo Senhor meu, que nada faz quem agora se afasta do mundo sendo vós tratado nele com tão pouco respeito, que esperamos nós? Por acaso merecemos ser tratados melhor? Porventura fizemos mais por eles para que nos tenham amizade? Que é isso? Que mais esperamos nós, que, pela bondade do Senhor, não estamos contaminados por essa sarna pestilencial, se esses inimigos já pertencem ao demônio? Bom castigo obtiveram com suas próprias mãos, tendo merecido, com seus deleites, o fogo eterno. Que eles mesmos escapem dos perigos em que se puseram, embora não deixe de me partir o coração ver como se perdem tantas almas. Mas, para que o mal não seja tão grande, seria bom que não se perdessem mais almas a cada dia.

Ó irmãs em Cristo! Ajudai-me a suplicar isso ao Senhor, pois foi com esse fim que Ele vos reuniu aqui. Essa é a vossa vocação; esses devem ser os vossos cuidados e os vossos desejos; empregai aqui as vossas lágrimas e para isso dirigi vossos pedidos. Não cuideis, pois, irmãs minhas, dos negócios do mundo, que desdenho e diante dos quais até me aflijo, nem das coisas coisas que às vezes nos encarregam de suplicar a Deus: rendas e dinheiro. E esses pedidos muitas vezes vêm de pessoas que, a meu ver, deveriam implorar a Deus graças para desprezar tudo isso. Elas têm boa intenção e, vendo sua confiança, condescendemos; mas tenho para mim que, nessas coisas, o Senhor nunca me ouve.

O mundo está sendo tomado pelo fogo; querem voltar a condenar a Cristo, como se diz, pois se levantam mil testemunhos falsos, pretendendo derrubar a Sua Igreja. E vamos perder o tempo em súplicas que, se fossem ouvidas por Deus, talvez levassem a se perder mais uma alma no céu? Não, minhas irmãs; não é hora de tratar com Deus de coisas pouco importantes.

Com certeza, se não levasse em contra a fraqueza humana, que se compraz em ser ajudada em tudo (e bom seria se valêssemos algo), eu me regozijaria que se entendesse que não são essas as coisas a serem pedidas a Deus com tanto empenho.

Caminhos da perfeição – Santa Teresa de Ávila

“Em meu nome expulsareis os demônios”

Parte I; Parte II; Parte III

A importância da expulsão dos demônios é muito grande: para demonstrar que Cristo é o mais forte; tem autoridade de destruir o reino de Satanás e para instaurar o Reino de Deus; pode levar definitivamente a vida dos homens para Deus, através da Sua pregação. Para continuar essa obra de redenção da humanidade, destruindo as obras de Satanás e libertando o homem da escravidão do demônio, esse “sinal” deveria continuar. Jesus, então, transmitiu esse poder aos doze apóstolos, depois aos setenta e dois discípulos e, finalmente, a todos os que acreditam nEle.

Marcos fala dele em primeiro lugar, como o primeiro dos poderes conferidos aos apóstolos. “Designou doze dentre eles para ficar em sua companhia. Ele os enviaria a pregar, com o poder de expulsar os demônios” (Mc 3,14-15); “Chamou os doze e começou a enviá-los, dois a dois; e deu-lhes poder sobre os espíritos imundos. Expeliam numerosos demônios, ungiam com óleo a muitos enfermos e os curavam” (Mc 6,7.13).

A linguagem dos outros evagelistas – Mateus e Lucas – é bastante semelhante. “Jesus reuniu seus doze discípulos. Conferiu-lhes o poder de expulsar os espíritos imundos e de curar todo mal e toda enfermidade” (Mt 10,1); “Por onde andardes, anunciai que o Reino dos céus está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. Recebestes de graça, de graça daí!” (MT 10,7-8); “ Reunindo Jesus os doze apóstolos, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para curar enfermidades” (Lc 9,1).

Como se vê nestes testemunhos em comum, trata-se de um poder de autoridade a que o Mestre dá uma importância particular. Em um segundo tempo, o mesmo poder é estendido aos setenta e dois discípulos. Veja que, embora o poder de expulsar os demônios e de curar os doentes apareçam juntos muitas vezes, o primeiro é destacado com relevância especial em relação ao segundo. Aliás, quando os setenta e dois discípulos regressam da sua missão e relatam o seu êxito ao Divino Mestre, demonstram que tinham ficado impressionados, sobretudo, pelo domínio exercido sobre os demônios: “Senhor, até os demônios se nos submetem em Teu nome! (Lc 10,17).

Jesus aproveita este entusiasmo para realçar a derrota do demônio, dizendo: “Vi Satanás cair do céu como um raio” (Lc 10,18). Mas ao mesmo tempo, dá uma lição importante: “Eis que vos dei poder para pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos, mas alegrai-vos de que os vossos nomes estejam escritos nos céus” (Lc 10,19-20). É claro que Jesus tem muita responsabilidade na derrota de Satanás.

A primeira carta de João tem algumas expressões muito fortes: “Nisto é que se distinguem os filhos de Deus dos filhos do diabo” (1Jo 3,10); “Quem comete pecado é do diabo porque o diabo peca desde a origem. Para isto se manifestou o Filho de Deus para destruir as obras do diabo” (1Jo 3,8); e ainda: “Nós bem sabemos que todo aquele que nasceu de Deus não peca, mas o Filho de Deus o guarda e o maligno não o apanha” (1Jo 5,18)

É um grande poder o de expulsar os demônios, mas é um poder maior o de não se deixar seduzir por ele. Sobre este fim, Mateus relata um juízo tremendo: haverá quem tenha poder de mandar os espíritos imundos, mas isto não bastará para salvar a alma: “Muitos me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos, em teu nome que expulsamos os demônios e em teu nome que fizemos muitos milagres?. E, então dir-lhes-ei: “nuca vos conheci ! Afastai-vos de mim, vós que praticais iniqüidade! (Mt 7,22-23). É de supor que até Judas tenha feito milagres e expulsado os demônios; e, no entanto, “Satanás entrou nele”. Eis por que não devemos gloriar-vos dos poderes que o Senhor nos quiser dar, mas sim do fato dos nossos nomes estarem escritos no céu.

Marcos conclui o seu Evangelho com as Palavras de Jesus, que se estendem a todos os que acreditam nEle que tem o poder de expulsar os demônios: “Estes sinais acompanharão aqueles que acreditam: em meu nome expulsarão demônios” (Mc 16,17)

Em Atos dos Apóstolos vemos que, rapidamente, os discípulos de Jesus continuaram a exercer os poderes que o Mestre lhes tinha conferido. Em relação aos apóstolos: “ A multidão vinha também das cidades próximas de Jerusalém, transportando enfermos e atormentados por espíritos malignos e todos eram curados” (Mc 5,16). Em relação ao diácono Filipe: “Ao ouvi-lo falar e ao vê-lo realizar milagres, as multidões aderiram unanimemente à pregação de Filipe. De fato, de muitos possessos saíam malignos, soltando grandes gritos” (Mc 8,6-7).

São mais numerosos os episódios relativos a São Paulo. Basta-nos recordar estes dois: “Encontramos uma escrava que tinha um espírito pitônico e que dava muito lucro aos seus donos exercendo a adivinhação. […] Por fim, já agastado, Paulo disse ao espírito: “Ordeno-te, em nome de Jesus Cristo, que saiais desta mulher”. E o espírito saiu imediatamente” (At 16,16-17). “Deus faz milagres extraordinários por intermédio de Paulo, a tal ponto que bastava aplicar aos doentes os lenços e as roupas que tinham estado em contato com seu corpo para que as doenças e os espíritos malignos os deixassem” (At 19,11-12).

Terminada a formulação fundamenta do tema, solidamente baseada na Escritura, passemos a algumas breves considerações sobre a prática dos exorcismos na história da Igreja primitiva; devemos nos contentar com algumas indicações, nos dirigindo às obras especializadas para quem quiser se aprofundar no assunto.

As primeiras grandes linhas gerais são estas. No início da Igreja, todos podiam expulsar os demônios, tendo como base o mandamento de Cristo. Foi um fato de grande alcance apologético, porque colocou os cristãos em confronto com os exorcistas pagãos; veremos adiante o seu valor. Rapidamente, os exorcismos começaram a ser reservados a classes particulares de pessoas: no Oriente, prevaleceu o reconhecimento de um carisma especial; no Ocidente, afirmaram-se os exorcistas, de nomeação eclesiástica. Em ambos os casos, o exorcismo foi se desenvolvendo, ao longo do tempo, em duas formas distintas: como oração autônoma, voltada para a libertação dos obsessos; como oração fazendo parte do Sacramento do Batismo.

Uma premissa indispensável a levar em consideração é que todos os povos, antigos e modernos, conservaram a sensibilidade com relação à existência dos espíritos maléficos descritos e combatidos segundo a sua cultura. Encontramos práticas exorcistas ente os antigos povos da Assíria, da Babilônia e do Egito. O povo hebreu não estava isento a elas: no Livro de Tobias é o Arcanjo Rafael que liberta Sara; Jesus fala claramente de exorcistas hebreus (Lc 11,19); encontramos notícias deles em Flávio Josefo, historiador judeu-romano. Desde sempre, em todos os povos, magos e bruxos pretenderam poder controlar os espíritos maléficos, uma vez que encontramos a sua atividade em todos os tempos e lugares.

Eis, um primeiro motivo de caráter apologético, realçado pelos primeiríssimos autores cristãos: confrontando os exorcistas pagãos com os exorcistas cristãos, evidencia-se o poder de Cristo. Diz Justino, em primeiro lugar, quando escreve: “Cristo nasceu por vontade do Pai para Salvação dos que crêem e para ruína dos demônios. Podeis criar a vossa convicção por aquilo que vedes com os vossos olhos. Em todo o universo e na vossa cidade (Roma) há numerosos endemoninhados que os outros exorcistas, encantadores e magos não puderam curar; pelo contrário, muitos de nós, cristãos, ordenando- lhes em nome de Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos, temos curado estas pessoas, reduzindo à impotência, os demônios que possuíam os homens” (II Apologia, VI, 5-6). É um texto precioso pela sua antiguidade (meados do século II) e pela fórmula de exorcismo que transcreve.

O mesmo Justino apresenta-nos um texto ainda mais completo no Diálogo com Trifão: “Qualquer demônio que receba uma ordem em nome do Filho de Deus – gerado antes de toda a criatura, que nasceu de uma Virgem, se fez sujeito à dor, foi crucificado pelo vosso povo sob Pôncio Pilatos, morreu e ressuscitou dos mortos e subiu ao céu – , qualquer demônio, afirmo, que receba uma ordem por força deste nome, é vencido e subjugado. Mas experimentai vós esconjurar por todos os nomes dos reis, dos justos, dos profetas ou patriarcas que estiverem entre nós, e vereis que um só demônio fugirá vencido”

Também Irineu testemunha: “ Com a invocação do nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, Satanás é expulso dos homens”. É interessante notar que as fórmulas de exorcismo partem das palavras usadas por Jesus ou por Paulo, mas, depois, enriquecem-se com os principais episódios da vida de Cristo, de modo a também influenciar na formação das primeiras profissões de fé.

Tertuliano confirma a eficácia com a qual os cristãos libertam os demônios, tanto os próprios cristãos quanto os pagãos. É também o primeiro a indicar alguns dos gestos usados, como a imposição das mãos e o sopro da boca; e confirma que a força do exorcismo é dada pelo ato de pronunciar o nome de Cristo. São elementos que entrarão no Rito Batismal.

A igreja antiga, obediente ao poder recebido de Cristo, não só exerceu o poder exorcístico sobre os obsessos e sobre aqueles que eram escravos de instintos maus, mas também fazia exorcismos sobre a vida social, impregnada de idolatria e de influência maléficas. Tertuliando afirma-o explicitamente: “Se não fôssemos nós, quem poderia subtrai-vos ao influxo maléfico daqueles espíritos que se insinuam ocultamente e corrompem os vossos corpos e as vossas mentes? Quem poderia libertar-vos dos assaltos poderosos das forças demoníacas?”.

O demônio sempre exerceu esta influência nefasta na sociedade, além de usá-la nos indivíduos. Para o nosso tempo, limito-me a citar um trecho tirado de um dos três discursos do Papa Paulo vI sobre o diabo (23 de fevereiro de 1977): “Então, não será de admirar que a nossa sociedade se degrade do seu nível de autêntica humanidade à medida que progride nesta pseudomaturidade moral, nesta indiferença, nesta insensibilidade à diferença entre o bem e o mal, e que a Escritura cuidadosamente nos advirta que todo o mundo (no sentido pior que estamos a observar) jaz sob o poder do maligno”.

É caloroso o testemunho de São Cipriano a respeito do poder dos exorcismos: “Vem ouvir com os teus próprios olhos nos momentos em que, cedendo aos nossos esconjuros, aos nossos flagelos espirituais e à tortura das nossas palavras, abandonam os corpos de que se tinham apoderado… Veras como estão dominados sob a nossa mão e como tremem em nosso poder aqueles que tu colocas tão alto, honrando-os como senhores” (Contra Demétrio, C, 15). Na verdade, vemos, em todas as vezes, que as palavras de exorcismo são para o demônio uma tortura cada vez mais insuportável, superior às suas penas infernais, segundo a sua própria confissão.

Orígenes, escrevendo contra Celso, fala da força do nome de Jesus para expulsar os demônios: “A força do exorcismo assenta no nome de Jesus, que é pronunciado enquanto, ao mesmo tempo, se anunciam os fatos relativos à Sua vida. “Orígenes acrescenta também novos elementos em relação ao predecessores. Diz-nos que, no nome de Jesus, se podem expulsar os demônios, não só das pessoas, mas também das coisas, dos lugares e dos animais. E insiste, contra o uso dos magos, que os cristãos não fazem nenhum sortilégio, nem usam fórmulas secretas; mas exprimem a sua fé na força do nome de Jesus.

Escreve Righetti no seu manual de história litúrgica: “Toda a literatura cristã dos três primeiros séculos se reporta freqüentemente à obra daqueles irmãos na fé que, dotados de um carisma particular, exorcizavam segundo uma advertência de Jesus, com a oração e com o jejum. Cada comunidade devia possuir um bom número deles, pouco a pouco, formaram uma corporação à parte, com o Nemo de exorcistas, e bem depressa tiveram o reconhecimento oficial nas categorias do clero menor. Com isso, a Igreja providencia no sentido de privilegiar claramente os seus exorcistas que operavam com clara intenção e em nome de Cristo, dos charlatões e bruxos pagãos. Os Cânones de Hipólito alertam contra eles e proíbem, absolutamente, o seu acesso à fé” (Righetti, Manuale di Storia litúrgica, Ancora, 1959, p 406).

É algo que a Igreja de hoje teria tudo a aprender, quer no que se refere à seleção de um número suficiente de exorcistas que satisfizesse os pedidos dos fiéis, mas também para alertar contra os charlatões, bruxos e magos que hoje tanto falam as publicidades dos jornais e algumas transmissões televisivas. Nunca se fala deles nas igrejas.

Em Roma o exorcista já era uma ordem menor em meados do século IV. Temos um primeiro testemunho dele numa carta que nos é transmitida por Eusébio, em que o Papa Cornélio nomeia os exorcistas, depois os acólitos, seguidos dos leitores e dos ministros da Eucaristia.

Outra preocupação de que rapidamente a igreja cuidou foi a de fazer a distinção entre os verdadeiros endemoninhados e os indivíduos apenas doentes, ou seja, a preocupação de dar um diagnóstico correto. Com esta finalidade, bem cedo os bispos foram encarregados de se pronunciar a respeito deste assunto. No ano de 416, o Papa Inocêncio I, declarava que os diáconos ou sacerdotes só podiam fazer exorcismos com autorização episcopal.

Se quisermos examinar os vários elementos que compunham o exorcismo desde os tempos mais antigos, além da oração dirigida ao Senhor para que viesse em auxílio do possesso e da ordem dada ao demônio em nome de Cristo, de que já falamos, podemos acrescentar alguma coisa sobre os gestos. Começaram logo, pó se afirmar: a imposição das mãos, usada pelo próprio Jesus sobre os endemoninhados de Cafarnaum; o sinal-da-cruz, de que Lactâncio (†317) nos afirma a eficácia; o sopro da boca, que é testemunhado por Tertuliano e por Dionísio de Alexandria; o jejum, sugerido pelo próprio Senhor, juntamente com a oração (Mt 17,21); a unção com óleo, que sabemos de uso corrente em todos os doentes e que se mostrava também eficaz com os possessos. Por exemplo, os Santos Monges Macário e Teodósio livraram os energúmenos por meio das unções. Acrescentamos, agora, o suo da cinza e do cilício que, em grande medida, faziam parte da disciplina penitencial.

Alguns séculos mais tarde acrescentaram-se outros dois usos, que se tornaram de importância primordial e persistiram até hoje: a água-benta que era desconhecida do ritual antigo e a imposição da estola sobre os ombros do exorcizado, introduzida depois do século X. Foi aconselhada também,cada vez mais, a comunhão Eucarística que era administrada geralmente no fim da Missa, celebrada propositadamente para que o exorcismo tivesse êxito feliz.

As fórmulas de exorcismo, como já vimos inicialmente eram bastantes simples. As fórmulas agora em uso e que entraram no Ritual publicado em 1614 são, na realidade, dos finais do século VIII, compiladas por Alcuíno († 804), exceto algumas poucas preces acrescentadas posteriormente. Atualmente estão difundidas nove fórmulas, emanadas provisoriamente, ad experimentum, pela comissão encarregada expressamente de atualizar esta parte do Ritual; as novas fórmulas definitivas foram estabelecidas em 1999 (data da publicação do Ritual)

Conselhos Espirituais

Para Aléssia Saracini e outras discípulas

Saudação e objetivos

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssima filha(1), eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver como seguidoras e amantes da verdade.

União com a Trindade

Assim eu vos verei como o apetite sensível dominado e a inteligência iluminada pela fé, de modo que, tendo renunciado à própria vontade, possais dizer de verdade com o apóstolo Paulo: “Meu senhor, que queres que eu faça? Dizei-me o que desejais que eu faça, e eu o farei” (At 9,6). Caríssima filhas, se realizardes isso como resposta ao nosso Criador, eu vos prometo que subireis com Paulo ao terceiro céu até ao seio da Trindade( 2Cor 12,2). Vossa memória se encherá da lembrança dos benefícios divinos, participando do poder de Deus Pai que vos tornará fortes e pacientes diante das perseguições do mundo, que com paciência vós dominareis. Vossa inteligência, ao contemplar a sabedoria do Filho de Deus, por ela será iluminada. Vossa vontade, unida pelo Espírito Santo no abismo do amor divino, receberá um suave e amoroso desejo de glorificar a Deus e de salvar as almas. Suavemente elevadas ao seio da Trindade, participando do poder de Deus Pai, da sabedoria do Filho e da clemência do Espírito Santo, sentidamente chorareis sobre a humanidade pecadora e sobre o corpo místico da Igreja junto comigo, vossa superpecadora e maldosa mãe.

Oração pela Igreja

Tende compaixão das minhas imperfeições, caríssimas filhas, porque sou a causa de todos os males do mundo inteiro, especialmente da perseguição que se faz à santa Igreja. Que Deus providencie diante de tantos males. Estou segura, e isto me conforta, de que sua providência não faltará. E parece-me que já começa a agir. Mas vos peço e ordeno, caríssimas filhas, que vos laveis e vos afogueis no sangue do Cordeiro imaculado, oferecendo diante dele humildes e continuas orações.

Exortação e conclusão

Nada mais acrescento , a não ser que Deus vos conceda sua eterna benção. E eu da parte dele vos abençôo. Amai-vos, amai-vos mutuamente. A ti, Aléssia, minha querida filha, eu peço que te inebries no sangue junto com as outras filhas. Alimenta-te somente do sangue de Cristo. Peço a Deus, verdade e bondade eterna, que sua graça seja abundante em ti e nas demais. Que eu veja inteiramente eliminada de tia a vontade pessoal, de modo que eu possa gloriar-me de ti e das outras filhas diante de Deus, agradecendo e louvando seu santo nome. Permanecei no santo amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

(1) (1)Aléssia Saracine enviuvou bastante jovem. Distribuiu entre os pobres os seus bens e vestiu o hábito da ordem da penitência de são Domingos. Foi a discípula predileta de Santa Catarina de Sena

Ca    Cartas Completas – Editora Paulus


Uma rainha e Santa georgiana “vive” no convento da graça

A vida de uma das santas mais veneradas da Geórgia cruzou-se com a de missionários portugueses há vários séculos e a sua história acabou representada num painel de azulejos que está hoje numa parede do Convento da Graça, em Lisboa.
Segundo a imprensa georgiana, as autoridades locais já ofereçam cerca de dez mil euros pelo painel, que “vive” meio escondido por armários numa sala que funciona como infantário.
Entre os reis e rainhas georgianos, Santa Ketevan é uma das mais veneradas pela Igreja Ortodoxa da Geórgia, por ter sacrificado a vida em prol da fé cristã e da independência do seu país.
Ketevan reinou na Kakhétia, estado feudal situado no Este da Geórgia, no início do séc. XVII, e foi vítima de uma das tentativas de Abbas I, xã da Pérsia, de conquistar a Geórgia e converter o seu povo ao Islão.
Os georgianos, tal como os arménios, são dois povos do Cáucaso que adoptaram o Cristianismo como religião oficial quase ao mesmo tempo que o imperador romano Constantino.
Esposa do rei David, Ketevan passou a estar à frente do reino depois da morte do marido. O seu cunhado Constantino, que entrou na história com o cognome de Maldito, converteu-se ao Islão em 1605, assassinou o seu próprio pai, Alexandre II, e o irmão Georgui e tentou obrigar a rainha Ketevan a casar com ele.
Ketevan reuniu as suas tropas e derrotou o cunhado, que era apoiado pelos persas. Porém, o xã Abbas I fez refém o filho da rainha, o príncipe Teimuraz, que, não obstante todas as ameaças e promessas, não aceitou converter-se ao Islão. O senhor da Pérsia acabou por o libertar, mas prometeu transformar a Geórgia em ruínas.
A fim de impedir a desgraça, a rainha, juntamente com dois netos, foi entregar-se como refém a Abbas, que a encerrou dez anos na prisão. O xã chegou a prometer fazer dela rainha da Pérsia caso se convertesse ao Islão, o que ela recusou. A 22 de Setembro de 1624, depois de ser sujeita a torturas, a rainha georgiana foi queimada.
Segundo uma biografia de Ketavan, dois missionários agostinhos portugueses, Ambrósio dos Anjos e Pedro dos Santos, que tinham assistido ao suplício da mártir, “ofereceram ao xã 120 mil rublos em troco do corpo da mártir, mas ele não os quis sequer ouvir. Depois de longas buscas, encontraram a sepultura, encomendaram secretamente um caixão, onde depositaram o santo corpo”.
Três anos depois, os missionários portugueses conseguiram retirar os restos mortais da Pérsia. Parte dos restos mortais da santa georgiana foram depositados na Igreja de Santo Agostinho de Goa.
Arqueólogos indianos e georgianos descobriram esses restos mortais em Novembro de 2006. Outra parte foi enviada pelos padres portugueses a Teimuraz I, filho de Ketevan, a fim de o convencer a permitir a actividade missionária católica no seu país. Dessa forma, Ketevan acabou por ser importante para a entrada de missionários portugueses no Oriente. Uma terceira parte foi sepultada na Basílica de São Pedro, em Roma. A Igreja Ortodoxa da Geórgia canonizou Ketevan, sendo a festa da santa realizada a 22 de Setembro.
Segundo a lenda, o painel de azulejos que representa o martírio de Ketavan e se encontra no Convento da Graça, em Lisboa, foi pintado em conformidade com o relato do padre Ambrósio dos Anjos.
A imprensa georgiana escreve que o painel de azulejos necessita de obras de restauro e que as autoridades de Tbilissi já demonstraram o interesse à Igreja Católica Portuguesa em adquirir essa obra por cerca de dez mil euros.
Fonte da paróquia da Graça disse à Lusa desconhecer qualquer proposta para a aquisição do painel.
Retirado do Blog Da Rússia

A São Miguel

São Miguel Arcanjo, defende-nos na batalha; contra a malvadez e as insídias do diabo sê nossa ajuda. Suplicantes te pedimos: que o Senhor domine! E tu, príncipe das milícias celestes, com o poder que te vem de Deus, mete no inferno Satanás e os outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perdição das almas.

Amém.