Servo dos Servos de Deus

Entradas do Setembro 2008

(carta 197) As tentações do diabo, do mundo e da carne

Setembro 30, 2008 · 2 Comentários

Para Mateus de Orvieto

Saudação e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssimo irmão e filho no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver como pedra firme, e não como folha levada por todos os ventos.

Três perigosas dificuldades

Porque a pessoa que não está alicerçada na rocha viva, que é Jesus Cristo – pondo o seu desejo somente em Deus e não nas realidades transitórias do mundo que passam como o vento – desanima por estar privada da graça divina. A graça conserva a alma, concede-lhe a vida e perfeita iluminação nas trevas, grande paciência, temor de Deus, humildade e amor fraterno pelo próximo. Essa pessoa não se impacienta sob o impacto das tribulações, nem falsamente sente-se feliz ao sopro das consolações espirituais, nem inflada de orgulho por causa da riqueza e da fumaça das honrarias humanas.

Nada disso lhe acontece, porque é firme. Seu alicerce é Cristo crucificado. A pessoa nem se preocupa com o sopro das três ventanias principais, causadas pelo diabo, pelo mundo e pela carne.

As tentações do diabo

Em primeiro lugar, do diabo procede a ventania de numerosas imaginações e tentações. A tentação de vaidade torna o coração leviano, imaturo, com forte desejo de alcançar altas posições no mundo; e que às vezes se apresenta em coloração de virtude. Essa é a pior ventania que se conhece. Somente a pessoa humilde não se deixa enganar por ela. A coloração de virtude, dada pelo diabo, é esta: a pessoa é maldosa e desprovida de virtude, mas tem um começo de desejo das coisas de Deus e dá algum sinal de virtude. Mas é ainda imperfeita, sem conhecimento de si e põe-se a investigar sobre a vida alheia, tanto material como espiritualmente. Então o diabo sugere um julgamento falso. A pessoa começa a julgar maldosamente o próximo, os servos de Deus e os amigos do mundo. E nem percebe o que o faz. Por que não percebe? Porque o diabo disfarçou o seu julgamento com o manto da virtude e a pessoa acha que faz o bem. Parece-lhe obter um duplo efeito, muitas vezes, como de estar fazendo um ato de culto a Deus. Mas engana-se porque age por orgulho. Se ela fosse humilde e se baseasse num conhecimento verdadeiro de si mesma, envergonhar-se-ia de emitir tais julgamentos; compreenderia que impõe regras a Deus. De fato, é o que faz ao criticar os servidores de Deus, ao querer orientar as pessoas segundo suas idéias e não como Deus as chama.

É por isso que a pessoa alicerçada na rocha viva, que é Cristo, oporá resistência a tais atitudes e, com muita humildade, procurará alegrar-se e glorificar a Deus pelos costumes e comportamentos dos seus servos; e, ao mesmo tempo, pedirá à misericórdia divina que olhe com piedade para aquelas pessoas, tirando-as do pecado e reconduzindo-as à virtude. Dessa maneira a pessoa tira uma rosa do espinheiro, conserva pura sua alma, sem dar asas à imaginação e enchendo à memória de fantasias sobre coisas espirituais e materiais. Isso fazem pessoas loucas, tolas e presunçosas que nada viram e investigam comportamentos alheios, de como fazer o bem. Essas se deixam levar pela ventania do diabo, tão perigosa. Ó boca maldita, como envenenaste com teu mau hálito o mundo, as pessoas do mundo e de fora dele, como ficou dito antes. Após julgar mal dentro de si mesma, tal pessoa, vazia põe-se a criticar, escandalizada com as coisas de Deus e do próximo. Uma pessoa assim deve ser evitada com santa prudência.

As tentações do mundo

Outra perigosa e perversa ventania é a do mundo. Consiste no egoísmo desordenado da pessoa complacente consigo mesma e que procura consolações e prazeres. Com o pensamento, ela esconde as trevas, a miséria e a transitoriedade do mundo, imaginando-o belo e agradável. Desse modo engana-se, imaginando que a vida é longa, quando na realidade é breve. Os prazeres, as consolações e a riqueza são vistos como coisas definitivas, e no entanto são mutáveis. Tudo nos é dado como empréstimo, para uso nas necessidades. Uma coisa é certa! Ou tais realidades são tomadas do homem, ou o homem é tomado delas. São retiradas de nós quando às vezes as perdemos, quando alguém no-la rouba ou por outros acontecimentos que as destróem e elas cessam. Digo que nós somos retirados dessas coisas, quando Deus nos chama, separando a alma do corpo. Então deixamos o mundo com seus encantos. E tal separação, nenhuma riqueza e nenhum poder conseguem evitar.

Dessa maneira a alma fraca e cega, que não elevou eu olhar acima da terra, como uma folha vai seguindo a ventania do próprio desordenado amor egoísta por si e pelo mundo. Da sua maldita boca saem, então palavras de inveja contra o próximo e murmuração, com elevada reputação de si. Muitas vezes com ódio e rancor contra o próximo. Muitas vezes, a pessoa se apossa de coisas alheias, com juramentos, perjúrios e falsos testemunho. Chega-se até a desejar a morte do próximo. Tendo o dever de amar todo mundo, a pessoa se transforma num devorador da carne e dos bens do próximo. Inteiramente volátil, poucas vezes completa um ato de virtude começado. A vida foi montada sobre a areia, onde edifício algum pode ser construído, sem logo cair por terra. Tal pessoa não possui a graça divina, perdeu a luz da razão. Caminha como animal, não como ser racional.

Por conveniência e necessidade, precisamos estar alicerçados na rocha viva. As pessoas que nela põem seu pensamento e seu amor não podem ser abaladas nem se deixam abalar por essa ventania maldosa do mundo. Tais pessoas até lhe opõem resistência e se defendem, desprezando o mundo com sua vaidade e seus prazeres. Elas eliminam o orgulho  com grande humildade e desejam a pobreza voluntária. E quem possui riqueza e alta posição social, conserva-as, mas  com amor e santo temor, como despenseiro de Cristo, socorrendo os pobres, ajudando os servidores de Deus, respeitando-os, compreendendo que eles se dedicam à oração com anseios, suores e lágrimas diante de Deus, a favor de todos. Estes vivem felizes sempre e em todas as situações, uma vez que se libertaram da desordem da vontade e do egoismo. Sendo tão importante esse alicerce na rocha, não se deve esperar para consegui-lo, pois desconhecemos o futuro.

As tentações da Carne

A terceira ventania consiste na tentação da carne. Ela espalha um mau cheiro intolerável, não apenas para Deus, mas também para os demônios, tornando a pessoa bestial. Torna-se como os animais, sem vergonha. Como o porco, a pessoa revolve-se na lama, na lama da desonestidade. Em qualquer estado de vida esteja, arruina-se. Se é casada, envenena o amor matrimonial. O que deve fazer com temor de Deus, ela o faz com amor desordenado e pouco honesto. Essas miseráveis pessoas não pensam na grande dignidade a que chegou a própria carne humana na união com Deus em Cristo. Se refletissem, prefeririam morrer e não se entregarem a tão grande baixeza. Sabes a que ponto chega esse mau hálito, que envenena todos os que de tal pessoa se aproximam? O coração da pessoa se torna suspeito, a língua murmura e blasfema, achando que existe nos outros a mesma coisa que existe nela. A pessoa assemelha-se a um doente, que estragou o próprio estômago. Ela acha ruim, como algo estragado, não somente o alimento normal, mas também aquele que o médico lhe prescreveu. E maravilha-se de que uma pessoa sadia, que come seu alimento, não sinta o mesmo sabor que ela sente. Assim os pecadores, que se entregam ao prazer da carne, arruinam a própria sensibilidade e a da comunidade dos que vivem no mesmo vício, e ficam escandalizados relativamente aos justos. Escandalizam-se até do próprio matrimônio, que Deus lhes deu como condescendência à sua frágil enfermidade, a própria esposa. Tendo um coração desordenado, até o amor da esposa lhe faz mal. Ciúmes e suspeitas fazem tais pessoas julgar má uma pessoa reta, e passam a odiar e desprezar o que deveria ser um justo amor. Em tal pessoa há um modo de ver. É seu olho que está doente. Não fosse assim, julgaria de outro modo. Oh! Quantos defeitos e inconvenientes procedem dessa ventania da carne! É algo que corrói por dentro. Como o mau hálito sai da boca, assim a pessoa julga mal a própria esposa. Disso deriva um outro defeito: se por inspiração divina ocorre à pessoa um bom desejo de corrigir-se e de viver bem o matrimônio, o verme da suspeita já penetrou no seu corpo e apaga o perfume da virtude, e sua podridão renasce. O que antes agradava à pessoa, passa a desagradar-lhe. Não tem constância, nem perseverança na virtude. A pessoa volta atrás, não examina o próprio erro e a própria doença (espiritual). E tudo isso sucede porque falta ao pecador  o alicerce na rocha viva ao ser atingido e forçado pela ventania da carne. É preciso que a pessoa se livre do apodrecido alicerce da impureza, fundamentando-se na rocha viva, Cristo. Então, a ventania da carne não a prejudicará. Ao contrário, poderá resistir com a virtude da continência e da pureza, disciplinando a vontade mediante a razão e o desejo santo, dizendo a si mesma: “Envergonha-te minha alma, por enfeares o teu rosto e corromperes teu corpo na impureza. Foste feita à imagem e semelhança de Deus. E tu, carne, foste elevada a uma altíssima dignidade na uniã da natureza divina com a humana (em Cristo) e foste elevada acima de todos os coros dos anjos”. Então a pessoa sentirá o perfume da virtude e o desejo de remediar com a vigília de oração e o conhecimento de si mesma. Ninguém se oponha ao conhecimento de si mesmo, mergulhando a mente em fortes imaginações e movimentos fisicos que ocorreram. O conhecimento de si será uma água que apagará a chma dos movimentos impuros. Que a pessoa não tenha medo de pegar a cruz, nela apoiar-se e navegar com os meios acenados antes, fundamentando-os na rocha viva, com firmeza e perseverança até a morte. Todos percebem que a perseverança é a que obtém a coroa.

Exortação e conclusão

Caríssimo irmão e filho, quero que vos liberteis da falta de perseverança e comeceis a entrar em vós mesmo. Conforme se vê diante de Deus, parece-me que desde algum tempo não pensais em vós mesmos. Tudo isso acontece porque o alicerce não foi bem construído nem fundamentado na rocha viva. Não por outro motivo acontece que os servos de Deus não perseveram; é a falta de perfeitos fundamentos. Como são fracos, desprovidos da virtude da fortaleza e sem a proteção da prática da virtude, ao serem atingidos pelas fortíssimas ventanias do diabo, do mundo e da carne, caem. Por isso, pensando nos remédios para vossas quedas, na necessidade que tendes de tomá-los e de refazer com grande humildade e desapego de vós mesmo o fundamento (da vida espiritual), afirmei que estava desejosa de vos ver como pedra firme, alicerçada na rocha viva que é Jesus Cristo, e não assentada na areia. Espero, na infinita bondade divina, que aceiteis com humildade a procura do conhecimento de vós mesmo e que cumprais a vontade divina e o meu desejo: que recupereis a vida da graça, vos livreis das trevas e tenhais a perfeita iluminação.

Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

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(carta 159) Perseverar na luta pelo bem

Setembro 26, 2008 · Deixe um comentário

Para frei Ranieri

Saudação e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, reverendo pai (1) em Jesus Cristo por respeito ao sacerdócio, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Deus, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver como valente soldado a lutar contra todo vício e tentação, em santa e firme perseverança com Cristo crucificado.

Na batalha pelo bem, Cristo é o exemplar

A perseverança é a virtude que recebe a coroa. Vós sabeis que com ela na batalha, sempre se alcança a vitória, Durante esta vida estamos como em campo de luta e devemos combater fortemente e nuca fugir dos golpes, não voltar atrás. Temos de olhar para o comandante, Cristo crucificado, que perseverou e não atendeu ao convite dos judeus, que diziam: “Desce da cruz”. Nem do demônio, nem da nossa ingratidão. Ele sempre perseverou e jamais deixou de cumprir a obediência ao Pai e de realizar a nossa salvação até o fim. Então, vitorioso regressou ao Pai, arrancando a humanidade das trevas e dando-lhe novamente a graça, após derrotar o diabo e o mundo com seus prazeres. E permaneceu morto (três dias). O Cordeiro morreu para nos conceder a vida. Com sua morte, destruiu nossa morte.

O ideal do lutador Cristão

O sangue e a morte deste comandante devem animar-nos, em toda batalha, a suportar sofrimentos, tormentos, censuras e ofensas. Por amor de Cristo, devemos assumir a pobreza voluntária, a humilhação interior, a obediência completa e perfeita. Desse modo, quando for destruído nosso corpo, nossa alma irá vitoriosa à cidade da vida sem fim; terá derrotado o diabo, o mundo e a carne, seus três perversos inimigos. Mas é sobretudo o “aguilhão da carne” (2Cor 12,7) que nos estimula a agir contra o espírito. Convém-nos, pois, dominar a carne e mortificá-la com o jejum, as vigílias e as orações. Quanto à imaginação, temos de incentivar santos ideais, em grande amor por tudo o que Cristo fez por nós, não por merecimento nosso, mas por dom gratuito. De fato, o Pai celeste nos deu o Verbo, seu Filho Unigênito. E o filho nos deu a vida da graça. Por amor Cristo derramou o sangue através de todas as partes do seu corpo.

Quando a pessoa pensa nesse tão grande amor de Cristo, atinge o máximo grau de caridade, embora não possa igualar o amor de Cristo, ainda que entregasse o corpo a todo sofrimento e aflição. Compreende ela que jamais corresponderia inteiramente a tão grande amor e a tão numerosos benefícios recebidos do Criador. Cristo é nosso Deus, que muito nos amou. Pensando nisso, afastareis as imaginações sugeridas pelo diabo.

Armas espirituais de defesa e de ataque

Vós, porém, poderíeis dizer-me: “Queres que eu seja um soldado corajoso. Estou no campo de batalha, atacado por muitos inimigos. Preciso de armas. Dize-me quais são?” Respondo-vos. Sim, não quero vos ver desarmado. Deveis usar as armas do apóstolo Paulo, que foi homem como vós. Ele usou o escudo da perfeita humildade e o escudo da ardente caridade. De fato, humildade e caridade estão sempre mutuamente unidas. Uma alimenta a outra. São essas as armas que vos indico. Elas nos protegem dos golpes e flechas envenenadas com que o diabo, o mundo e a carne podem nos atacar, de modo que não nos atinjam. De fato, a pessoa apoixonada por Cristo crucificado, não a atinge a flecha do pecado mortal, com o consentimento da vontade. Esta é tão forte, que diabo e criatura alguma podem obrigá-la a consentir.

Mas deveis usar igualmente a espada para defender-vos dos inimigos. É uma espada de dois gumes. A espada do ódio e desprezo de vós mesmo e do tempo gasto em pouco se preocupar com as virtudes, e sim em ser fraco e ofender nosso Redentor. Devemos odiar o pecado e a nós mesmos que o cometemos. De fato, a alma que possui Esse “ódio” procura “vingar-se” da vida passada e suporta por amor do orgulho mediante a humildade, a cupidez e a avareza mediante a generosidade e o amor, a liberdade exagerada mediante a obediência. Eis a vingança que devemos tomar ao usar essa espada do ódio e do amor.

Parabéns porque agora sois religioso

Alegro-me muito com as boas notícias que ouvi a vosso respeito. Parece-me que vos “vingastes” da antiga liberdade, entrando na obediência consagrada. Não podeis fazer coisa melhor, renunciando ao mundo e aos seus prazeres e satisfações, renunciado à vontade pessoal. Rogo-vos que, por amor de Cristo crucificado, persevereis virilmente nesse campo de batalha, não volteis atrás por causa de alguma dificuldade e tentação. Firmemente armado na maneira acima explicada, resisti e defendei-vos dos golpes que foram vibrados. Defendei-vos dos vossos inimigos com aquela espada de dois gumes.

Quero que planteis no coração e na própria alma a árvore da cruz. Configurai-vos a Cristo crucificado; inebriai-vos e revesti-vos de Cristo crucificado. Como diz o apóstolo Paulo: gloriai-vos da cruz de Cristo crucificado. Saturai-vos de afrontas, humilhações e ignomínias, tudo suportando por amor de Cristo crucificado, Pregai na cruz com Cristo o coração e vossas afeições. Porque a cruz é barca e porto, pois vos conduz ao porto da salvação. Os cravos mudam-se em chaves para abrir as portas do reino co céu.

Exortação e conclusão

Coragem, pai e irmão muito querido. Não durmais no leito da negligência. Qual soldado corajoso. Lutai contra o adversário. Deus vos concederá a plenitude da graça. Quando se encerrar vossa vida, depois do cansaço, chegareis ao repouso para ver a suprema beleza na visão de Deus, em quem a alma se aquieta e descansa depois de todo sofrimento e males. Ela receberá o bem total, a saciedade sem o enjôo, a fome sem o sofrimento. Terminai vossa vida na cruz! Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

(1) Frei Ranieri era um sacerdote secular, que cuidava desde muito da igreja de santa Cristina, em Pisa, na qual Catarina recebeu os estigmas de Cristo Crucificado, invisíveis, mas muito dolorosos.

Cartas Completas – Editora Paulus

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Conselho aos pais

Setembro 25, 2008 · Deixe um comentário

Relato de Santa Teresa de Ávila quando esta chegou a idade da razão.

Se eu tivesse de aconselhar, diria aos pais para se acautelarem com as pessoas que têm contato com seus filhos nessa idade. É grande o perigo, já que a nossa natureza tende mais para o mal do que para o bem.

Foi o que aconteceu comigo. Eu tinha uma irmã mais velha do que eu, (María de Cepeda) e não aprendi nada com a sua grande honestidade e bondade, mas assimilei todo o mal de uma parenta que freqüentava muito a nossa casa. Sua grande leviandade levaram minha mãe a se esforçar muito para afastá-la de casa; ela parecia adivinhar o prejuízo que, me sobreviria, e eram tantas as oportunidades de visitas que minha mãe nada pôde fazer. Passei a gostar dessa parenta. Com ela tinha conversas e entretenimentos, porque ela me ajudava em todas as diversões do meu agrado e até me atraía para elas, tornando-me ainda confidente de suas conversas e vaidades. Até o momento em que com ela convivi, por volta dos meus catorze anos, ou um pouco mais, não creio ter me afastado de Deus por algum pecado nem perdido o temor d´Ele, embora fosse mais forte o sentimento da honra. Este foi forte o bastante para que eu não a perdesse de todo; e tenho a impressão de que nada neste mundo poderia me fazer mudar nesse aspecto, nem o amor de nenhuma pessoa era capaz de me fazer fraquejar quanto a isso. Teria sido muito melhor se eu tivesse usado essa força para não ofender a honra de Deus, em vez de empregar tanto esforço em não fracassar no que considerava a honra do mundo! E, no entanto eu a perdia de tantas outras maneiras!

Eu exagerava nesse inútil apego à honra. Não empregava os meios necessários para conservá-la, preocupando-me apenas em não me perder por inteiro.

Meu pai e minha irmão tinham muito desgosto com essa amizade, repreendendo-me freqüentemente por mantê-la. Como não podiam evitar que a parenta fosse à nossa casa, foram inúteis os seus esforços, pois era grande minha esperteza para o mal. Às vezes, o prejuízo que vem das más companhias me causa espanto e, se não tivesse passado por isso, não poderia acreditar; especialmente na época da mocidade, deve ser maior o mal que isso traz. Eu gostaria que os pais, com o meu exemplo, se acautelassem e observassem bem isso. A verdade é que essa amizade me transformou a tal ponto que quase nada restou da minha inclinação natural para a virtude; e me parece que ela e outra moça, que gostava do mesmo tipo de passatempo, imprimiam em mim seus hábitos.

Isso me faz entender o enorme proveito que vem da boa companhia e estou certa de que, se naquela idade tivesse tido contato com pessoas virtuosas, a minha virtude teria se mantido intacta; porque, se tivesse tido, nessa idade, pessoas que me ensinassem a temer a Deus, a minha alma teria se fortalecido contra a queda. Tendo perdido esse temor de Deus, ficou-me apenas o de perder a honra, o que, em tudo o que eu fazia, me trazia aflição. Pensando que não se teria como descobrir, atrevi-me a fazer coisas contra a honra e contra Deus.

Foram essas coisas que, em princípio, me fizeram mal, e creio que a culpa não devia ser dessa parenta, mas minha, visto que já bastava minha própria inclinação para o mal; havia na casa criadas, que em tudo me ajudavam em minhas vaidades; se alguma me tivesse dado bons conselhos, talvez não me entregava a pecados graves, porque não gostava, por natureza, de coisas desonestas, mas me dedicava a conversas desagradáveis – o que não impedia que eu estivesse em perigo, exposta a situações arriscadas, expondo a elas também meu pai e meus irmãos. De tudo isso Deus me livrou, e de um modo que mostrou com clareza estar Ele procurando, até contra a minha vontade, evitar que eu me perdesse por inteiro. Mas o meu proceder não permaneceu tão oculto a ponto de não lançar dúvidas contra a minha honra e criar suspeitas em meu pai. Eu estava envolvida nessas vaidades há uns três meses, quando me levaram a um mosteiro existente no lugar (Convento de Nossa Senhora da Graça), nele, criavam-se pessoas em condições semelhantes, embora não de costumes tão ruins quanto os meus; e isso de maneira tão discreta, que só eu e um parente o soubemos. Dessa maneira, esperaram uma ocasião adequada, que não parecesse estranha: foi o casamento da minha irmã (María de Cepeda), que me deixou só, o que não parecia próprio.

Era tão grande o amor de meu pai por mim, e tanta a minha dissimulação, que ele não acreditava que eu fosse tão má, razão por que não perdeu a confiança em mim. Como o período dessas minhas leviandades foi curto, embora alguma coisa tivesse diso percebida, nada se podia dizer com certeza; com o grande cuidado que eu tinha para que nada se soubesse, visto que temia tanto pela minha honra, eu não via que não podia ocultar algo de quem tudo vê. Ó Deus! Que mal faz o mundo de não se levar isso em conta e pensar que alguma coisa contra Vós possa ser secreta! Estou certa de que muitos males seriam evitados se soubéssemos que o importante não é nos ocultar dos homens, mas evitar descontentar a Vós.

Os primeiros oito dias foram dolorosos, e mais por eu temer que minha vaidade tivesse sido divulgada do que por estar ali. Na época, eu já estava cansada e passara a temer muito a Deus quando o ofendia, procurando confessar-me tão logo pudesse. Isso me causava tanto desassossego que, depois de oito dias no mosteiro, talvez antes, eu esta muito mais feliz que na casa de meu pai. Todas estavam satisfeitas comigo, pois o Senhor me concedeu a graça de agradar a todos onde que que eu estivesse, sendo assim muito querida. Naquele tempo, desgostava-me a idéia de tornar-me monja; apesar disso, eu apreciava ver as boas religiosas daquela casa, muito honestas, fervorosas e recatadas. E, no entanto, isso não impedia o demônio de me tentar nem as pessoas de fora de me desassossegar com recados. Como, porém, eu os desencorajasse, breve tudo teve fim. Minha alma reencontrou o bem de minha meninice, e vi o grande favor que Deus concede a quem põe em companhia dos bons. Crio que Ele buscava incessantemente a melhor maneira de me trazer a Si. Bendito sejais, Senhor, que tanto sofrestes por mim!Amén.

Havia algo que, não fossem tantas as minhas culpas, talvez pudesse me desculpar: minhas amizades podiam acabar bem, resultando em casamento. Meu confessor e outras pessoas que me aconselhavam diziam que muitas coisas que eu fazia não eram contrárias a Deus.

Em nosso dormitório de educandas dormia uma monja (María de Briceño) por meio da qual o Senhor quis, ao que parece, começar a iluminar-me.

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Frei Raimundo de Cápua

Setembro 23, 2008 · Deixe um comentário

Nascido em Cápua por volta de 1330 entrou para a ordem dos dominicanos no convento de Orvieto antes de 1348 e foi ordenado padre em cerca de 1355. Diretor do convento das religiosas de montepulciano, escreveu sobre a vida de Santa Agnes sua fundadora (Legenda Sanctae Agnetis). Prior da minerva em Roma, em 1367, depois mestre em florença, em 1373, tornou-se confessor de Catarina em 1374. Em 1375, em Pisa, encontrava-se perto dela quando ela recebeu os estigmas. Em Avignon, em 1374, foi seu interprete quando ela foi recebida pro Gregório XI. Frei Raimundo em seu ministério de confessor acompanhou Catarina e sua famiglia em seus deslocamentos eleito novamente prior da minerva em Roma, recebeu várias cartas de Catarina. Em Óstia, em dezembro de 1378, Raimundo embarcou para uma missão junto de Carlos V, Rei da França; foi então que teve seu último encontro com Catarina. Em 1380, Frei Raimundo foi eleito mestre geral da ordem dos irmãos pregadores para a obediência Romana. Apartir de então dedicou-se com energia a reunir e revitalizar a ordem cujo declínio fora provocado pelo cisma e pelas grandes epidemias de peste. Morreu em 5 de outubro de 1399, Quando de sua visita ao convento de Nuremberg. Foi beatificado em 15 de maio de 1890 por Leão XIII.

Amigo e confidente foi a testemunha mais próxima dos acontecimentos da vida de Catarina, que ele evoca em Legenda Maior (1385 – 1389) obra concluída com a colaboração de Tommaso Caffarini. Esta bela hagiográfia, considerada a biografia oficial de catarina de Sena, enfatiza as mortificações que ela se infligia sua missão apostólica e as graças sobrenaturais que recebeu (Legenda S. Catharinae Senensis, Anvers, 1675)

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Oração de Santa Catarina de Sena

Setembro 22, 2008 · 2 Comentários

AUXÍLIOS DIVINOS PARA A REFORMA DA IGREJA (VII – A fortaleza da alma)

1. Mil auxílios da Providência

Confesso, Deus eterno; confesso, eterno Deus, alta e eterna Trindade (1). Tu me olhas e conheces! Entendi isso na tua luz. Confesso, eterno Deus: sei quais são as necessidades da tua dulcíssima Esposa, a Igreja; conheço a boa vontade do teu Representante (2). Mas quem o impede de realizá-la? Vi na tua luz que conheces tudo isso, pois nada está oculto ao teu olhar.

Na tua luz eu vejo que providenciaste a medicina para a Humanidade morta, no Verbo, teu Filho unigênito. Outro medicamento, que providenciaste para tal morto, foi conservar as cicatrizes no corpo (ressuscitado) de Cristo, para que implorassem misericórdia junto de Ti. Na tua luz eu vi que as conservastes num arroubo de amor. Tanto as cicatrizes como a cor do sangue continuam sem contradição no seu corpo.

Em Ti mesmo viste que, após a cura da enfermidade (humana), os homens iriam continuar a cair diariamente nos seus pecados. Por isso, deixaste o sacramento da Penitência. Nele, o sacerdote derrama o sangue do Cordeiro na face da alma.

Puseste o Filho como principal medicina para reconciliar-nos contigo e ainda esses outros meios, necessários para a salvação. Na tua luz, eu sei que conhecestes tudo isso com antecedência. Em tal luz eu vejo; sem ela, andaria nas trevas.

Amor dulcíssimo! Viste as necessidades da santa Igreja e o medicamento de que precisava. Para isso providenciaste a oração dos teus servidores. Queres que eles construam um muro, no qual se apóiem as paredes da santa Igreja, e neles a clemência do Espírito Santo acende inflamados desejos de reforma.

Viste (no homem decaído) a lei perversa, sempre pronta a rebelar-se contra a tua vontade. Sabias que muitos de nós iríamos seguir. Conheces a fraqueza da nossa natureza, quanto ela é débil, frágil, mísera. Por isso, ó Provedor dos homens, providenciaste o remédio, dando-nos o rochedo fortificado da vontade. A fraqueza da carne nos acompanha, mas a vontade é tão firme que demônio ou criatura alguma é capaz de vencê-la, contra nosso querer, isto é, sem o consentimento do livre-arbítrio, que defende aquela fortaleza.

Donde provém, Bondade infinita, essa firmeza da vontade? De Ti que és a suprema e eterna força. Vejo que nossa vontade participa da fortaleza da tua vontade, pois dela procede. Nossa vontade tanto é firme quanto segue a tua; tanto é fraca quanto dela se afasta. Tua vontade criou a nossa; permanecendo unida à tua, nossa vontade é firme.

Tudo isso eu vi na tua luz! Ó Pai eterno, em nossa vontade revelas a firmeza da tua; mas se tornaste forte uma realidade tão pequenina, quão grande pensaremos tua vontade, pois és o Criador e Regedor de todas as coisas.

Outra coisa vejo na tua luz: parece-me que a vontade, que recebemos de Ti livre, é fortalecida pela iluminação da fé, na qual conhecemos teu querer eterno, que nada mais deseja que a nossa santificação. Conforme aumenta a iluminação, firma-se a vontade na prática das ações. Seja a vontade reta, como a fé viva, não podem ficar sem as obras. A iluminação da fé nutre e dá crescimento à chama (do amor) na alma. Esta nunca experimentaria o fogo do teu amor se a fé não lhe revelasse teu amor e estima por nós. Ó luz da fé!  Tu és a lenha que incendeia o amor da alma. Como a lenha faz crescer a chama natural, tu aumentas a caridade no homem. Revelas a ele a bondade divina e o amor da alma aumenta, pelo desej ode conhecer a Deus, anseio que ajudas a realizar.

Provedor boníssimo! Não quisestes que o homem vivesse nas trevas e na guerra; deste-lhe, então, a luz da fé. Ela nos indica o caminho e nos dá paz e quietude. A fé não deixa a alma morrer de fome, viver nua e pobre. Pelo contrário, alimenta-a com a graça, faz saborear no amor o Alimento (eucarístico), veste-a com a roupa nupcial da caridade e do teu querer, revela-lhe os tesouros eternos.

Pequei, Senhor, tem compaixão de mim! As trevas da lei perverssa, que sempre segui, ofuscou minha inteligência. Por isso não Te conheci, ó verdadeira luz! Mas mesmo assim, agradou à tua caridade iluminar-me.

2. Súplica pelo papa e pelos discípulos

Ó Deus eterno, Amor sem preço! Pela criação, estás mutuamente amalgamado com o homem pela força da vontade, pela chama (de amor) com que o criaste, pela iluminação natural que lhe deste. Mediante eal iluminação, o homem Te conhece e age desejoso das virtudes reais e verdadeiras, para a glória e louvor do teu nome. Tu és aquele que é; os demais seres, deixando de lado o que lhes deste, nada são.

Ó minha alma, cega, mísera! És indigna de formar com os demais servidores de Deus um muro para sustentar a santa Igreja. Mereces estar no estômago de um animal, pois tuas ações foram sempre animalescas.

Deus eterno! Agradeço-Te, agradeço-Te, agradeço-Te porque me escolheste para tal trabalho, não obstante minhas iniquidades. Suplico, então: já que pões na mente dos teus servidores anseios e inflamados desejos de reformar tua Esposa, e os levas a clamar em contínua oração, escuta seu clamor. Conserva e aperfeiçoa a boa vontade do teu Representante. Seja ele perfeito, na medida que lhe pedes. O mesmo eu peço para todos os homens. De modo especial para aqueles que colocaste sobre os meus ombros. Fraca e incapaz, eu os entrego a Ti. Não quero que meus pecados os prejudiquem, pois sempre segui a perversa lei. Desejo e rogo que eles Te sigam na perfeição; mereçam ser atendidos nas preces que fazem, e devem fazer, pelo mundo inteiro e pela santa Igreja.

Pequei Senhor, tem compaixão de mim!

(1) Catarina recitou esta oração no dia 20 de fevereiro de 1379

(2) O papa Urbano VI

As orações – Santa Catarina de Sena – Editora Paulus

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Quem é Satanás? Quem são os demônios?

Setembro 20, 2008 · 1 Comentário

Trecho do Livro Novos relatos de um exorcista do Padre Gabriele Amorth

Outros trechos do livro aqui e aqui

São Miguel

São Miguel

Sabemos muito pouco a respeito do mundo visível e, menos ainda, sobre o mundo invisível; por isso, é muito cômodo negar a sua existência, em vez de investigá-lo. E nem sequer percebemos que estamos negando a onipotência e a sabedoria de Deus, que tudo criou com uma majestade inconcebível à mente humana, com uma ordem perfeita, com fins bem determinados.

Quando me interrogam sobre o número dos anjos, cito o Apocalipse que fala de miríades de miríades: um número imenso, incompreensível a nossa mente. Quando me interrogam sobre o número dos demônio, respondo com as palavras que o próprio demônio deu através de um possesso: “Somos tantos, que, se fôssemos visíveis, obscureceríamos o Sol”.

Para dar uma idéia da grandiosidade dos seres criados, que nos passam despercebidos, convido você a refletir sobre os corpos que giram no céu. Melhor do que eu, um astrônomo poderia ilustrar as maravilhas do universo; foi por isso que um deles afirmou: “Eu não creio; eu vejo”. Se refletirmos, ficaremos espantados. Todo o universo é dirigido por forças interligadas com a sabedoria perfeita: por exemplo, a Terra mantém a Lua ligada a si com uma força de atração, sem que esta lhe caia em cima, porque uma sapiente lei centrípeta a faz rodar em torno do nosso planeta. Todo o sistema solar faz parte de uma galáxia composta por bilhões de corpos estelares; sabemos que nesta galáxia, todos estes corpos são mantidos unidos por um centro de atração que os astrônomos colocam a cerca de 30 mil anos-luz do sistema solar. O eixo da nossa galáxia é de cerca de 90 mil anos-luz. É uma dimensão pertubadora! E, no entanto, vista de longe, a nossa galáxia parece apenas um ponto luminoso.

Vemos inúmeras galáxias a enormes distâncias. Quantas? É impossível dizer. Os astrônomos gostariam de identificar o centro do universo, gostariam de poder identificar um ponto central de gravitação de todos os corpos celestes; por enquanto, têm de se contentar em formular hipóteses. Tudo o que admiramos no sistema cósmico, no infinitamente grande, outros cientistas admiram-no na coordenação dos átomos, no infinitamente pequeno.

Se a ordem natural nos espanta, que dizer da ordem espiritual? Aquele Deus que criou, com uma ordem admirável e com leis estupendas, miríades de miríades de espíritos celestes! A Bíblia fala-nos de nove coros angélicos. Os padres da Igreja e os eclesiásticos estudaram e escreveram muito sobre eles… Mas os teólogos modernos… Eles se ocupam com a sociologia. Contudo, entre espíritos celestes reina uma ordem, uma hierarquia, um fim inteligente (dado que se trata de seres inteligentes e livres) que é alegria, felicidade e beleza. Tudo para louvor do Criador.

É opinião comum, dedutível do relato bíblico, que Deus teria criado primeiro os anjos e, depois, o cosmo. O mistério da criação do mundo material é certamente admirável, enquanto procede da onipotência e da sabedoria de Deus; mas seguramente só atinge o seu significado quando acontece a criação do homem: porque é somente com a presença do homem que todas as criaturas sensíveis, às quais o homem pertence, se reúnem com Deus, seu criador.

O homem, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26), como ser racional, tem a possibilidade de se juntar ao seu criador e de comunicar-se com Ele. Pelo contrário, o mundo material, embora tenha a sua origem em Deus, não pode gozar de um intercâmbio direto e imediato com seu Criador, de quem depende total e passivamente.

Os espíritos celestes, ou seja, os anjos, não estão sujeitos, pela sua natureza, a uma relação imediata com este mundo material. Diante da sua inteligência, à medida que Deus os criava, não compreendiam o seu objetivo. Eles eram puros espíritos; aos seus olhos, o mundo material não tinha um porquê; antes lhes apareceu no mundo a criatura racional, o homem, que tinha uma relação imediato com Deus, porque era um ser inteligente e livre, e estava em condições de dar significado a todo o mundo material, servindo-se dele para louvar o Criador.

Pode-se pensar que a rebelião da parte dos anjos seja anterior à criação do homem. Uma explicação possível é a de que uma parte dos anjos teria ficado escandalizada, precisamente com a criação do mundo material, ou seja, antes do cosmo ter sido completado e enobrecido pela presença do homem. Eles, os anjos rebeldes, não louvaram a Deus desde o princípio, isto é, desde quando Ele Estava criando o mundo material que, do ponto de vista dos puros espíritos, que parecia um absurdo. Não souberam acreditar na sabedoria divina, um pouco como pode acontecer conosco, os homens; diante da dor, deixamos de acreditar em Deus. Este poderia ter sido um bom motivo para sua rebelião.

Quem é Satanás? A tradição rabínica afirma que era o espírito de maior importância diante do trono de Deus, dotado de doze asas, quer dizer, o dobro das asas dos serafins (cf. Pircké de Rabbi Eliézer, 13). Imaginemos que a nossa galáxia se revoltava contra as leis que regulam o movimento incessante dos planetas e atravessado os céus à sua vontade: quantos milhões de milhões de corpos arrastariam atrás de si e que enorme destruição provocariam em todo o firmamento! A maioria dos anjos viu o princípio da queda de Satanás, no seu orgulho em querer estar acima da sua condição, em querer afirmar a sua independência em relação a Deus e em querer se fazer igual a Deus. Outras explicações se deram nos séculos seguintes. Todas concordam em ver uma rebelião, livre e irreversível, contra Deus, em que Satanás arrastou atrás de si uma quantidade de outros anjos que, com um ato perfeito de inteligência de liberdade, quiseram segui-lo. Por isso, a implacável inimizade com Deus e, depois, a criação do homem (ele também tendo o próprio Deus por finalidade), o esforço de tirá-lo desta finalidade e de envolvê-lo na sua rebelião contra o Criador.

Portanto, Satanás era a criatura principal criada por Deus, o príncipe de toda a criação. Uma vez que se revoltou contra Deus, conscientemente, como toda plenitude do seu ser e da sua vontade, com uma revolta total e perfeita, sem retorno, tornou-se o ser mais afastado de Deus. Aquele pecado de rebelião permaneceu inerente à sua essência e assim permanecerá por toda a eternidade. A Bíblia indica-o com vários nomes: Satanás, Lúcifer, Belzebu, serpente antiga, dragão vermelho…

Mas talvez, o nome mais exato a ser dado para ele deva ser blasfêmia. O mal, se é que pode ser objetivamente personificado em alguém, tem em Satanás o seu fundamento perfeito.

Quais foram consequências dessa rebelião? Satanás, por sua superioridade e pela autoridade que gozava, ao revoltar-se contra a ordem moral e espiritual de Deus, arrastou atrás de si como que em sistema planetário inteiro; os anjos que quiseram segui-lo com plena inteligência e liberdade; e agora procura arrastar para si a maior quantidade de homens que possa conseguir; também eles, com plena consciência e liberdade para fazê-lo. Deus nunca renega Suas criaturas: seria renegar-se a si mesmo. É por isso que Satanás continua a taer o poder que tinha; estava à cabeça da criação e estaria ainda: eis por que foi necessária a Encarnação do Verbo, que veio destruir as obras de Satanás e resgatar todas as coisas, com o Sangue da Sua cruz: as celestes e as terrestres.

Mas Satanás continua a ser “o príncipe deste mundo” como, por três vezes, Jesus lhe chama e “o deus deste mundo”, como define São Paulo. De comandante das criaturas, como foi criado por Deus, tornou-se o infatigável destruidor; uma espécie de correspondente moral daqueles “buracos negros” que existem no cosmo e engolem a matéria. Daqui provêm toda forma de mal: o pecado, as doenças, o sofrimento e a morte. A Salvação operada por Cristo reintegrou a ordem do universo de maneira ainda mais maravilhosa do que tinha estabelecido originariamente. A redenção é o primeiro verdadeiro grande exorcismo; Jesus é o primeiro dos exorcistas e nEle é erradicada toda a força de combate ao demônio.

Mas, para que a redenção seja aplicada a cada homem e com ela aconteça a libertação do poder do maligno, é necessário que a graça trazida por Cristo seja acolhida. “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem Crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 15,15-16; Mt 28,19). O Batismo é o primeiro ato de libertação do poder de Satanás e de inserção em Cristo; por isso, faz parte dele o rito de exorcismo. Entretanto, o demônio continuará a sua obra porque, como afirma o Concílio Vaticano II, derrotado por Cristo, Satanás combate contra os seus seguidores; a luta com os espíritos malignos continuará e durará, como diz o Senhor, até o último dia (GS 37).

Categorias: Exorcismo
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(carta 22) Como governar um mosteiro

Setembro 17, 2008 · Deixe um comentário

Para o abade martinho de Passignano (1)

Saudações e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, eu Catarina, serva e escrava de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver qual bom hortelão no jardim da vossa alma e das almas dos vossos monges.

Somo um jardim com flores e espinhos

Nós somos um jardim ou pomar, do qual Deus nos fez zeladores racionalmente livres. Com o auxilio da graça, nossa inteligência tem o dever de erradicar os espinheiros do pecado e semear as perfumosas ervas da virtude. Nossa inteligência não conseguirá aí semear a virtude, se antes não revolver a terra com seus espinheiros. O solo é a nossa sensualidade, para a qual nos inclinamos à procura de prazeres terrenos e passageiros, com muitas tribulações, vícios e pecados. Revolva-se, pois, caríssimo pai, esse solo na força do amor durante esta vida. Com aquele sublime amor, haurido no Cordeiro imaculado, temperado pacientemente com o desprezo de si, com fé viva, com ações santas, com desprezo do mundo, com justiça e misericórdia para vossos monges, com obediência total a Cristo e à regra da ordem, com perseverança até a morte. Repito: obedecendo às regras da ordem, com desejo santo, vigílias e oração contínua. Em outras palavras: que o pensamento reconheça o próprio nada e a bondade de Deus, Aquele que é (Ex 3,14). A oração seja continua. Tal oração nada mais é do que o desejo de amar. Num amor que é fruto do conhecimento. Tais são as flores que perfumam o jardim da alma.

Em tudo isso, quero que vos empenheis, pois assim alcançareis a sede do amor a Deus e da salvação das almas dos monges. E realizareis a vontade de Deus e o meus desejo, conforme disse estar desejosa de vos ver zelador do jardim da vossa alma e das almas dos vossos súditos. Sedento da santificação dos monges vossos súditos para a glória divina, procurareis afastá-los do mal, corrigi-los nos seus defeitos, elogiar os virtuosos que vivem segundo  a regra da ordem.

O cão de guarda é a consciência. Conclusão

Devido à grande riqueza desse jardim, quero que estabeleçais como cão de guarda a própria consciência. Esteja ela sempre amarrada ao portão de entrada. Se surgirem inimigos ou se a vigilância da mente adormecer, tal cão ladrará. Realmente, quando a consciência dá um aviso, desperta a atenção da alma, que recorre às armas do amor. Tal cão de guarda deve ser alimentado, a fim de estar sempre atento. Seu alimento é o ódio (ao pecado) e o amor (à virtude), servidos no prato da humildade, pelas mãos da paciência. Entre tal ódio e tal amor vicejam a humildade e a paciência. Quanto mais se der tal alimento à consciência, mais atenta ela será. Latirá até quando chegarem os amigos, de modo que a mente se erga e olhe se são de Deus ou não. Desse modo, o jardineiro nunca será enganado, nem o pomar depredado. O inimigo não penetrará no horto, para semear a cizânia do egoísmo. Pois é o egoísmo que faz germinar os espinheiros do pecado e abafa as sementes da virtude. Dai também de beber ao cão da consciência. Como? Enchei o vaso da memória com o sangue de Cristo crucificado e colocai-o diante da consciência, para que ela não morra de sede.

Coragem, pai caríssimo! Chutemos (2) o mundo com suas grandezas, prazeres e riquezas. Qual mendigo, segui o cordeiro morto e abandonado sobre o madeiro da cruz. Não esperemos mais, por amor de Deus! O tempo nos é arrebatado sem que o percebamos. Nem é humano esperar o que não se possui e não aproveitar o que se tem. Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

(1) Dom Martinho era abade do mosteiro valombrosiano de Passignano, pequena cidade à margem do lago Trasimeno, perto de Perúgia. A abadia era bastante rica, pois suas terras produziam trigo. Catarina conhecia o local. Consultada pelo abade, orienta-o sobre o governo dos monges.

(2) O texto original diz exatamente “diamo de´calci”.

Cartas Completas – Editora Paulus

Categorias: Cartas de Santa Catarina de Sena
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São Francisco Xavier – MODO DE REZAR E SALVAR A ALMA

Setembro 13, 2008 · Deixe um comentário

[Ordem e regimento que o bom cristão deve ter todos os dias, para se encomendar a Deus e salvar sua alma]

Goa, entre Junho e Agosto de 1548

Cópia em português, feita em 1614

São Francisco Xavier

São Francisco Xavier

Ordem que se terá, ao alevantar da cama

1. Primeiramente, acordando logo pela manhã, todo fiel cristão fará três coisas, as quais aprazem a Deus, sobre todas as coisas: a primeira é confessar a Santíssima Trindade, três pessoas e um só Deus, a qual somente os cristãos bem e verdadeiramente confessam, quando se benzem dizendo: Em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo.

2. A segunda coisa é confessar Jesus Cristo, Filho de Deus verdadeiro, dizendo o Credo, e crendo-o bem e verdadeiramente sem dúvidar, no qual se encerra toda nossa fé católica, o qual é o seguinte:Creio em Deus Pai, todo poderoso, criador dos céus e da terra; Creio em Jesus Cristo, seu Filho, um só Nosso Senhor; Creio que foi concebido do Espírito Santo e nasceu da Virgem Maria; Creio que padeceu sob poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; creio que desceu aos infernos, e, ao terceiro ressurgiu dos mortos; que subiu aos céus, está acentado à mão direita de Deus Pai todo poderoso; creio que dos céus há-de vir a julgar os vivos e os mortos; creio em um Espírito Santo; creio a Santa Igreja católica; creio o ajuntamento dos santos e a remissão dos pecados; creio a ressurreição da carne; creio a vida eterna. Amém, Jesus.

Protestação de Fé

3. Verdadeiro Deus eu confesso de vontade e coração, como bom e leal cristão, a Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas e um só Deus. Eu creio firmemente, sem dúvidar, tudo o que crê e tem a Santa Madre Igreja de Roma. Eu prometo como fiel Cristão, de viver e morrer em a santa fé católica de meu senhor Jesus Cristo. E quando à hora minha morte, não puder falar, agora, para quando eu morrer confesso a meu Senhor Jesus Cristo por Unigênito Filho de Deus, com todo o meu coração.

4. A terceira coisa é pedir graça ao Senhor Deus, para guardar dos 10 Mandamentos de sua santíssima lei, pois nenhuma pessoa se pode salvar sem os guardar – os quais se hão – de dizer pela manhã e, para cada um deles pedir graças ao senhor Deus para naquele dia e em todos os outros dias de sua vida, os cumprir e guardar como ele manda, pela maneira seguinte:

5. Os mandamentos da lei do Senhor Deus são 10, scilicet:  o primeiro é amar a Deus sobre todas as coisas; o segundo não jurarás seu santo nome em vão; o terceiro guardarás domingos e festas; o quarto honrarás o teu pai e a tua mãe e viverás muitos anos; o quinto não matáras; o sexto não fornicarás; o sétimo não furtarás; o oitavo não levantaras falso testemunho; o nono não desejaras a mulher do teu próximo; o décimo não cobiçaras as coisas alheias.

6. Diz Deus: os que guardarem estes 10 Mandamentos irão ao paraíso. Diz Deus: os que não guardarem estes 10 Mandamentos irão ao inferno.

7. Oração: Rogo-vos, meu Senhor Jesus Cristo, que me deis graça, hoje neste dia e em todo o tempo da minha vida, para guardar estes 10 Mandamentos.

8. Oração: Rogo-vos, minha Senhora Santa Maria, que queiras por mim rogar ao vosso bento Filho, Jesus Cristo, que me dê graça, hoje neste dia e em todo o tempo de minha vida, para guardar estes 10 mandamentos.

9. Oração: Rogo-vos, meu senhor Jesus Cristo, que me perdoeis os pecados, que eu fiz hoje neste dia e em todo o tempo de minha vida em não guardar estes 10 Mandamentos.

10. Oração: Rogo-vos, minha senhora Santa Maria, Rainha dos anjos, que me alcanceis perdão, do vosso bento Filho Jesus Cristo, dos pecados que eu fiz hoje neste dia e em todo tempo de minha vida, em não guardar estes 10 mandamentos.

11. Acabada esta oração, dirá o Pai nosso e a Ave Maria e ao mesmo fará em cada um dos dez mandamentos por si: para que melhor se lembre; e para propor e procurar de guardar os mandamentos e se desacostumar de pecar nos mandamentos que não guarda; e para que pecando algum deles, conheça mais depressa o mal que faz e se arrenda mais cedo dos pecados que por costume comete.

E naquele mandamento em que mais compreendido se achar, pecando por mal costume, pedirá com grande dor e arrependimento de seus pecados, graça ao senhor Deus para, naquele dia e em todos os de sua vida o guardar. E trabalhara muito pela salvação de sua alma guardando os dez mandamentos, e porá todas as suas forças em se desacostumar de pecar neles, dizendo assim;

12. Eu creio, verdadeiramente que se a morte me tomar nalgum pecado, contra algum deste 10 Mandamentos que minha alma sera condenada às penas do inferno, sem nenhuma redenção. E também creio verdadeiramente que se a morte me tomar fora de pecado mortal e depois de me desacostumar de pecar contra os dez mandamentos contra os quais por mal costume peco, que o senhor Deus haverá misericórdia de minha alma por muito pecador que eu fosse, e me dará a salvação perpétua, que é agora do paraíso, fazendo primeiro penitência de meus pecados ou nesta vida ou no purgatório.

Ordem que se terá à noite, para pedir perdão dos pecados a Deus nosso Senhor

13. Guardara o fiel Cristão quando quiser dormir tudo o que acima esta dito, examinando sua consciência dos pecados que naquele dia cometeu; propondo com a graça do Senhor a emenda deles; tendo propósito de se confessar a seu tempo. E porquanto o sono e a imagem da morte e muitos, que se deitara a dormir bem dispostos amanhecem mortos, direi, com grande arrependimento de meus pecados, a confissão geral e me encomendarei ao Santo anjo da guarda. Direi desta maneira:

14. Eu, pecador muito errado me confesso ao senhor Deus e a Santa Maria e a São Miguel, o anjo e a São João Batista, e a São Pedro e a São Paulo e a São Tomé, e a todos os Santos e Santas da corte do céu, e a voz, padre, digo minha culpa que pequei grandemente por pensamento e por fala e por obra, do muito bem que pudera fazer e não o fiz, e do muito mal de que me pudera apartar e não me apartei. De tudo me arrependo, digo a Deus minha culpa, Senhor, minha culpa, minha grande culpa. Peço e rogo à minha Senhora Santa Maria e todos os santos e santas, que queiram por mim rogar a meu senhor Jesus Cristo que me queira perdoar dos meus pecados presentes, passados, confessados, esquecidos e que, daqui por diante, me de a sua graça, me guarde de pecar e me leve a gozar da glória do paraiso. Amém, Jesus.

15. Ó anjo de Deus que és minha guarda, pela piedade suprema a mim, a ti cometido, salva, defende e governa. Amem, Jesus

16. Rogo-te, Anjo bento, a cuja providência eu sou encomendado, que sempre sejas presente, em minha ajuda. Ante Deus Nosso Senhor, apresenta os meus rogos a suas mui piedosas orelhas, para que, por usa misericórdia e tuas preces, me dê perdão de meus pecados passados e verdadeiro conhecimento e contrição dos presentes, e aviso para evitar os pecados vindouros, e me dê graça para bem obrar e até ao fim perseverar. Afasta de mim, pela virtude de Deus todo-poderoso, toda a tentação de Satanás. E, o que não mereço por minhas obras, tu alcança por teus rogos por mim, ante Nosso Senhor, que em mim não haja lugar e mistura de alguma maldade. E se, algumas vezes, me vires errar o bom caminho e seguir os errores do pecado, tu provura de me volver a meu Salvador, pelas carreiras da justiça. E quando me vires em alguma tribulação e angústia, faz que me venha adjutório de Deus, por teus doces socorros.

Rogo-te que nunca me desampares, mas sempre me cubras e visites e ajudes e defendas de toda a fadiga e guerra dos demônios, vigiando de dia e de noite, em todas as horas e momentos. Onde quer que andar, guarda-me e acompanha-me. Isso mesmo e peço, meu guardador, que quando desta vida partir, não deixes que me espantem os demônios, nem me deixes cair em desesperação, nem me desampares, até me levar à bem-aventurada vista de Deus Nosso Senhor, onde eu, contigo e com a bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, e com todos os santos, para sempre folguemos em a glória do paraíso, que nos dará Jesus Cristo Nosso Senhor, o qual com o Pai e com o Espírito Santo, vive e reina para sempre Amem.

Oração a Deus Nosso Senhor, à Virgem Senhora Nossa e a S. Miguel

17. Ó meu Deus poderoso e Pai piedoso da minha alma, Criador de todas as coisas do mundo, em vós, meu Deus e Senhor, pois sois todo meu bem, creio firmemente, sem poder duvidar, que me hei-de salvar, pelos méritos infinitos da morte e Paixão de meu Senhor Jesus Cristo, ainda que os pecados de quando era pequeno sejam muito grandes, com todos os demais que tenho feitos. Vós, Senhor, me criastes e destes alma e corpo e quanto tenho. E vós, meu Deus, me fizestes à vossa semelhança, e não os falsos pagodes, que são deuses dos gentios, em figuras de bestas e alimárias do diabo. Eu arrenego de todos os pagodes e feiticeiros e adivinhadores, pois são cativos e amigos do diabo. Ó gentios, que cegueira e pecado é o vosso tão grande, que fazeis a Deus besta e alimária, pois o adorais em suas figuras! Ó cristãos, dêmos graças e louvores a Deus trino e uno, que nos deu a conhecer a fé e lei verdadeira de seu Filho Jesus Cristo.

18. Ó senhora Santa Maria, esperança dos cristãos, rainha dos anjos e de todos os santos e santas que estão com Deus Nosso Senhor no céu, a vós, Senhora, e a todos os santos, me encomendo agora para a hora da minha morte, que me guardeis do mundo e carne e diabo, que são meus inimigos, desejosos de levar a minha alma ao inferno.

19. Ó Senhor São Miguel, defendei-me do diabo, à hora da minha morte, quando estiver dando conta a Deus de toda minha vida passada.

20. Pesai, Senhor, os meus pecados com os méritos da morte e Paixão de meu Senhor Jesus Cristo e não com os meus poucos merecimentos: assim serei livre do poder do inimigo e irei gozar, para sempre, da glória do paraíso. Amem, Jesus.

Que coisa é pecado venial e por quantas coisas se perdoa. Que coisa é pecado mortal e como se perdoa.

21. Pecado venial não é outra coisa senão uma disposição de pecado mortal, e chama-se pecado venial porque levemente se há perdão dele. Perdoa-se por nove coisas: a primeira é por ouvir Missa; a segunda, por comungar; a terceira, pro benção episcopal; a quarta, por confissão geral; a quinta, por água benta; a sexta, por pão-bento; a sétima,, por bater no peito; a oitava, por dizer a oraçãop do pater noster, devotamente; a nona, por ouvir a pregação. Tudo isto com arrependimento.

22. Pecado mortal é querer, ou dizer, ou fazer alguma coisa contra a lei de Deus ou deixar de fazer o que manda. E chama-se mortal, porque mata o corpo e alma eternamente daquele que, sem dele [sendo mortal] fazer Penitência, faleceu. Pelo pecado mortal, perde o homem a Deus, que o criou, e perde a glória que lhe prometeu, e perde o corpo e a alma que lhe remiu, e perde os merecimentos e benefícios da Santa Madre Igreja, e perde mais os bens que faz em pecado mortal, porque não prestam para sua salvação, posto que aproveitem para o acrescentamento da saúde e bens temporais e para diminuir nas penas e para vir em conhecimento do pecado em que está, para sair dele. Porque, se o pecador se arrepende do pecado com propósito de não pecar, e se confessar ao tempo que manda a Igreja, este já está em verdadeira penitência e é capaz dos merecimentos e indulgências da Igreja, e os bens que fizer lhe aproveitam para tudo.

O pecado mortal se perdoa por quatro coisas: a primeira é por contrição; a segunda, por confissão de boca, com contrição, ao próprio sacerdote; a terceira, por satisfação de obra com contrição; a quarta, por propósito de não tornar mais a pecar, com contrição.

Oração da Vera Cruz

23. Ó cruz bem-aventurada, que foste consagrada com o corpo de meu Senhor Jesus Cristo, e foste esmaltada de seu precioso sangue, peço-te, Senhor Jesus Cristo misericordioso, por virtude da tua morte e Paixão, que naquela sacratíssima cruz padeceste, me queiras perdoar meus pecados, assim como perdoaste o ladrão, estando tu, benigno Senhor, crucificado nela, e me dês vencimento contra meus contrários, e os meus inimigos queiras trazer a verdadeiro conhecimento que se arrependam. Amem, Jesus.

Como hão-de estar os meninos e meninas ao ouvir a Missa

24. Sejam os meninos e as meninas ensinados como hão-de estar calados, na igreja. À confissão, estejam de joelhos; e à gloria in excelsis, estejam em pé; e logo à oração, em joelhos, afora entre Páscoa e natal; à epistola, estejam sentados; e ao evangelho, em pé, com grande reverência; e ao Credo, e dizendo Homo factus est, ponham os joelhos no chão. Ao prefácio, estejam em pé; e, depois do sanctus, em joelhos até ao cabo da Missa e tomar a bênção do sacerdote.

25. Também lhes ensinem pela manhã, antes que outra coisa façam, alguma devoção de algumas aves-marias e pater noster e Credo. Ao menos, três aves-marias em joelho: a primeira, à fé com que Nossa Senhora concebeu o Filho de Deus; a segunda, à dor quando o viu expiar na cruz; a terceira, ao prazer da ressurreição. Outro tanto à noite, antes que se deitem. E também ao meio-dia rezem alguma coisa, em memória da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

26. Oração à hóstia: Adoro-te, meu Senhor Jesus Cristo, e bendigo a ti, que pela tua santa cruz remiste o mundo e a mim. Amém, Jesus.

27. Oração ao cálix: Adoro-te, sangue de meu Senhor Jesus Cristo, o qual foi derramado na cruz, para salvar os pecadores e a mim Amem, Jesus.

Lembranças do B. P. Francisco feitas aos que se desejam salvar

28. Lembre-se todo o pecador que há muito grande diferença de pecar mortalmente, por costume, e pecar acidentalmente e não por costume. Saiba certo que é necessário deixarem os homens os pecados de costume, na vida, e não aguardarem para os deixarem à hora da morte, porque, aguardando a tal tempo, os pecados deixam aos pecadores e não os pecadores aos pecados; e, nestes tais pecadores, a justiça de Deus se manifesta, quando morrem, ficando condenados para as penas do inferno. Mas em os que acidentalmente e não por costume pecam, trabalhando de guardar os mandamentos, usa Deus de sua misericórdia com eles, à hora de sua morte.

29. Todas as orações, esmolas e benfeitorias, e trabalhos ordenados, e enfermidades sofridas com paciência, e as obras de misericórdia que cumprir, e todos os outros bens que fizer, serão ordenados a este fim, rogando ao Senhor Deus lhe dê graça: para se desacostumar de pecar contra os dez Mandamentos, nos quais por mau costume peca, pois para salvação da minha alma me é tão necessário desacostumar-me de pecar, porquanto os pecados de costume são os que levam os homens ao inferno.

30. Lembre-se todo o cristão da continua memória da morte e da brevidade dela, e da conta tão estreita que a Deus há-de dar de toda sua vida passada, quando morrer; e a lembrança do dia do juízo universal, quando todos, em corpo e alma, ressurgirmos; e das penas perpétuas do inferno, que nunca têm fim; e a lembrança da glória do paraíso, para a qual fomos criados. Todas estas coisas cuidadas, cada dia me ajudarão muito para me dispor a fazer agora o que à hora da minha morte queria ter feito, para ir à glória do paraíso.

Todo fiel cristão, que esta regimento guardar, ganhará nesta vida, com a graça do Senhor, a glória do paraíso.

Obras Completas – Edições Loyola

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(carta 15) CONVITE À CONVERSÃO

Setembro 12, 2008 · 1 Comentário

Para o judeu Consílio

Saudação e objetivo

Louvado seja Jesus Cristo crucificado, filho da gloriosa virgem Maria. A ti, caríssimo irmão, (1) resgatado como eu pelo precioso sangue do Filho de Deus, eu Catarina indigna escrevo, obrigada pelo Cristo crucificado e pela sua amável mãe Maria, a fim de pedir a recordar com insistência que abandoneis a infidelidade, vos convertais e recebais a graça do santo batismo, pois sem ele não podeis receber a graça de Deus e o dom divino.

Apelo à conversão

Quem não é batizado não participa dos benefícios da santa Igreja, mas como um membro apodrecido e separado da comunidade dos fiéis cristãos, passa da morte temporal para a morte eterna, e com razão recebe o castigo e as trevas, porque não quis lavar-se na água do santo batismo e desprezou o sangue do Filho de Deus, que o derramou com tanto amor.

Caríssimo irmão em Jesus Cristo!Abre o olhar da inteligência e contempla a infinita Bondade, que age no teu coração e mediante os seus servidores (2) te pede e convida, que deseja fazer a paz contigo; sem olhar a longa guerra que lhe fizeste por tua infidelidade.

Nosso Deus é tão bondoso e benigno, que depois que nos veio a lei do amor e que o Filho de Deus nasceu da virgem Maria, derramou seu sangue no madeiro da cruz e podemos acolher em abundância a misericórdia divina. A lei de Moisés baseava-se na justiça, na punição. A nova lei, dada por Cristo crucificado, fundamenta-se no amor e na misericórdia. Deus é bondoso e benigno: acolhe quem a Ele retorna com humildade, fidelidade e fé na vida eterna. Parece nem se recordar das ofensas que lhe fazemos, não quer condenar-nos eternamente. Deus só deseja ser misericordioso.

Portanto, meu irmão, levante-te desejoso de unir-te a Cristo. não durmas na cegueira. Deus não quer, nem eu, que a morte te encontre na cegueira. A minha quer ver-te batizado, como um servo sedento da água viva (sl 41,2). Não resistas ao Espírito Santo, que te chama; não desprezes o amor de Maria por ti; não recuses as orações que são feitas a teu favor. Em tudo isso seria grave o julgamento divino.

Exortação. Conclusão

Permanece na santo e doce amor de Deus. Pessoalmente peço à Verdade suprema que nos ilumine, nos encha de sua santissima graça e realize o meu desejo em ti, Consílio. É o que Jesus Cristo mandou dizer-te  Consílio. Louvado seja Jesus Crucificado e sua amável mãe, a gloriosa virgem Maria. Jesus doce, Jesus amor

(1) Consílio era um judeu nascido em Pádua, que se estabelecera em Sena como banqueiro de empréstimos, junto com seu irmão Dattaro. Eram riquíssimos. Obtida da República a licença para tal trabalho, não incorriam em penas eclesiásticas. Catarina convida Consílio a se batizar. Talvez ela pensasse também no irmão, pois a certa altura fala em vós.

(2) Com a palavra sevidores o texto quer  indicar os discípulos de Catarina, muito numerosos em Sena, os quais certamente falaram a ela sobre o banqueiro

Cartas Completas – Editora Paulus

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(carta 13) Como adquirir a paciência

Setembro 10, 2008 · Deixe um comentário

Santa Catarina de Sena

Santa Catarina de Sena

Para Marcos Bindi

Saudação e objetivo

Caríssimo irmão no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Deus, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver alicerçado na verdadeira e santa paciência, pois de outro modo não agradaremos a Deus e perderemos o prêmio de nossas fadigas.

A paciência é possível a todos

De fato, todos precisamos desta bela virtude. Se me disserdes:”Vivo em grandes dificuldades, não tenho forças para ser paciente e nem sei como chega-lo a sê-lo”, eu vos respondo: Quem segue a luz da sua razão (iluminada pela fé) consegue atingir a paciência. Concordo que somos fracos em nossa sesualidade. Sobretudo se a pessoa se apega desordenadamente a si mesmo, às pessoas e aos bens materiais. Quem é assim, sofre muito quando perde algo. Mas para quem usa retamente sua razão Deus lhe fortalece sua vontade e aquela fraqueza é vencida. Deus jamais despreza os esforços feitos para superar queixas exageradas. Ele aceita os bons desejos e concede a paciência na dificuldade.

Como vedes, todos podem chegar a ter paciência se usarem a reta razão e não ficarem únicamente ruminando a própria fraqueza. A nós dotados de razão, seria muito incoveniente fixarnos numa atitude irracional. Não somos como os animais. Ao nos impacientar escandalizamo-nos por acontecimentos permitidos por Deus e o ofendemos.

Quatro coisas necessárias para ser paciente.

Que devemos fazer para sermos pacientes, já que podemos e devemos adquirir esta atitude para não ofender a Deus? Quatro coisas!

Primeiro devemos ter fé

Digo que a primeira coisa é possuir a iluminação da fé. Com a luz desta virtude conseguiremos todas as outras; sem ela andaremos no escuro como um cego, para quem o dia torna-se noite. Para pessoa sem fé, tudo o que Deus faz por amor na claridade da luz, torna-se escuridão, trevas de ódio, pois a pessoa pensa que é por ódio que Deus permite os sofrimentos e as dificuldades. Vede como precisamos da luz da fé!

Segundo, devemos pensar que tudo vem de Deus por amor

A segunda coisa é crer firmemente que Deus existe e que tudo vem Dele menos o pecado. Não vem de Deus a má vontade do pecador. O restante – quer provenha do fogo, da água, da morte ou de qualquer outra coisa – vem de Deus. Diz Jesus no evangelho que sem a providência Divina não cai uma folha das árvores e diz ainda que os cabelos da nossa cabeça estão todos contados, e que nenhum deles cai sem que Deus o saiba (Mt 10,29). Ora, se Jesus fala assim a respeito das coisas materiais com maior razão cuida de nós criaturas racionais. Em tudo o que nos manda o permite, Deus usa da sua providência. Tudo é feito por Deus com mistério e amor. Jamais por ódio!

Terceiro, devemos crer que até na dor Deus nos quer felizes

Terceiro ponto; ocorre entender na fé que Deus é bondade suprema e eterna, que ele somente quer nosso bem. Desejo de Deus é que nos santifiquemos. Tudo o que Ele nos manda ou permite tem esta finalidade. Se duvidarmos disto, erramos. Basta pensar no sangue do humilde e imaculado cordeiro, transpassado pela lança, sofrido, atormentado. Entenderemos que o Pai eterno nos ama. Por causa do pecado, nos tinhamos tornado inimigos de Deus. Amorosamente, o Pai nos deu o Verbo, seu filho Unigênito. Este último entregou  por nós sua vida, correndo para uma vergonhosa morte na cruz. Por qual razão? Por amor a nossa salvação. Como vedes o sangue de Jesus dissipa toda a dúvida em nós, de que o Pai queira outra coisa além da nossa santificação. Aliás, como poderia Deus querer algo fora do bem? Impossível! Como poderia o supremo Bem descuidar-se de nós? Ele que nos amou antes de existirmos, Ele que por amor nos criou à sua imagem e semelhança, não poderia deixar de nos amar de prover às necessidades de nossa alma e do nosso corpo.

O criador sempre nos ama como criaturas suas. Somente o pecado Deus detesta em nós. Durante esta vida, na medida das nossas necessidades, Ele permite dificuldades quanto aos bens materiais. Como sábio médico nos ministra o remédio de que precisa nossa enfermidade. Deus age assim para eliminar nossos defeitos aqui na terra de maneira que tenhamos que sofrer menos na vida futura; ou para pôr à prova nossa paciência. Querendo experimentar Jó o senhor retirou-lhe os filhos e filhas; quanto ao corpo, mandou-lhe uma verminose e usou sua mulher para prova-lo no sofrimento, pois ela o atormentava com maldosas ofensas. Após provar a paciência de Jó Deus restitui-lhe o dobro em tudo e Jó não reclamou. Pelo contrário, dizia: “O senhor me Deus, o senhor me tirou. Bendito seja o seu nome” (Jó 1,21).

Deus permite algumas vezes tais coisas, para que nos conheçamos melhor em nossa instabilidade. E também conheçamos a instabilidade deste mundo. Tudo o que temos – vida, saúde, esposa, filhos, riquezas, posições sociais, prazeres – tudo nos é dado por Deus como empréstimo para nosso uso. Não como propriedade. É assim que devemos tratar tais coisas. Tanto é verdade, que não podemos impedir que tais coisas nos sejam retiradas quanto à graça divina é diferente. Nem os demônios nem outras criaturas nem as perseguições conseguem retirar de nós, se não dermos nosso consentimento.

Quando uma pessoa entende qual é a perfeição da graça e qual é a imperfeição do mundo e do nosso corpo, ela deixa de valorizar os prazeres mundanos e a própria fragilidade, pois tais realidades muitas vezes ocasionam a perda da graça por causa do amor sensível. E em sentido oposto começa a valorizar as virtudes que são os meios para conservarmos a graça. Pois bem, tudo isso nos vem de Deus por amor, afim de que viril e santamente preocupados nos afastemos do mundo e busquemos os bens eternos; deixemos de lado a terra com suas mazelas e procuremos ganhar o céu.

Sim não fomos criados para nos alimentar de terra. Somos peregrinos por aqui passam praticando a virtude em busca do Fim. Durante a caminhada não nos devemos deter por causa de algum prazer oferecido pelo mundo. Virilmente temos de nos apressar olhando as coisas da vida não com desordenada alegria ou com impaciência, mas na paciência e no Santo Temor.

O sofrimento que padeceis é de grande utilidade para vós. Deus vos oferece o modo de romper muitas amarras e de aperfeiçoar vossa consciência. Deus vos libertou e vos indicou a estrada, se é que a desejais segui-la. A eles (ou:elas) Deus deu a vida eterna e vos convida a alcança-la também por meio do sofrimento, afim de que conheçais a bondade divina e vossos defeitos, durante o restante da vossa vida.

Quarto, devemos meditar sobre os próprios pecados

A quarta coisa necessária para se tornar paciente é esta: Refletir sobre os próprios pecados e defeitos, sobre quanto já ofendemos a Deus. Ele é o Bem infinito. Destes pecados e defeitos, grandes ou pequenos que sejam, resultaria para nós um castigo infinito. Infelizes que somos! Ofendemos nosso Criador e merecemos mil infernos. E quem é este Criador ofendido! É a bondade sem limites. E nós quê somos? Nada! O ser que temos e qualquer outro beneficio a ele acrescentado, tudo veio de Deus. Por nós mesmos, nada somos. Em tal situação e merecendo um castigo eterno, Deus nos purifica aqui na terra. Mas ainda se aceitamos o sofrimento purificador alcançamos méritos. Isso não se cede na purificação da vida futura; no purgatório a alma se purifica mas nada merece. Como nos convém, pois tolerar com paciência estas pequenas dores agora.

Pequenas dores repito, por causa da brevidade desta existência. Aqui na terra a dimensão da dor tem a dimensão do tempo. E qual é a extensão do tempo? Assemelha-se à ponta de uma agulha. Assim sendo a dor é pequena. O sofrimento que passou ficou para trás, não o sinto mais; o sofrimento futuro ainda não padeço, e nem tenho certeza de continuar vivo. Posso morrer e não sei quando. Somente o presente existe nada mais. Soframos, então, com alegria. Toda ação boa é remunerada. Toda culpa é punida. São Paulo afirma: “Os sofrimentos desta vida não se comparam com a glória que receberá a alma paciente.” (cf. Rm 8,18).

Últimos conselhos. Conclusão

Eis a maneira como podereis adiquirir a virtude da perfeita paciência. Tal virtude adquirida com amor na fé vos fará tirar proveito de todo sofrimento. Em caso contrário, perdereis os bens terrenos e os celestes. Não existe outra solução. Por tal motivo disse eu acima que desejava vos ver alicerçado na perfeita paciência. Rogo-vos agir assim. Lembrai-vos do sangue de Jesus Cristo crucificado. Toda tristeza se mudará em alegria, todo peso se tornara leve. Não fiqueis a escolher tempos e lugares; contentai-vos com aquilo que Deus vos dá. Senti compaixão pelo que aconteceu. Ao que parece foi muito doloroso mas tudo aconteceu por providência divina e para vossa salvação. Peço-vos sejais forte e não relaxeis na suave disciplina da religião.

Nada mais acrescento, a não ser que aproveiteis o tempo em quanto o temos. Permaneceis no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.

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