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Oração de Santa Catarina de Sena

AUXÍLIOS DIVINOS PARA A REFORMA DA IGREJA (VII – A fortaleza da alma)

1. Mil auxílios da Providência

Confesso, Deus eterno; confesso, eterno Deus, alta e eterna Trindade (1). Tu me olhas e conheces! Entendi isso na tua luz. Confesso, eterno Deus: sei quais são as necessidades da tua dulcíssima Esposa, a Igreja; conheço a boa vontade do teu Representante (2). Mas quem o impede de realizá-la? Vi na tua luz que conheces tudo isso, pois nada está oculto ao teu olhar.

Na tua luz eu vejo que providenciaste a medicina para a Humanidade morta, no Verbo, teu Filho unigênito. Outro medicamento, que providenciaste para tal morto, foi conservar as cicatrizes no corpo (ressuscitado) de Cristo, para que implorassem misericórdia junto de Ti. Na tua luz eu vi que as conservastes num arroubo de amor. Tanto as cicatrizes como a cor do sangue continuam sem contradição no seu corpo.

Em Ti mesmo viste que, após a cura da enfermidade (humana), os homens iriam continuar a cair diariamente nos seus pecados. Por isso, deixaste o sacramento da Penitência. Nele, o sacerdote derrama o sangue do Cordeiro na face da alma.

Puseste o Filho como principal medicina para reconciliar-nos contigo e ainda esses outros meios, necessários para a salvação. Na tua luz, eu sei que conhecestes tudo isso com antecedência. Em tal luz eu vejo; sem ela, andaria nas trevas.

Amor dulcíssimo! Viste as necessidades da santa Igreja e o medicamento de que precisava. Para isso providenciaste a oração dos teus servidores. Queres que eles construam um muro, no qual se apóiem as paredes da santa Igreja, e neles a clemência do Espírito Santo acende inflamados desejos de reforma.

Viste (no homem decaído) a lei perversa, sempre pronta a rebelar-se contra a tua vontade. Sabias que muitos de nós iríamos seguir. Conheces a fraqueza da nossa natureza, quanto ela é débil, frágil, mísera. Por isso, ó Provedor dos homens, providenciaste o remédio, dando-nos o rochedo fortificado da vontade. A fraqueza da carne nos acompanha, mas a vontade é tão firme que demônio ou criatura alguma é capaz de vencê-la, contra nosso querer, isto é, sem o consentimento do livre-arbítrio, que defende aquela fortaleza.

Donde provém, Bondade infinita, essa firmeza da vontade? De Ti que és a suprema e eterna força. Vejo que nossa vontade participa da fortaleza da tua vontade, pois dela procede. Nossa vontade tanto é firme quanto segue a tua; tanto é fraca quanto dela se afasta. Tua vontade criou a nossa; permanecendo unida à tua, nossa vontade é firme.

Tudo isso eu vi na tua luz! Ó Pai eterno, em nossa vontade revelas a firmeza da tua; mas se tornaste forte uma realidade tão pequenina, quão grande pensaremos tua vontade, pois és o Criador e Regedor de todas as coisas.

Outra coisa vejo na tua luz: parece-me que a vontade, que recebemos de Ti livre, é fortalecida pela iluminação da fé, na qual conhecemos teu querer eterno, que nada mais deseja que a nossa santificação. Conforme aumenta a iluminação, firma-se a vontade na prática das ações. Seja a vontade reta, como a fé viva, não podem ficar sem as obras. A iluminação da fé nutre e dá crescimento à chama (do amor) na alma. Esta nunca experimentaria o fogo do teu amor se a fé não lhe revelasse teu amor e estima por nós. Ó luz da fé!  Tu és a lenha que incendeia o amor da alma. Como a lenha faz crescer a chama natural, tu aumentas a caridade no homem. Revelas a ele a bondade divina e o amor da alma aumenta, pelo desej ode conhecer a Deus, anseio que ajudas a realizar.

Provedor boníssimo! Não quisestes que o homem vivesse nas trevas e na guerra; deste-lhe, então, a luz da fé. Ela nos indica o caminho e nos dá paz e quietude. A fé não deixa a alma morrer de fome, viver nua e pobre. Pelo contrário, alimenta-a com a graça, faz saborear no amor o Alimento (eucarístico), veste-a com a roupa nupcial da caridade e do teu querer, revela-lhe os tesouros eternos.

Pequei, Senhor, tem compaixão de mim! As trevas da lei perverssa, que sempre segui, ofuscou minha inteligência. Por isso não Te conheci, ó verdadeira luz! Mas mesmo assim, agradou à tua caridade iluminar-me.

2. Súplica pelo papa e pelos discípulos

Ó Deus eterno, Amor sem preço! Pela criação, estás mutuamente amalgamado com o homem pela força da vontade, pela chama (de amor) com que o criaste, pela iluminação natural que lhe deste. Mediante eal iluminação, o homem Te conhece e age desejoso das virtudes reais e verdadeiras, para a glória e louvor do teu nome. Tu és aquele que é; os demais seres, deixando de lado o que lhes deste, nada são.

Ó minha alma, cega, mísera! És indigna de formar com os demais servidores de Deus um muro para sustentar a santa Igreja. Mereces estar no estômago de um animal, pois tuas ações foram sempre animalescas.

Deus eterno! Agradeço-Te, agradeço-Te, agradeço-Te porque me escolheste para tal trabalho, não obstante minhas iniquidades. Suplico, então: já que pões na mente dos teus servidores anseios e inflamados desejos de reformar tua Esposa, e os levas a clamar em contínua oração, escuta seu clamor. Conserva e aperfeiçoa a boa vontade do teu Representante. Seja ele perfeito, na medida que lhe pedes. O mesmo eu peço para todos os homens. De modo especial para aqueles que colocaste sobre os meus ombros. Fraca e incapaz, eu os entrego a Ti. Não quero que meus pecados os prejudiquem, pois sempre segui a perversa lei. Desejo e rogo que eles Te sigam na perfeição; mereçam ser atendidos nas preces que fazem, e devem fazer, pelo mundo inteiro e pela santa Igreja.

Pequei Senhor, tem compaixão de mim!

(1) Catarina recitou esta oração no dia 20 de fevereiro de 1379

(2) O papa Urbano VI

As orações – Santa Catarina de Sena – Editora Paulus

A missão de Cristo da Igreja e do Papa

Esta oração foi recitada por Santa Catarina de Sena em Avinhão, no dia 14 de agosto de 1376. Na ocasião, como embaixatriz de Florença, procurou obter do papa Gregório XI (1370 – 1378) o perdão para o interdito decretado contra aquela cidade. Também aconselhou ao papa que voltasse para Roma e procurou incentivar a realização de uma Cruzada para unir os príncipes cristãos da Europa.

Criação queda e redenção do homem

Ó Deidade, Deidade, inefável Deidade! Ó bondade suprema! Unicamente por amor, nos fizestes à tua imagem e semelhança. Ao criar o homem, não disseste “Faça-se”, como ocorrera com as demais criaturas, mas”Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn1,26) para que, Amor inefável, toda a Trindade concordasse. A memória é figura de Ti, Pai eterno: como reténs e conservas todas as coisas, deste a memória ao homem, a fim de que ele retivesse e conservasse tudo aquilo que a inteligência vê, entende e conhece da tua bondade infinita; com isso o homem participa da sabedoria do teu Filho unigênito. Deste ao homem a vontade, como figura da clemência do Espírito Santo; qual mão poderosa do teu amor, ela se ergue para apanhar tudo quanto a inteligência conhece do teu Ser inefável, Assim, estando a vontade cheia do teu amor, o mesmo acontece com a memória. Gratidão, gratidão a Ti, excelsa e eterna Deidade, pelo amor revelado ao concederes tal semelhança à alma: inteligência para conhecer, memória para reter e conservar, vontade para possuir-Te acima de tudo. Ó bondade infinita, como é racional que, ao Te conhecer, o homem Te ame. Ame com um amor tão vigoroso, que demônio ou criatura alguma possa destruir, sem o consentimento da vontade. E envergonhe-se a pessoa que, conhecendo teu amor, não Te ama.

Ó Deidade eterna, amor sem preço! Após cairmos no horror do pecado, quando nosso pai Adão, por maldade e fraqueza Te desobedeceu, Tu, ó Pai, com amor e compaixão olhaste para nós, míseros infelizes, e enviaste o teu Filho unigênito, Palavra encarnada e revestida de nossa condição mortal.

E Tu, Jesus, nosso reconciliador, restaurador e redentor, Te tornaste mediador, palavra e amor. Da grande guerra, que o homem mantinha contra o Pai, fizeste uma imensa paz. Puniste em teu corpo nossa maldade e a desobediência de Adão, fazendo-Te obediente até a vergonhosa morte na cruz. Bondoso e amoroso Jesus! Com um único golpe deste reparação à injúria feita ao Pai e ao nosso pecado, pois tomaste sobre Ti a vingança da ofensa ao Pai.

Pequei, Senhor, tem compaixão de mim!

Louvores a Jesus Cristo e a Deus Pai

Para qualquer lado me volte, só encontro um grande amor. Impossível achar desculpas para não amar porque Tu, Homem-Deus, me amaste antes que eu Te amasse. Eu não existia, e me criaste. Em Ti encontro tudo quanto desejo. Tudo encontro em Ti, menos o pecado. Sendo uma privação, o pecado não existe em Ti, nem é digno de ser amado. Se desejamos amar a Deus, em Ti achamos a inefável Deidade; se queremos amar o homem, és o homem posso conhecer a Pureza sem preço. Se desejo amar um senhor, és o Senhor e com teu sangue pagaste o preço da nossa escravidão ao pecado.

Ó Deus eterno, por tua bondade e imenso amor és nosso Senhor, Pai e irmão. O Verbo, teu Filho, conhecendo e cumprindo tua vontade, queis derramar seu sangue no salutífero madeiro da cruz em favor da nossa miséria.

Ó Deidade, és a suprema sabedoria; e eu, uma criatura ignorante e pobre; és a suprema e eterna bondade; eu sou a morte, Tu a vida; eu as trevas, Tu a luz; eu a tolice, Tua a sabedoria; Tu o infinito, eu o finito; eu a enferma, Tu o médico; eu, uma frágil pecadora, que jamais Te amou; és a beleza puríssima, eu uma sujíssima criatura. Por inefável amor, Tu me fizeste sair de Ti. Por gratuidade, sem nenhum merecimento. Tu nos atrais sob a condição de que nos deixemos atrair, isto é, que nossa vontade não se oponha à tua.

Ai de mim! Pequei, Senhor, tem compaixão de mim!

Súplica pela Igreja, pelo Papa e oferta como vítima

Ó bondade eterna, não olhes para as misérias, que culposamente cometemos, quando nossas almas se afastam de Ti, que és o nosso Fim. Eu Te peço: por tua infinita misericórdia, olha com clemência e compaixão para tua Esposa (a Igreja). Ilumina o teu Representante (o Papa); que ele não Te ame por causa de si, nem se ame por interesses pessoais. Que Te ame por tua causa; por tua causa se ame. Pois quando ele Te ama e se ama por interesses pessoais, nós perecemos. Nele está a nossa vida. E também a nossa morte, quando não se preocupa em defender as ovelhas que perecem. Se teu Representante amar a si mesmo e Te amar por tua causa, viveremos. Do pastor recebemos o exemplo de vida. Ó Deidade suprema e inefável! Pequei e não sou digna de orar diante de Ti. Mas Tu és poderoso para tornar me digna. Senhor, meu Deus! Castiga, pois, os meus pecados e não leves em consideração minha miséria. Possuo um corpo, que Te dou e ofereço. Eis a carne, eis o sangue. Se for da tua vontade, sejam meus ossos dessangrados, destruídos e separados em prol daqueles pelos quais imploro. Tritura os ossos e sua medula em favor do teu Representante, único esposo da tua Igreja. Por ela, peço que me escutes. Que teu Representante leve em consideração tua vontade, que a ame, a cumpra, a fim de que não pereçamos. Dá-lhe um coração novo, que continuamente cresça na graça. Um coração forte, capaz de empunhar o estandarte da cruz (na Cruzada), para fazer os infiéis (sarracenos) participar dos frutos da Paixaã e do Sangue do teu Filho, Cordeiro sem mancha, Deidade altíssima e inefável.

Pequei, Senhor, tem compaixão de mim!

Tirado do Livro – As orações de Santa Catarina de Sena – Editora Paulus