Servo dos Servos de Deus

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(carta 51) Caminho para a humildade

Outubro 26, 2008 · Deixe um comentário

Para Félix de Massa

Saudação e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, meu caríssimo filho (1) no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver alicerçado na verdadeira e perfeita humildade.

Iluminação divina e humildade

Quem é humilde também é paciente no suportar dificuldades por amor à verdade, pois a humildade alimenta e sustenta a caridade. Quem possui a chama da caridade nunca é negligente, mas sempre solícito, porque a caridade não é preguiçosa, sempre trabalha. Todavia, sem uma iluminação divina, ninguém possui a caridade e a humildade, que afastam o orgulho. Se o olho tem um objeto que possa ver, mesmo que esteja sadio e haja luz, se ele não estiver aberto, nada verá. O olho da nossa alma é a inteligência, e sua iluminação vem da fé, se tal olho não estiver velado pelo pano do amor-próprio ou egoísmo. Quando o egoísmo é afastado, nossa inteligência torna-se limpa e conhece. Desperta a afeição da alma, que começa a amar seu benfeitor. Impulsionado pelo amor, o pensamento se abre e contempla o objeto, que é Cristo crucificado. A alma compreende, sobretudo no precioso sangue, o abismo do seu infinito amor (2).

A humildade é a cela do auto conhecimento

Onde a inteligência (iluminada pela fé) encontra Cristo crucificado? Na cela do coração, na qual a alma vê a própria miséria, os próprios defeitos, o próprio nada. Mas, ao mesmo tempo, conhece a bondade de Deus. Se a alma ficasse conhecendo somente si mesma, seu conhecimento de Deus não seria verdadeiro; nem a pessoa colheria os frutos que resultam do conhecimento de si. Ela mais perderia do que ganharia, uma vez que retiraria do conhecimento de si apenas tédio e confusão. Cairia na aridez (espiritual). E se continuasse assim, sem a devida cura, terminaria no desespero. De outro lado, se a alma apenas conhecesse a Deus e não a si mesma. Colheria como fruto apodrecido uma grande confusão (intelectual), que alimenta a soberba. Aliás, uma coisa nutre a outra. É preciso, portanto, que o conhecimento iluminado da alma chegue a um grau completo, tanto do conhecimento de Deus como de si mesma.

Desse modo a alma evita a presunção e o desespero, e colhe na cela do coração o fruto da vida, a partir do conhecimento de si e de como o desprezo do pecado e da perversa lei (da sensualidade), sempre disposta a lutar contra o espírito (Rm 7,23). Tal desprezo gera a paciência, que é o cerne da caridade. No conhecimento de Deus (presente) em si, a alma atingi o abismo do amor por Deus e pelo próximo. Na luz da fé compreende que o amor que tem por Deus não pode ser útil ao Criador. Por isso, imediatamente a alma começa a ser útil ao próximo, por amor a Deus. Ama a criatura por compreender que Deus a ama sumamente. É condição do amor que alguém ame tudo o que a pessoa amada ama.

Conselhos materiais de Catarina. Conclusão

Filho caríssimo, com a iluminação divina recebemos a humildade e a caridade. Graças ao esforçado empenho, dado pela chama da caridade, destruiremos toda negligência; ao mesmo tempo, a água da humildade lavará nossa soberba. Ficamos sedentos da glória divina e zelosos pela salvação das almas mediante a cruz do Cordeiro imaculado e humilde. Outro caminho não existe! Foi ao considerar que temos de caminhar por tal caminho da humildade, que eu disse acima estar desejosa de vos ver alicerçado na verdadeira e perfeita humildade. Quero que vivais dessa maneira, sem medo e sem confusão na mente. Mas, sobretudo, quero que recomeceis a viver com fé viva, esperança firme, obediência pronta. Quero que reabasteçais e alimenteis vossa alma. Que ela não resseque pela confusão e cansaço da mente. Pelo contrário, com muito empenho esforçai-vos por despertar do sono da negligencia, imitando as virtudes que vedes nos vossos irmãos e conservando-as em vosso coração. Amai a verdade! Que ela esteja sempre em vossos lábios. Quando ocorrer, difundi-a nos outros, sobretudo entre as pessoas que amais. Mas fazei-o com delicadeza, assumindo os defeitos alheios. Se não fizeste isso no passado, com a necessária cautela corrigi-o no futuro. Quero que não vos aflijais, nem vos preocupeis comigo. Dia após dia, deixemos passar as ondas deste tempestuoso mar, na humildade, caridade fraterna e paciência.

Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

(1) Félix Massa foi um discípulo muito fiel de Catarina. Acompanhou-a até Avinhão, na França. Catarina ficou sabendo que Ele andava muito abatido pelas críticas que ela estava suportando em seus apostolado. Enviou-lhe então esta carta.

(2) Este parágrafo foi de difícil tradução, porque Catarina compara a inteligência com o olho; a claridade da luz é a fé; objeto da visão é Jesus Cristo; o egoísmo é a venda que impede a visão da fé.

Cartas completas – Editora Paulus – Tradução Frei João Alves Basílio O. P.

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Conselhos Espirituais

Outubro 2, 2008 · Deixe um comentário

Para Aléssia Saracini e outras discípulas

Saudação e objetivos

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssima filha(1), eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver como seguidoras e amantes da verdade.

União com a Trindade

Assim eu vos verei como o apetite sensível dominado e a inteligência iluminada pela fé, de modo que, tendo renunciado à própria vontade, possais dizer de verdade com o apóstolo Paulo: “Meu senhor, que queres que eu faça? Dizei-me o que desejais que eu faça, e eu o farei” (At 9,6). Caríssima filhas, se realizardes isso como resposta ao nosso Criador, eu vos prometo que subireis com Paulo ao terceiro céu até ao seio da Trindade( 2Cor 12,2). Vossa memória se encherá da lembrança dos benefícios divinos, participando do poder de Deus Pai que vos tornará fortes e pacientes diante das perseguições do mundo, que com paciência vós dominareis. Vossa inteligência, ao contemplar a sabedoria do Filho de Deus, por ela será iluminada. Vossa vontade, unida pelo Espírito Santo no abismo do amor divino, receberá um suave e amoroso desejo de glorificar a Deus e de salvar as almas. Suavemente elevadas ao seio da Trindade, participando do poder de Deus Pai, da sabedoria do Filho e da clemência do Espírito Santo, sentidamente chorareis sobre a humanidade pecadora e sobre o corpo místico da Igreja junto comigo, vossa superpecadora e maldosa mãe.

Oração pela Igreja

Tende compaixão das minhas imperfeições, caríssimas filhas, porque sou a causa de todos os males do mundo inteiro, especialmente da perseguição que se faz à santa Igreja. Que Deus providencie diante de tantos males. Estou segura, e isto me conforta, de que sua providência não faltará. E parece-me que já começa a agir. Mas vos peço e ordeno, caríssimas filhas, que vos laveis e vos afogueis no sangue do Cordeiro imaculado, oferecendo diante dele humildes e continuas orações.

Exortação e conclusão

Nada mais acrescento , a não ser que Deus vos conceda sua eterna benção. E eu da parte dele vos abençôo. Amai-vos, amai-vos mutuamente. A ti, Aléssia, minha querida filha, eu peço que te inebries no sangue junto com as outras filhas. Alimenta-te somente do sangue de Cristo. Peço a Deus, verdade e bondade eterna, que sua graça seja abundante em ti e nas demais. Que eu veja inteiramente eliminada de tia a vontade pessoal, de modo que eu possa gloriar-me de ti e das outras filhas diante de Deus, agradecendo e louvando seu santo nome. Permanecei no santo amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

(1) (1)Aléssia Saracine enviuvou bastante jovem. Distribuiu entre os pobres os seus bens e vestiu o hábito da ordem da penitência de são Domingos. Foi a discípula predileta de Santa Catarina de Sena

Ca    Cartas Completas – Editora Paulus


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(carta 197) As tentações do diabo, do mundo e da carne

Setembro 30, 2008 · 2 Comentários

Para Mateus de Orvieto

Saudação e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssimo irmão e filho no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver como pedra firme, e não como folha levada por todos os ventos.

Três perigosas dificuldades

Porque a pessoa que não está alicerçada na rocha viva, que é Jesus Cristo – pondo o seu desejo somente em Deus e não nas realidades transitórias do mundo que passam como o vento – desanima por estar privada da graça divina. A graça conserva a alma, concede-lhe a vida e perfeita iluminação nas trevas, grande paciência, temor de Deus, humildade e amor fraterno pelo próximo. Essa pessoa não se impacienta sob o impacto das tribulações, nem falsamente sente-se feliz ao sopro das consolações espirituais, nem inflada de orgulho por causa da riqueza e da fumaça das honrarias humanas.

Nada disso lhe acontece, porque é firme. Seu alicerce é Cristo crucificado. A pessoa nem se preocupa com o sopro das três ventanias principais, causadas pelo diabo, pelo mundo e pela carne.

As tentações do diabo

Em primeiro lugar, do diabo procede a ventania de numerosas imaginações e tentações. A tentação de vaidade torna o coração leviano, imaturo, com forte desejo de alcançar altas posições no mundo; e que às vezes se apresenta em coloração de virtude. Essa é a pior ventania que se conhece. Somente a pessoa humilde não se deixa enganar por ela. A coloração de virtude, dada pelo diabo, é esta: a pessoa é maldosa e desprovida de virtude, mas tem um começo de desejo das coisas de Deus e dá algum sinal de virtude. Mas é ainda imperfeita, sem conhecimento de si e põe-se a investigar sobre a vida alheia, tanto material como espiritualmente. Então o diabo sugere um julgamento falso. A pessoa começa a julgar maldosamente o próximo, os servos de Deus e os amigos do mundo. E nem percebe o que o faz. Por que não percebe? Porque o diabo disfarçou o seu julgamento com o manto da virtude e a pessoa acha que faz o bem. Parece-lhe obter um duplo efeito, muitas vezes, como de estar fazendo um ato de culto a Deus. Mas engana-se porque age por orgulho. Se ela fosse humilde e se baseasse num conhecimento verdadeiro de si mesma, envergonhar-se-ia de emitir tais julgamentos; compreenderia que impõe regras a Deus. De fato, é o que faz ao criticar os servidores de Deus, ao querer orientar as pessoas segundo suas idéias e não como Deus as chama.

É por isso que a pessoa alicerçada na rocha viva, que é Cristo, oporá resistência a tais atitudes e, com muita humildade, procurará alegrar-se e glorificar a Deus pelos costumes e comportamentos dos seus servos; e, ao mesmo tempo, pedirá à misericórdia divina que olhe com piedade para aquelas pessoas, tirando-as do pecado e reconduzindo-as à virtude. Dessa maneira a pessoa tira uma rosa do espinheiro, conserva pura sua alma, sem dar asas à imaginação e enchendo à memória de fantasias sobre coisas espirituais e materiais. Isso fazem pessoas loucas, tolas e presunçosas que nada viram e investigam comportamentos alheios, de como fazer o bem. Essas se deixam levar pela ventania do diabo, tão perigosa. Ó boca maldita, como envenenaste com teu mau hálito o mundo, as pessoas do mundo e de fora dele, como ficou dito antes. Após julgar mal dentro de si mesma, tal pessoa, vazia põe-se a criticar, escandalizada com as coisas de Deus e do próximo. Uma pessoa assim deve ser evitada com santa prudência.

As tentações do mundo

Outra perigosa e perversa ventania é a do mundo. Consiste no egoísmo desordenado da pessoa complacente consigo mesma e que procura consolações e prazeres. Com o pensamento, ela esconde as trevas, a miséria e a transitoriedade do mundo, imaginando-o belo e agradável. Desse modo engana-se, imaginando que a vida é longa, quando na realidade é breve. Os prazeres, as consolações e a riqueza são vistos como coisas definitivas, e no entanto são mutáveis. Tudo nos é dado como empréstimo, para uso nas necessidades. Uma coisa é certa! Ou tais realidades são tomadas do homem, ou o homem é tomado delas. São retiradas de nós quando às vezes as perdemos, quando alguém no-la rouba ou por outros acontecimentos que as destróem e elas cessam. Digo que nós somos retirados dessas coisas, quando Deus nos chama, separando a alma do corpo. Então deixamos o mundo com seus encantos. E tal separação, nenhuma riqueza e nenhum poder conseguem evitar.

Dessa maneira a alma fraca e cega, que não elevou eu olhar acima da terra, como uma folha vai seguindo a ventania do próprio desordenado amor egoísta por si e pelo mundo. Da sua maldita boca saem, então palavras de inveja contra o próximo e murmuração, com elevada reputação de si. Muitas vezes com ódio e rancor contra o próximo. Muitas vezes, a pessoa se apossa de coisas alheias, com juramentos, perjúrios e falsos testemunho. Chega-se até a desejar a morte do próximo. Tendo o dever de amar todo mundo, a pessoa se transforma num devorador da carne e dos bens do próximo. Inteiramente volátil, poucas vezes completa um ato de virtude começado. A vida foi montada sobre a areia, onde edifício algum pode ser construído, sem logo cair por terra. Tal pessoa não possui a graça divina, perdeu a luz da razão. Caminha como animal, não como ser racional.

Por conveniência e necessidade, precisamos estar alicerçados na rocha viva. As pessoas que nela põem seu pensamento e seu amor não podem ser abaladas nem se deixam abalar por essa ventania maldosa do mundo. Tais pessoas até lhe opõem resistência e se defendem, desprezando o mundo com sua vaidade e seus prazeres. Elas eliminam o orgulho  com grande humildade e desejam a pobreza voluntária. E quem possui riqueza e alta posição social, conserva-as, mas  com amor e santo temor, como despenseiro de Cristo, socorrendo os pobres, ajudando os servidores de Deus, respeitando-os, compreendendo que eles se dedicam à oração com anseios, suores e lágrimas diante de Deus, a favor de todos. Estes vivem felizes sempre e em todas as situações, uma vez que se libertaram da desordem da vontade e do egoismo. Sendo tão importante esse alicerce na rocha, não se deve esperar para consegui-lo, pois desconhecemos o futuro.

As tentações da Carne

A terceira ventania consiste na tentação da carne. Ela espalha um mau cheiro intolerável, não apenas para Deus, mas também para os demônios, tornando a pessoa bestial. Torna-se como os animais, sem vergonha. Como o porco, a pessoa revolve-se na lama, na lama da desonestidade. Em qualquer estado de vida esteja, arruina-se. Se é casada, envenena o amor matrimonial. O que deve fazer com temor de Deus, ela o faz com amor desordenado e pouco honesto. Essas miseráveis pessoas não pensam na grande dignidade a que chegou a própria carne humana na união com Deus em Cristo. Se refletissem, prefeririam morrer e não se entregarem a tão grande baixeza. Sabes a que ponto chega esse mau hálito, que envenena todos os que de tal pessoa se aproximam? O coração da pessoa se torna suspeito, a língua murmura e blasfema, achando que existe nos outros a mesma coisa que existe nela. A pessoa assemelha-se a um doente, que estragou o próprio estômago. Ela acha ruim, como algo estragado, não somente o alimento normal, mas também aquele que o médico lhe prescreveu. E maravilha-se de que uma pessoa sadia, que come seu alimento, não sinta o mesmo sabor que ela sente. Assim os pecadores, que se entregam ao prazer da carne, arruinam a própria sensibilidade e a da comunidade dos que vivem no mesmo vício, e ficam escandalizados relativamente aos justos. Escandalizam-se até do próprio matrimônio, que Deus lhes deu como condescendência à sua frágil enfermidade, a própria esposa. Tendo um coração desordenado, até o amor da esposa lhe faz mal. Ciúmes e suspeitas fazem tais pessoas julgar má uma pessoa reta, e passam a odiar e desprezar o que deveria ser um justo amor. Em tal pessoa há um modo de ver. É seu olho que está doente. Não fosse assim, julgaria de outro modo. Oh! Quantos defeitos e inconvenientes procedem dessa ventania da carne! É algo que corrói por dentro. Como o mau hálito sai da boca, assim a pessoa julga mal a própria esposa. Disso deriva um outro defeito: se por inspiração divina ocorre à pessoa um bom desejo de corrigir-se e de viver bem o matrimônio, o verme da suspeita já penetrou no seu corpo e apaga o perfume da virtude, e sua podridão renasce. O que antes agradava à pessoa, passa a desagradar-lhe. Não tem constância, nem perseverança na virtude. A pessoa volta atrás, não examina o próprio erro e a própria doença (espiritual). E tudo isso sucede porque falta ao pecador  o alicerce na rocha viva ao ser atingido e forçado pela ventania da carne. É preciso que a pessoa se livre do apodrecido alicerce da impureza, fundamentando-se na rocha viva, Cristo. Então, a ventania da carne não a prejudicará. Ao contrário, poderá resistir com a virtude da continência e da pureza, disciplinando a vontade mediante a razão e o desejo santo, dizendo a si mesma: “Envergonha-te minha alma, por enfeares o teu rosto e corromperes teu corpo na impureza. Foste feita à imagem e semelhança de Deus. E tu, carne, foste elevada a uma altíssima dignidade na uniã da natureza divina com a humana (em Cristo) e foste elevada acima de todos os coros dos anjos”. Então a pessoa sentirá o perfume da virtude e o desejo de remediar com a vigília de oração e o conhecimento de si mesma. Ninguém se oponha ao conhecimento de si mesmo, mergulhando a mente em fortes imaginações e movimentos fisicos que ocorreram. O conhecimento de si será uma água que apagará a chma dos movimentos impuros. Que a pessoa não tenha medo de pegar a cruz, nela apoiar-se e navegar com os meios acenados antes, fundamentando-os na rocha viva, com firmeza e perseverança até a morte. Todos percebem que a perseverança é a que obtém a coroa.

Exortação e conclusão

Caríssimo irmão e filho, quero que vos liberteis da falta de perseverança e comeceis a entrar em vós mesmo. Conforme se vê diante de Deus, parece-me que desde algum tempo não pensais em vós mesmos. Tudo isso acontece porque o alicerce não foi bem construído nem fundamentado na rocha viva. Não por outro motivo acontece que os servos de Deus não perseveram; é a falta de perfeitos fundamentos. Como são fracos, desprovidos da virtude da fortaleza e sem a proteção da prática da virtude, ao serem atingidos pelas fortíssimas ventanias do diabo, do mundo e da carne, caem. Por isso, pensando nos remédios para vossas quedas, na necessidade que tendes de tomá-los e de refazer com grande humildade e desapego de vós mesmo o fundamento (da vida espiritual), afirmei que estava desejosa de vos ver como pedra firme, alicerçada na rocha viva que é Jesus Cristo, e não assentada na areia. Espero, na infinita bondade divina, que aceiteis com humildade a procura do conhecimento de vós mesmo e que cumprais a vontade divina e o meu desejo: que recupereis a vida da graça, vos livreis das trevas e tenhais a perfeita iluminação.

Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

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(carta 159) Perseverar na luta pelo bem

Setembro 26, 2008 · Deixe um comentário

Para frei Ranieri

Saudação e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, reverendo pai (1) em Jesus Cristo por respeito ao sacerdócio, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Deus, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver como valente soldado a lutar contra todo vício e tentação, em santa e firme perseverança com Cristo crucificado.

Na batalha pelo bem, Cristo é o exemplar

A perseverança é a virtude que recebe a coroa. Vós sabeis que com ela na batalha, sempre se alcança a vitória, Durante esta vida estamos como em campo de luta e devemos combater fortemente e nuca fugir dos golpes, não voltar atrás. Temos de olhar para o comandante, Cristo crucificado, que perseverou e não atendeu ao convite dos judeus, que diziam: “Desce da cruz”. Nem do demônio, nem da nossa ingratidão. Ele sempre perseverou e jamais deixou de cumprir a obediência ao Pai e de realizar a nossa salvação até o fim. Então, vitorioso regressou ao Pai, arrancando a humanidade das trevas e dando-lhe novamente a graça, após derrotar o diabo e o mundo com seus prazeres. E permaneceu morto (três dias). O Cordeiro morreu para nos conceder a vida. Com sua morte, destruiu nossa morte.

O ideal do lutador Cristão

O sangue e a morte deste comandante devem animar-nos, em toda batalha, a suportar sofrimentos, tormentos, censuras e ofensas. Por amor de Cristo, devemos assumir a pobreza voluntária, a humilhação interior, a obediência completa e perfeita. Desse modo, quando for destruído nosso corpo, nossa alma irá vitoriosa à cidade da vida sem fim; terá derrotado o diabo, o mundo e a carne, seus três perversos inimigos. Mas é sobretudo o “aguilhão da carne” (2Cor 12,7) que nos estimula a agir contra o espírito. Convém-nos, pois, dominar a carne e mortificá-la com o jejum, as vigílias e as orações. Quanto à imaginação, temos de incentivar santos ideais, em grande amor por tudo o que Cristo fez por nós, não por merecimento nosso, mas por dom gratuito. De fato, o Pai celeste nos deu o Verbo, seu Filho Unigênito. E o filho nos deu a vida da graça. Por amor Cristo derramou o sangue através de todas as partes do seu corpo.

Quando a pessoa pensa nesse tão grande amor de Cristo, atinge o máximo grau de caridade, embora não possa igualar o amor de Cristo, ainda que entregasse o corpo a todo sofrimento e aflição. Compreende ela que jamais corresponderia inteiramente a tão grande amor e a tão numerosos benefícios recebidos do Criador. Cristo é nosso Deus, que muito nos amou. Pensando nisso, afastareis as imaginações sugeridas pelo diabo.

Armas espirituais de defesa e de ataque

Vós, porém, poderíeis dizer-me: “Queres que eu seja um soldado corajoso. Estou no campo de batalha, atacado por muitos inimigos. Preciso de armas. Dize-me quais são?” Respondo-vos. Sim, não quero vos ver desarmado. Deveis usar as armas do apóstolo Paulo, que foi homem como vós. Ele usou o escudo da perfeita humildade e o escudo da ardente caridade. De fato, humildade e caridade estão sempre mutuamente unidas. Uma alimenta a outra. São essas as armas que vos indico. Elas nos protegem dos golpes e flechas envenenadas com que o diabo, o mundo e a carne podem nos atacar, de modo que não nos atinjam. De fato, a pessoa apoixonada por Cristo crucificado, não a atinge a flecha do pecado mortal, com o consentimento da vontade. Esta é tão forte, que diabo e criatura alguma podem obrigá-la a consentir.

Mas deveis usar igualmente a espada para defender-vos dos inimigos. É uma espada de dois gumes. A espada do ódio e desprezo de vós mesmo e do tempo gasto em pouco se preocupar com as virtudes, e sim em ser fraco e ofender nosso Redentor. Devemos odiar o pecado e a nós mesmos que o cometemos. De fato, a alma que possui Esse “ódio” procura “vingar-se” da vida passada e suporta por amor do orgulho mediante a humildade, a cupidez e a avareza mediante a generosidade e o amor, a liberdade exagerada mediante a obediência. Eis a vingança que devemos tomar ao usar essa espada do ódio e do amor.

Parabéns porque agora sois religioso

Alegro-me muito com as boas notícias que ouvi a vosso respeito. Parece-me que vos “vingastes” da antiga liberdade, entrando na obediência consagrada. Não podeis fazer coisa melhor, renunciando ao mundo e aos seus prazeres e satisfações, renunciado à vontade pessoal. Rogo-vos que, por amor de Cristo crucificado, persevereis virilmente nesse campo de batalha, não volteis atrás por causa de alguma dificuldade e tentação. Firmemente armado na maneira acima explicada, resisti e defendei-vos dos golpes que foram vibrados. Defendei-vos dos vossos inimigos com aquela espada de dois gumes.

Quero que planteis no coração e na própria alma a árvore da cruz. Configurai-vos a Cristo crucificado; inebriai-vos e revesti-vos de Cristo crucificado. Como diz o apóstolo Paulo: gloriai-vos da cruz de Cristo crucificado. Saturai-vos de afrontas, humilhações e ignomínias, tudo suportando por amor de Cristo crucificado, Pregai na cruz com Cristo o coração e vossas afeições. Porque a cruz é barca e porto, pois vos conduz ao porto da salvação. Os cravos mudam-se em chaves para abrir as portas do reino co céu.

Exortação e conclusão

Coragem, pai e irmão muito querido. Não durmais no leito da negligência. Qual soldado corajoso. Lutai contra o adversário. Deus vos concederá a plenitude da graça. Quando se encerrar vossa vida, depois do cansaço, chegareis ao repouso para ver a suprema beleza na visão de Deus, em quem a alma se aquieta e descansa depois de todo sofrimento e males. Ela receberá o bem total, a saciedade sem o enjôo, a fome sem o sofrimento. Terminai vossa vida na cruz! Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

(1) Frei Ranieri era um sacerdote secular, que cuidava desde muito da igreja de santa Cristina, em Pisa, na qual Catarina recebeu os estigmas de Cristo Crucificado, invisíveis, mas muito dolorosos.

Cartas Completas – Editora Paulus

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(carta 22) Como governar um mosteiro

Setembro 17, 2008 · Deixe um comentário

Para o abade martinho de Passignano (1)

Saudações e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, eu Catarina, serva e escrava de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver qual bom hortelão no jardim da vossa alma e das almas dos vossos monges.

Somo um jardim com flores e espinhos

Nós somos um jardim ou pomar, do qual Deus nos fez zeladores racionalmente livres. Com o auxilio da graça, nossa inteligência tem o dever de erradicar os espinheiros do pecado e semear as perfumosas ervas da virtude. Nossa inteligência não conseguirá aí semear a virtude, se antes não revolver a terra com seus espinheiros. O solo é a nossa sensualidade, para a qual nos inclinamos à procura de prazeres terrenos e passageiros, com muitas tribulações, vícios e pecados. Revolva-se, pois, caríssimo pai, esse solo na força do amor durante esta vida. Com aquele sublime amor, haurido no Cordeiro imaculado, temperado pacientemente com o desprezo de si, com fé viva, com ações santas, com desprezo do mundo, com justiça e misericórdia para vossos monges, com obediência total a Cristo e à regra da ordem, com perseverança até a morte. Repito: obedecendo às regras da ordem, com desejo santo, vigílias e oração contínua. Em outras palavras: que o pensamento reconheça o próprio nada e a bondade de Deus, Aquele que é (Ex 3,14). A oração seja continua. Tal oração nada mais é do que o desejo de amar. Num amor que é fruto do conhecimento. Tais são as flores que perfumam o jardim da alma.

Em tudo isso, quero que vos empenheis, pois assim alcançareis a sede do amor a Deus e da salvação das almas dos monges. E realizareis a vontade de Deus e o meus desejo, conforme disse estar desejosa de vos ver zelador do jardim da vossa alma e das almas dos vossos súditos. Sedento da santificação dos monges vossos súditos para a glória divina, procurareis afastá-los do mal, corrigi-los nos seus defeitos, elogiar os virtuosos que vivem segundo  a regra da ordem.

O cão de guarda é a consciência. Conclusão

Devido à grande riqueza desse jardim, quero que estabeleçais como cão de guarda a própria consciência. Esteja ela sempre amarrada ao portão de entrada. Se surgirem inimigos ou se a vigilância da mente adormecer, tal cão ladrará. Realmente, quando a consciência dá um aviso, desperta a atenção da alma, que recorre às armas do amor. Tal cão de guarda deve ser alimentado, a fim de estar sempre atento. Seu alimento é o ódio (ao pecado) e o amor (à virtude), servidos no prato da humildade, pelas mãos da paciência. Entre tal ódio e tal amor vicejam a humildade e a paciência. Quanto mais se der tal alimento à consciência, mais atenta ela será. Latirá até quando chegarem os amigos, de modo que a mente se erga e olhe se são de Deus ou não. Desse modo, o jardineiro nunca será enganado, nem o pomar depredado. O inimigo não penetrará no horto, para semear a cizânia do egoísmo. Pois é o egoísmo que faz germinar os espinheiros do pecado e abafa as sementes da virtude. Dai também de beber ao cão da consciência. Como? Enchei o vaso da memória com o sangue de Cristo crucificado e colocai-o diante da consciência, para que ela não morra de sede.

Coragem, pai caríssimo! Chutemos (2) o mundo com suas grandezas, prazeres e riquezas. Qual mendigo, segui o cordeiro morto e abandonado sobre o madeiro da cruz. Não esperemos mais, por amor de Deus! O tempo nos é arrebatado sem que o percebamos. Nem é humano esperar o que não se possui e não aproveitar o que se tem. Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

(1) Dom Martinho era abade do mosteiro valombrosiano de Passignano, pequena cidade à margem do lago Trasimeno, perto de Perúgia. A abadia era bastante rica, pois suas terras produziam trigo. Catarina conhecia o local. Consultada pelo abade, orienta-o sobre o governo dos monges.

(2) O texto original diz exatamente “diamo de´calci”.

Cartas Completas – Editora Paulus

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(carta 15) CONVITE À CONVERSÃO

Setembro 12, 2008 · 1 Comentário

Para o judeu Consílio

Saudação e objetivo

Louvado seja Jesus Cristo crucificado, filho da gloriosa virgem Maria. A ti, caríssimo irmão, (1) resgatado como eu pelo precioso sangue do Filho de Deus, eu Catarina indigna escrevo, obrigada pelo Cristo crucificado e pela sua amável mãe Maria, a fim de pedir a recordar com insistência que abandoneis a infidelidade, vos convertais e recebais a graça do santo batismo, pois sem ele não podeis receber a graça de Deus e o dom divino.

Apelo à conversão

Quem não é batizado não participa dos benefícios da santa Igreja, mas como um membro apodrecido e separado da comunidade dos fiéis cristãos, passa da morte temporal para a morte eterna, e com razão recebe o castigo e as trevas, porque não quis lavar-se na água do santo batismo e desprezou o sangue do Filho de Deus, que o derramou com tanto amor.

Caríssimo irmão em Jesus Cristo!Abre o olhar da inteligência e contempla a infinita Bondade, que age no teu coração e mediante os seus servidores (2) te pede e convida, que deseja fazer a paz contigo; sem olhar a longa guerra que lhe fizeste por tua infidelidade.

Nosso Deus é tão bondoso e benigno, que depois que nos veio a lei do amor e que o Filho de Deus nasceu da virgem Maria, derramou seu sangue no madeiro da cruz e podemos acolher em abundância a misericórdia divina. A lei de Moisés baseava-se na justiça, na punição. A nova lei, dada por Cristo crucificado, fundamenta-se no amor e na misericórdia. Deus é bondoso e benigno: acolhe quem a Ele retorna com humildade, fidelidade e fé na vida eterna. Parece nem se recordar das ofensas que lhe fazemos, não quer condenar-nos eternamente. Deus só deseja ser misericordioso.

Portanto, meu irmão, levante-te desejoso de unir-te a Cristo. não durmas na cegueira. Deus não quer, nem eu, que a morte te encontre na cegueira. A minha quer ver-te batizado, como um servo sedento da água viva (sl 41,2). Não resistas ao Espírito Santo, que te chama; não desprezes o amor de Maria por ti; não recuses as orações que são feitas a teu favor. Em tudo isso seria grave o julgamento divino.

Exortação. Conclusão

Permanece na santo e doce amor de Deus. Pessoalmente peço à Verdade suprema que nos ilumine, nos encha de sua santissima graça e realize o meu desejo em ti, Consílio. É o que Jesus Cristo mandou dizer-te  Consílio. Louvado seja Jesus Crucificado e sua amável mãe, a gloriosa virgem Maria. Jesus doce, Jesus amor

(1) Consílio era um judeu nascido em Pádua, que se estabelecera em Sena como banqueiro de empréstimos, junto com seu irmão Dattaro. Eram riquíssimos. Obtida da República a licença para tal trabalho, não incorriam em penas eclesiásticas. Catarina convida Consílio a se batizar. Talvez ela pensasse também no irmão, pois a certa altura fala em vós.

(2) Com a palavra sevidores o texto quer  indicar os discípulos de Catarina, muito numerosos em Sena, os quais certamente falaram a ela sobre o banqueiro

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(carta 13) Como adquirir a paciência

Setembro 10, 2008 · Deixe um comentário

Santa Catarina de Sena

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Para Marcos Bindi

Saudação e objetivo

Caríssimo irmão no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Deus, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver alicerçado na verdadeira e santa paciência, pois de outro modo não agradaremos a Deus e perderemos o prêmio de nossas fadigas.

A paciência é possível a todos

De fato, todos precisamos desta bela virtude. Se me disserdes:”Vivo em grandes dificuldades, não tenho forças para ser paciente e nem sei como chega-lo a sê-lo”, eu vos respondo: Quem segue a luz da sua razão (iluminada pela fé) consegue atingir a paciência. Concordo que somos fracos em nossa sesualidade. Sobretudo se a pessoa se apega desordenadamente a si mesmo, às pessoas e aos bens materiais. Quem é assim, sofre muito quando perde algo. Mas para quem usa retamente sua razão Deus lhe fortalece sua vontade e aquela fraqueza é vencida. Deus jamais despreza os esforços feitos para superar queixas exageradas. Ele aceita os bons desejos e concede a paciência na dificuldade.

Como vedes, todos podem chegar a ter paciência se usarem a reta razão e não ficarem únicamente ruminando a própria fraqueza. A nós dotados de razão, seria muito incoveniente fixarnos numa atitude irracional. Não somos como os animais. Ao nos impacientar escandalizamo-nos por acontecimentos permitidos por Deus e o ofendemos.

Quatro coisas necessárias para ser paciente.

Que devemos fazer para sermos pacientes, já que podemos e devemos adquirir esta atitude para não ofender a Deus? Quatro coisas!

Primeiro devemos ter fé

Digo que a primeira coisa é possuir a iluminação da fé. Com a luz desta virtude conseguiremos todas as outras; sem ela andaremos no escuro como um cego, para quem o dia torna-se noite. Para pessoa sem fé, tudo o que Deus faz por amor na claridade da luz, torna-se escuridão, trevas de ódio, pois a pessoa pensa que é por ódio que Deus permite os sofrimentos e as dificuldades. Vede como precisamos da luz da fé!

Segundo, devemos pensar que tudo vem de Deus por amor

A segunda coisa é crer firmemente que Deus existe e que tudo vem Dele menos o pecado. Não vem de Deus a má vontade do pecador. O restante – quer provenha do fogo, da água, da morte ou de qualquer outra coisa – vem de Deus. Diz Jesus no evangelho que sem a providência Divina não cai uma folha das árvores e diz ainda que os cabelos da nossa cabeça estão todos contados, e que nenhum deles cai sem que Deus o saiba (Mt 10,29). Ora, se Jesus fala assim a respeito das coisas materiais com maior razão cuida de nós criaturas racionais. Em tudo o que nos manda o permite, Deus usa da sua providência. Tudo é feito por Deus com mistério e amor. Jamais por ódio!

Terceiro, devemos crer que até na dor Deus nos quer felizes

Terceiro ponto; ocorre entender na fé que Deus é bondade suprema e eterna, que ele somente quer nosso bem. Desejo de Deus é que nos santifiquemos. Tudo o que Ele nos manda ou permite tem esta finalidade. Se duvidarmos disto, erramos. Basta pensar no sangue do humilde e imaculado cordeiro, transpassado pela lança, sofrido, atormentado. Entenderemos que o Pai eterno nos ama. Por causa do pecado, nos tinhamos tornado inimigos de Deus. Amorosamente, o Pai nos deu o Verbo, seu filho Unigênito. Este último entregou  por nós sua vida, correndo para uma vergonhosa morte na cruz. Por qual razão? Por amor a nossa salvação. Como vedes o sangue de Jesus dissipa toda a dúvida em nós, de que o Pai queira outra coisa além da nossa santificação. Aliás, como poderia Deus querer algo fora do bem? Impossível! Como poderia o supremo Bem descuidar-se de nós? Ele que nos amou antes de existirmos, Ele que por amor nos criou à sua imagem e semelhança, não poderia deixar de nos amar de prover às necessidades de nossa alma e do nosso corpo.

O criador sempre nos ama como criaturas suas. Somente o pecado Deus detesta em nós. Durante esta vida, na medida das nossas necessidades, Ele permite dificuldades quanto aos bens materiais. Como sábio médico nos ministra o remédio de que precisa nossa enfermidade. Deus age assim para eliminar nossos defeitos aqui na terra de maneira que tenhamos que sofrer menos na vida futura; ou para pôr à prova nossa paciência. Querendo experimentar Jó o senhor retirou-lhe os filhos e filhas; quanto ao corpo, mandou-lhe uma verminose e usou sua mulher para prova-lo no sofrimento, pois ela o atormentava com maldosas ofensas. Após provar a paciência de Jó Deus restitui-lhe o dobro em tudo e Jó não reclamou. Pelo contrário, dizia: “O senhor me Deus, o senhor me tirou. Bendito seja o seu nome” (Jó 1,21).

Deus permite algumas vezes tais coisas, para que nos conheçamos melhor em nossa instabilidade. E também conheçamos a instabilidade deste mundo. Tudo o que temos – vida, saúde, esposa, filhos, riquezas, posições sociais, prazeres – tudo nos é dado por Deus como empréstimo para nosso uso. Não como propriedade. É assim que devemos tratar tais coisas. Tanto é verdade, que não podemos impedir que tais coisas nos sejam retiradas quanto à graça divina é diferente. Nem os demônios nem outras criaturas nem as perseguições conseguem retirar de nós, se não dermos nosso consentimento.

Quando uma pessoa entende qual é a perfeição da graça e qual é a imperfeição do mundo e do nosso corpo, ela deixa de valorizar os prazeres mundanos e a própria fragilidade, pois tais realidades muitas vezes ocasionam a perda da graça por causa do amor sensível. E em sentido oposto começa a valorizar as virtudes que são os meios para conservarmos a graça. Pois bem, tudo isso nos vem de Deus por amor, afim de que viril e santamente preocupados nos afastemos do mundo e busquemos os bens eternos; deixemos de lado a terra com suas mazelas e procuremos ganhar o céu.

Sim não fomos criados para nos alimentar de terra. Somos peregrinos por aqui passam praticando a virtude em busca do Fim. Durante a caminhada não nos devemos deter por causa de algum prazer oferecido pelo mundo. Virilmente temos de nos apressar olhando as coisas da vida não com desordenada alegria ou com impaciência, mas na paciência e no Santo Temor.

O sofrimento que padeceis é de grande utilidade para vós. Deus vos oferece o modo de romper muitas amarras e de aperfeiçoar vossa consciência. Deus vos libertou e vos indicou a estrada, se é que a desejais segui-la. A eles (ou:elas) Deus deu a vida eterna e vos convida a alcança-la também por meio do sofrimento, afim de que conheçais a bondade divina e vossos defeitos, durante o restante da vossa vida.

Quarto, devemos meditar sobre os próprios pecados

A quarta coisa necessária para se tornar paciente é esta: Refletir sobre os próprios pecados e defeitos, sobre quanto já ofendemos a Deus. Ele é o Bem infinito. Destes pecados e defeitos, grandes ou pequenos que sejam, resultaria para nós um castigo infinito. Infelizes que somos! Ofendemos nosso Criador e merecemos mil infernos. E quem é este Criador ofendido! É a bondade sem limites. E nós quê somos? Nada! O ser que temos e qualquer outro beneficio a ele acrescentado, tudo veio de Deus. Por nós mesmos, nada somos. Em tal situação e merecendo um castigo eterno, Deus nos purifica aqui na terra. Mas ainda se aceitamos o sofrimento purificador alcançamos méritos. Isso não se cede na purificação da vida futura; no purgatório a alma se purifica mas nada merece. Como nos convém, pois tolerar com paciência estas pequenas dores agora.

Pequenas dores repito, por causa da brevidade desta existência. Aqui na terra a dimensão da dor tem a dimensão do tempo. E qual é a extensão do tempo? Assemelha-se à ponta de uma agulha. Assim sendo a dor é pequena. O sofrimento que passou ficou para trás, não o sinto mais; o sofrimento futuro ainda não padeço, e nem tenho certeza de continuar vivo. Posso morrer e não sei quando. Somente o presente existe nada mais. Soframos, então, com alegria. Toda ação boa é remunerada. Toda culpa é punida. São Paulo afirma: “Os sofrimentos desta vida não se comparam com a glória que receberá a alma paciente.” (cf. Rm 8,18).

Últimos conselhos. Conclusão

Eis a maneira como podereis adiquirir a virtude da perfeita paciência. Tal virtude adquirida com amor na fé vos fará tirar proveito de todo sofrimento. Em caso contrário, perdereis os bens terrenos e os celestes. Não existe outra solução. Por tal motivo disse eu acima que desejava vos ver alicerçado na perfeita paciência. Rogo-vos agir assim. Lembrai-vos do sangue de Jesus Cristo crucificado. Toda tristeza se mudará em alegria, todo peso se tornara leve. Não fiqueis a escolher tempos e lugares; contentai-vos com aquilo que Deus vos dá. Senti compaixão pelo que aconteceu. Ao que parece foi muito doloroso mas tudo aconteceu por providência divina e para vossa salvação. Peço-vos sejais forte e não relaxeis na suave disciplina da religião.

Nada mais acrescento, a não ser que aproveiteis o tempo em quanto o temos. Permaneceis no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

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(carta 278) Todos peregrinamos na vida

Setembro 10, 2008 · Deixe um comentário

Para Bartolomea

Saudação e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável maria, querida mãe e filha (1) no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver como boa e verdadeira peregrina, na maneira como se comporta o verdadeiro peregrino e caminhante desta vida.

Olhemos para o fim da caminhada

E porque corremos em direção ao término na morte, quero que valorosamente façais como o peregrino que é sábio e que não olha para a fadiga ou satisfações encontradas no caminho, mas pensa no termo ou fim da viagem, onde deseja chegar. Assim nós que somos caminhantes não devemos olhar para as tribulações, injúrias e ofensas recebidas mediante palavras ou atos, nesta vida. Não olhá-las com revolta, mas com perfeita paciência, como alguém que não deve ficar por aqui. Digo que nem para as consolações sensíveis ou prazeres desordenados devemos olhar. Com fortaleza temos de superá-los e neles não nos comprazer.

Na mão o bastão da cruz

Durante a caminhada, tenhamos na mão um bastão para nos proteger dos animais ferozes e dos inimigos. Que tal bastão, minha querida mãe e filha, seja a cruz. Nela encontraremos o Cordeiro dessangrado e consumido de amor, que nos defenderá da inimiga sensualidade pessoal. Porque ao ver (em Cristo) a grande chama de amor, o caminhante renunciará à sua perversa vontade. Digo que a cruz nos defende dos animais, isto é, das imaginações sugeridas pelo demônio, das falsas atrações do mundo, do exagerado amor pelos filhos e por qualquer criatura. Como é importante esse madeiro da cruz, no qual a pessoa se apoia, e corre em direção ao término da caminhada. Término que é a vida eterna. Esse é o lugar que eu quero ver posto por vós diante dos olhos da mente. Pois sereis uma verdadeira peregrina e chegareis ao porto da salvação.

Exortação e conclusão

Banhai-vos, banhai-vos no sangue de Cristo crucificado e caminhai a saboreando o sangue de Cristo crucificado. É o que faz a pessoa quando parte para os perdões (ou indulgências), pois no sangue do Cordeiro imaculado somos perdoados. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

(1) Bartolomea era uma senhora de Sena. Querendo viajar em peregrinação, certamente, pediu alguma orientação a Catarina

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(carta 9) Compaixão e conforto

Setembro 6, 2008 · 1 Comentário

Para uma senhora anônima

Saudação e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssima irmã no bondoso Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver iluminada pela verdade de Deus.

Vós precisais da iluminação Divina

Sem tal iluminação não podeis participar da vida da graça neste mundo, vivereis em contínua amargura e, no fim, tereis a condenação eterna. Sem a luz de Deus, será má a vossa atitude diante do mistério (divino), ao interpretar como um ato de ódio os acontecimentos que Deus vos envia por amor, como algo mortífero, o que Deus vos concede para a vida.

Que verdade devemos conhecer, caríssima irmã? Devemos compreender que Deus nos ama intensamente. Por amor, Ele nos criou à sua imagem e semelhança, para que gozemos de sua eterna visão. E quem nos revela tal verdade, tal amor? O sangue do humilde e puro Cordeiro. Com o pecado de Adão, fôramos privados da visão de Deus e excluídos da vida eterna. O bom e amoroso Verbo de Deus foi mandado (ao mundo) para morrer, dando por nós sua vida e lavando nossas culpas em seu precioso sangue. Enamorado (dos homens), Jesus obedeceu a Deus Pai, correu ao encontro de uma muito vergonhosa morte e nos salvou. Tudo isso não é uma verdade oculta e o sangue (de Jesus) o manifesta. Se Deus não nos tivesse criado para o céu, se Ele não nos amasse também não enviaria (ao mundo) o Redentor.

Tal iluminação nos dá paciência e paz

Quando uma pessoa iluminada (por Deus), logo recebe em sua mente a luz da fé e começa a considerar bom tudo o que Deus lhe manda ou permite durante esta vida. Tudo o que Deus faz é por amor, para que sua verdade se cumpra em nós. A pessoa se torna paciente, nada a pertuba. Alegra-se com o que Deus permite que lhe aconteça. Com paciência verdadeira e santa, suporta enfermidades, perda de bens (materiais), de posições sociais, de parentes, de amigos. E o suporta não apenas com paciência, mas com respeito, como que diante de algo amorosamente enviado por Deus para santificá-la. De fato, ninguém é tão louco ou tolo, a ponto de pertubar-se quando recebe coisas boas para si; só mesmo quem nada compreende sobre a verdade e o próprio bem.

Deus é o médico de nossos males

Querida irmã, desejo que vosso entendimento se abra, extirpando toda raiz de egoísmo e de delicadezas egocêntricas. Se fizerdes assim, entendereis essa verdade, comprendereis que Deus é o supremo médico de nossos males. Com paciência calma, santa e reta aceitareis o medicamento que Deus vos mandou num ato especial de amor pela vossa pessoa. Bondosa irmã! convido-vos a tal atitude. Não deixeis de aproveitar o fruto de vossas fadigas, pela impaciência. Permanecei calma e tranquila, aceitando a vontade divina. Não vos pertubeis, a não ser por causa das ofensas cometidas contra Deus e pela condenação das almas. Desse modo, mostrareis que estais iluminada por Deus e no último dia recebereis a paga de vossos sofrimentos.

Conclusão

Senti compaixão pelo que vos aconteceu. Mas se vos vir conformada com a vontade divina, alegrar-me-ei convosco. Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

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